Tres capitaes

Corrêa, José Augusto

Português · 1922 · 7 h 48 min

TRES CAPITAES

Impresso em machina Marinoni, na =Typ. Minerva= de Gaspar Pinto de Sousa & Irmão V.ª N.ª de Famalicão

José Augusto Corrêa

TRES CAPITAES

[Illustration]

FAMALICÃO TYP. MINERVA DE GASPAR PINTO DE SOUSA & IRMÃO 20—Rua de Santo Antonio—24 1909

RAZÃO DE SER

É opportunissimo o momento de estudar e de tentar descrever as duas grandes capitaes da America do Sul, rivaes pela opulencia, vizinhança, estimulo e por consubstanciarem e traduzirem a riqueza, o porvir, a grandeza e a gloria de duas pujantissimas nacionalidades, destinadas aos mais brilhantes destinos.

Montevideu, capital de um pequeno Estado, comparado com o Brasil e a Republica Argentina, entre os quaes agita-se, febrilmente, servindo-lhes de constante pomo de discordia, não obstante ser uma cidade importante e interessantissima, póde considerar-se um compasso de espera no parallelo entre o Rio de Janeiro e Buenos-Aires.

Das três capitaes trata este livro; porém o seu interesse maximo concentra-se na apreciação d'estas duas famigeradas metropoles que, encarniçadamente, disputam-se a primazia sul-americana.

O auctor percorreu-as pessoal e minuciosamente, detendo-se, com especialidade e interesse, nos pontos em que o seu orgulho e patriotismo de cidadão brasileiro, teve de ceder o logar á admiração pelos progressos affirmados, ha muitos annos, em varios aspectos da grandiosa capital argentina.

Do terreno sacrosanto e utilissimo da actividade e competencia nas diversas manifestações da civilização e do progresso dos povos e das nacionalidades, não deve admittir-se, hoje em dia, que ultrapasse a rivalidade entre os membros da grande familia humana, collectiva e individualmente considerados.

Toda a America é um grandioso laboratorio, onde o trabalho e o capital dão-se as mãos no desenvolvimento dos tres grandes factores da prosperidade das nações—a agricultura, o commercio e a industria.

Os Estados Unidos da America do Norte, porém, attingem, actualmente, o vertice da escala progressiva, tendo dado, ao mundo, o assombroso exemplo de quanto póde a energia de uma raça preponderante, auxiliada pela collaboração de todos os povos da Terra.

A America Central está dividida em pequenas Republicas que, a cada passo, guerreiam-se e esphacelam-se em mesquinhas lutas de interesses.

É na parte meridional d'aquelle immenso e uberrimo continente que, n'este instante da vida universal, produz-se, principalmente, a vitalidade da raça latina, quasi expurgada dos vicios hereditarios das suas antigas metropoles, pelos beneficios da immigração e pelas excellencias das instituições democraticas, fundidas no preciocissimo cadinho de uma natureza bella e fecunda.

Na America do Sul, todavia, nem todas as nações progridem á altura das suas instituições politicas e do sólo ubérrimo que as alimenta.

No Mar das Antilhas, a Venezuela, dá-nos o degradante espectaculo de uma democracia subjugada por um tyranno demente e senil.[1]

A Colombia, cujo territorio é banhado pelos dois maiores oceanos do nosso planeta, vegeta em condemnavel apathia.

Encravada entre ella e o Perú, a Republica do Equador mantem-se, equilibrada, no concerto sul-americano.

Das tres nacionalidades que degladiaram-se, ha annos, por questões de territorio, apenas o Chile conserva relativa importancia, devido á sua invejavel e especialissima situação geographica e topographica.

Quanto á Bolivia e ao Perú, tardiamente recuperarão as energias perdidas.

O Paraguay e a Republica Oriental do Uruguay, abafadas pela approximação de dois colossos, debatem-se entre as ambições e os interesses de ambos, influenciadas ora por uma ora por outra das parcialidades rivaes.

Só o Brasil e a Republica Argentina estão em plena e progressiva prosperidade, pleiteando-se, honrada e gloriosamente, no campo da actividade humana. Por vezes, essa effervescencia ameaça degenerar em conflicto armado, por causa de ambições desmedidas e, especialmente, de vinganças e de represalias entre personalidades rivaes e preponderantes em um e outro paiz.

Estanislau Zeballos, por exemplo, estadista e escriptor de merecimento, alto commissario e arbitro argentino no pleito das Missões, nunca poude perdoar ao Brasil, em geral, e particularmente ao Barão do Rio Branco, representante brasileiro n'esse litigio, a victoria d'este ultimo.

Esses dois eminentes cidadãos encontraram-se, ao mesmo tempo, á frente do ministerio das relações exteriores dos seus respectivos paizes. D'ahi más vontades, animosidades, ameaças de rompimento, mal estar geral, atmosphera pesada e quente.

O Barão do Rio Branco, á força de prudencia e de diplomacia, conseguiu conjurar a tormenta, vencendo, mais uma vez, o seu terrivel adversario.

Este não desanimou, porém, e saíndo do ministerio, foi para as columnas de "La Prensa", o mais importante jornal argentino, mover tremenda campanha contra o Brasil e o seu rival.

Crêmos, todavia, que como aquellas, falharão todas as tentativas que, n'uma e n'outra nacionalidade, sejam feitas para alterar a paz entre os dois povos. Estes são bem os successores e os continuadores de hespanhoes e portuguezes, para os quaes o pontifice Alexandre VI dividiu o mundo, em duas partes iguaes, e que gravaram, nas paginas da Historia, feitos de tanta e tão imperecivel gloria, que desafiam a acção deleteria do tempo, e fulgirão, deslumbrantemente, pelos seculos além, até ao ultimo alento vital da humanidade.

Brasileiros e argentinos continuarão, pacifica e activamente, a desenvolver as suas aptidões e os seus recursos naturaes, de cuja actual importancia póde avaliar-se pela descripção das suas soberbas capitaes.

O conhecimento e a comparação dos elementos progressivos de ambas, assim como as suas preciosidades e defeitos, poderão servir de orientação e de estimulo no aproveitamento de uns e na eliminação e substituição de outros.

Eis a razão de ser d'este livro, escripto com toda a imparcialidade e inspirado no interesse e no amôr a que tem direito a grande familia humana, e não sómente o povo entre o qual nascemos e as encostas e os valles que repercutiram os nossos primeiros vagidos e beberam as nossas e as lagrimas das nossas mães.

[1] No momento d'este livro entrar no prélo parece finda a dictadura do general Castro.

RIO DE JANEIRO

Domingo de Ramos

Ás 5 horas da manhã de 12 de Abril de 1908, o velho e rapido transatlantico Magellan, da Messageries Maritimes, passou por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, e deixando atrás de si a de Villegaignon, fundeou defronte das ilhas Fiscal e das Cobras, N'este momento já o astro-rei emergia do Oriente, a realçar e aureolar a maravilhosa e incomparavel belleza natural da bahia de Guanabara, e do immenso e formosissimo scenario que a abraça em deslumbramentos de apotheose.

A amplidão da bahia, semeada de muitas e grandes ilhas, circumdada de duas cidades e de ridentes povoações, a alvejarem por entre verdejantes e floridos maciços; as serras e montanhas, opulentamente vestidas, até aos vértices, e que encantadoramente fecham a orla do horizonte; todo esse empolgante conjuncto, que constitue o mais bello e arrebatador panorama do nosso globo, patenteava-se alli, á nossa vista deslumbrada.

Ao mesmo tempo, o nosso pensamento, enlevado nas sublimidades do supremo encanto e da belleza maxima, divinizava-se aos esplendores eternos.

Approximavam-se as visitas officiaes e, após ellas, immensos botes e pequenos vapores conduzindo parentes e pessôas amigas dos passageiros.

Em um d'elles lobrigamos gente querida, havia muito tempo ausente, e com ella desembarcamos, radiantes de contentamento e anciosos de revêr e percorrer de novo a terra idolatrada, hoje transformada e onde se passaram os melhores annos da nossa mocidade. Era ainda cêdo para almoço. Que fazer?

—Dar um passeio, de bonde, até á Gavea, alvitrou alguem.

Unanimamente approvada a ideia e ... a caminho.

Estavamos em Botafogo, o bairro da aristocracia, do luxo, da elegancia, da formosura e do supremo gosto.

O bonde electrico começou a deslisar e os nossos olhos não sabiam o que mais admirar, se os primôres irradiantes da paisagem, se as curiosidades que nos cercavam, quasi originaes para nós, empolgantes e interessantissimas.

O vehiculo parou defronte da matriz de S. João Baptista, e foi invadido por numeroso grupo de crianças e senhoras, que empunhavam floridos ramalhetes, de varios tamanhos, vélas de cêra enfeitadas a papeis de côres e cannas servindo de hastes a ramos de flôres.

—O que é isto? inquirimos.

—Domingo de Ramos, foi a resposta.

Continuamos a observar as devotas. Nada póde haver de mais bizarro e extravagante.

A variedade de colorido cançaria a paciencia ao mais habil classificador de nuances.

Desde o negro retinto e do preto suavisado pelo cruzamento do sangue, até ao vermelho aloirado das filhas de Albion e da Germania, tudo alli se via em mistura de encantos, a contrastar cora as côres berrantes dos vestuarios e com os deslumbramentos da paisagem, ridente de primôres e abrasada de sol.

A manhã brilhava na suavidade e frescura do arvoredo, no dorso azulado das montanhas, ao longe acariciadas e envoltas por nuvens que hauriam-lhes as humidas e fecundantes exuberancias.

E o electrico continuava sempre a correr entre a apotheose da natureza e os vividos quadros realçados pelas cariocas que empunhavam os ramos commemorativos da entrada triumphal de Christo na cidade deicida.

O bonde parára á porta de outra egreja. Era a matriz da Gavea. Grande e garrula renovação, de passageiras.

Como as primeiras, as nossas novas companheiras de passeio eram igual e altamente interessantes nas côres do rosto, do vestuario, dos floridos tropheus e, principalmente, n'essa linguagem cantante e dulcissima, que é um encanto para quem vae acostumado ao forte e classico portuguez de Portugal. O tempo aquecêra, porém. A atmosphera tornára-se pesada e humida. As devotas, acclimadas, dessoravam a essencia das suas côres naturaes, emquanto que o nosso possante e adiposo tecido desfazia-se em liquidas camarinhas e ardentes exhalações.

Attingiramos o ponto extremo da linha dos electricos da Botanical Garden, depois de, por largo espaço, havermos seguido parallelamente a essa maravilha das curiosidades fluminenses que se chama Jardim Botanico.

Restava-nos retroceder.

As nossas garridas companheiras tinham ficado pelo caminho e desapparecido por entre frondosos e bellos jardins, que abraçavam lindissimas chacaras. Outras passageiras as substituiram; porém o interesse de observal-as tinha, pouco a pouco, cedido o logar a um appetite devorador e á morbida prostração causada pelo vazio do estomago e pela ardencia rigorosa e dissolvente da canicula.

Em todo o caso, a primeira impressão fôra de ineffavel agrado e de saudosissimas recordações. Elle ahi estava, bem patente ao nosso olhar investigador, esse Rio de Janeiro exuberante de seducções e de primôres, em profundo renovamento esthetico, mas sempre soberbo e magnificente nos inesgotaveis thesouros da sua pujantissima natureza, que eternamente o sublimarão á hierarchia da mais bella cidade da Terra.

E como dirigissemos um ultimo olhar de despedida e de admiração á paisagem circundante, vimos o dorso imponente e alteroso do Corcovado, ligeiramente occulto pelas proprias emanações, liquidificadas em diaphana e alvissima nuvem. O Chapéu de Sol, a refulgente auréola do seu vértice, velado pelas opulencias do ether, trocava segredos com os mysterios do infinito, talvez haurindo dos arcânos da immensidade nova e deslumbrante apotheose, com que divinizar o já inextinguivel diadema de soes, que realça os naturaes esplendores da capital brasileira aos deslumbramentos divinos.

Situação e Aspecto Geral

Entre 22°43´ e 23°6´ de latitude Sul, 4° de longitude Este, e 35° long. Oeste, abre-se a entrada da bahia e do porto do Rio de Janeiro, apenas com 1:500 metros de largura, mas que, no interior, attinge a amplidão de 28 kilometros por 30 kilometros de comprimento.

Os transatlanticos passam por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, deixando, á esquerda, a gigantesca mole do Pão de Assucar e a fortaleza de S. João.

N'esse momento enfrentam a fortaleza de Villegaignon, já em plena bahia, deixam-n'a á rectaguarda e vão fundear no quadro dos navios mercantes, além das ilhas Fiscal e das Cobras.

D'ahi, do centro do mais vasto e bello porto de mar do mundo, a vista abrange um dos mais empolgantes e arrebatadores panoramas do nosso planeta. A magestosa bahia, semeada de oitenta ilhas e ilhotas, é ladeada pelas cidades de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro, na margem oriental, e do Rio de Janeiro, capital da Republica dos Estados Unidos do Brasil, do lado occidental. O horizonte do observador é limitado por serras e cordilheiras, das quaes a mais importante é a dos Orgãos, ao Norte. Ao contemplal-a, da entrada do porto, nota-se a figura de um gigante, deitada sobre o dorso.

A immensa bahia de Guanabara, capaz de abrigar todas as esquadras bellicas e mercantes do nosso globo, forma ainda duas enseadas, a de Botafogo e a de Jurujuba.

O aspecto geral da capital da Republica, visto do porto é, ao mesmo tempo, formoso e imponente, se bem que, em grande parte, prejudicado pela sua configuração topographica e, especialmente, pelos morros que pejam e encobrem a cidade, ao centro, nas extremidades e em toda a sua circumferencia.

Os primeiros são os do Castello, de Santo Antonio, de Santa Thereza, da Gloria e de S. Bento e os outros os da Conceição, Saude, Livramento, Providencia, Mundo Novo, Santos Rodrigues, Urca, Babylonia, Pinto, Paula Mattos, Pasmado, Viuva, Corcovado e Pão de Assucar.

A cidade occupa uma superficie de cêrca de dois mil kilometros quadrados, tendo 14 kilometros de extensão, de Norte a Sul, e 16 ditos, de Leste a Oeste. É limitada ao Norte e a Oeste pelos riachos Guandú, Merity e Guandú-Mirim, e ao Sul e Leste pelo Oceano Atlantico.

As condições climatericas da capital do Brasil estão hoje muito melhoradas com as importantissimas e grandiosas obras de saneamento e aformoseamento, effectuadas nos ultimos annos, e ainda por outras em execução. Emquanto, porém, o governo e a municipalidade não se resolverem a arrasar, entre outros, os morros do Castello e de Santo Antonio, dando mais ar, mais luz e mais ampla vista á cidade, as manifestações endemicas não deixarão de produzir-se, periodicamente, e com maior ou menor intensidade.

A temperatura média é de 24.°, subindo além de 30.° nos mezes de Dezembro a Abril, e descendo a 20.°, de Junho a Setembro.

A atmosphera é, quasi sempre, humida, o que explica-se pela abundancia de vegetação, que envolve o Rio de Janeiro em um perenne amplexo de frescura e de belleza.

A brisa terrestre, de manhã e á noite, e a que sopra do mar, desde as 11 horas da manhã ao crepusculo, são o providencial lenitivo dos fluminenses, na maior parte do anno.

Para abranger-se e gosar-se a mais ampla e a melhor vista geral do Rio de Janeiro, é preciso ascender ao Chapéu de Sol, vértice do morro do Corcovado. Para vistas parciaes, ou geraes, menos extensas do que aquella, prestam-se, entre outros pontos, o Observatorio Astronomico, no morro do Castello, a ponta do Curvello, em Santa Thereza, o Somaré, n'esta montanha, e o zimborio da Candelaria.

O aspecto geral da povoação é interessante e variadissimo.

O desembarque, no caes Pharoux, praça Quinze de Novembro, proporciona a vista dos dois passeios ajardinados, que formam esta praça, do palacio do Ministerio da Agricultura, do ex-palacio imperial, hoje repartição central dos Correios e Telegraphos, da estatua do general Osorio, ao centro; do Chafariz Colonial, da Cathedral e do templo do Carmo.

Seguindo-se a rua Primeiro de Março, ou boulevard Carceler, ampla e bella arteria que se prolonga ao morro de S. Bento, entra-se em plena cidade commercial. Ahi ostentam-se os grandiosos edificios da Bolsa, da egreja da Cruz dos Militares, do Correio Geral, do Supremo Tribunal Federal e do Arsenal de Marinha. D'ella partem e ahi bifurcam-se as estreitas e animadas ruas do Ouvidor, que terá menção especial, do Rosario, Hospicio, Alfandega, S. Pedro, General Camara, Theophilo Ottoni e Visconde de Inhaúma. Tomando-se pela primeira das ruas citadas, e depois de deixar-se, de um e outro lado, as ruas Julio Cesar, Quitanda e travessa do Ouvidor, entra-se na magestosa Avenida Central, que será descripta em capitulo separado. Atravessando-a, continuaremos, ainda pela rua do Ouvidor, que é cortada n'esse trajecto pelas ruas Gonçalves Dias e Uruguayana, até ao Largo de S. Francisco de Paula, centro civico de grande movimento, ponto central dos bondes das Companhias de S. Christovão e Carris Urbanos, as unicas empresas de viação carioca, ou fluminense, que ainda adoptam a tracção animal.

N'este largo admira-se a elegante frontaria do templo de S. Francisco de Paula, a estatua de José Bonifacio e o edificio da Escola Polytechnica.

A antiga rua do Theatro, communica a praça anterior com a da Constituição, em cujo centro eleva-se a estatua equestre, em bronze, de D. Pedro I, do Brasil. O theatro de S. Pedro de Alcantara, ostenta ahi a sua pesada architectura. Pela ampla rua da Constituição attinge-se a praça da Republica, uma das mais vastas do mundo, com um magnifico parque, circumdado, entre outros, pelos edificios da Municipalidade, Escola Normal, Quartel General do Exercito, Estação Central da E. F. D. Pedro II, Casa da Moeda, Senado e Archivo Nacional.

As ruas do Senador Eusebio e do Visconde de Inhaúma, principalmente, communicam a praça da Republica com a praça Onze de Junho e a Avenida do Canal do Mangue, que termina na avenida marginal do novo porto, actualmente em construcção.

N'este longo trajecto percorrido pelos bairros mais centraes e interessantes do Rio de Janeiro, a parte mais animada é a comprehendida entre as praças Quinze de Novembro e da Republica. É n'esse espaço, com as suas proximas dependencias, que concentra-se e desenvolve-se a vida commercial e civica da colossal metropole brasileira.

Outra corrida de orientação, para o observador intelligente, é a que partindo do ponto central dos bondes electricos da Botanical Garden, na Avenida Central, dirige-se ao extremo norte da grandiosa arteria e deixando, á esquerda, o elegante pavilhão de Monroe e o bellissimo Passeio Publico, junto a este entra na grandiosa e bella Avenida á Beira-Mar. Seguindo-a, o passeiante gosa dois panoramas rivaes em interesse e formosura, o da terra e o da bahia.

O primeiro proporciona-lhe os encantos irradiantes dos artisticos monumentos do Centenario, da fonte Ramos Pinto, da estatua do Visconde do Rio Branco; o pittoresco dos morros cobertos de casaria, que fecham o horizonte; em frente o legendario outeiro da Gloria, encimado pelo seu celebérrimo santuario e, ao fundo, o famigerado Pão de Assucar, em cuja cúspide será um dia erecta a gigantesca e symbolica estatua da Patria Brasileira que, empunhando o facho deslumbrante da Liberdade e da Gloria, illuminará a immensidade oceanica, a superficie terraquea e os mundos do firmamento com os esplendôres da pujante nacionalidade sul-americana.

Deixando, sempre á direita, o Palacio da Presidencia da Republica, a praça do Duque de Caxias, com o bello monumento d'este general, a estatua de José de Alencar e outros monumentos e numerosos bairros, arruados e edificios artisticos e interessantissimos, o forasteiro dará entrada no amplissimo e magestoso Botafogo, precioso escrinio da elegancia, da belleza e do luxo da capital fluminense.

Ahi a perspectiva é differente da anterior, mas igualmente empolgante e fascinadora.

Do lado esquerdo está a pequena e lindissima enseada de Botafogo que, nascendo da pujante Guanabara, por entre os morros da Viuva e da Urca, vem espraiar-se junto ao paredão da Avenida á Beira-Mar, que continuaremos a percorrer, deslumbrados pelo panorama geral, até que ella termine nos contrafortes da montanha Babylonia, magnifico scenario do ultimo certamen nacional.

Dos jardins e avenidas que decoram a esplanada da enseada de Botafogo, partem muitas e formosas ruas, algumas extraordinariamente extensas, como a dos Voluntarios da Patria, e todas ladeadas de lindas chacaras, no meio de floridos jardins e de bosquetes encantadores.

É aos portões d'esses minusculos paraisos que, passada a hora da ardencia solar, grupos de formosas e gentis senhoras concorrem a realçar a imponencia arrebatadora do quadro, aureoladas pelos deslumbramentos do crepusculo.

O aspecto geral do Rio de Janeiro de hoje, é o de uma grande cidade em completa e radical transformação para melhor.

Já muito pouco resta da velha metropole colonial, irregularmente edificada, ao acaso e ao capricho dos influentes locaes.

A independencia nacional e, nos ultimos vinte annos, a mudança de regimen politico, deram causa ao despertar de energias civicas que, em breve prazo, farão do Rio de Janeiro, não só a primeira cidade da America do Sul, mas tambem a rival gloriosa das mais celebres capitaes do nosso orbe.

Se, interiormente, a metropole fluminense é o que, rapidamente, vimos apreciando e vamos conhecer em detalhe, os seus arrabaldes e suburbios encerram e irradiam tanta pujança, belleza e encantos taes e tão maravilhosos, que a penna, por impotente, não póde traduzir nem pallidamente descrever.

Sob este ponto de vista, a capital do Brasil não conhece nem admitte rivaes.

O ineffavel amplexo da natureza que, perennemente, a envolve em deslumbramentos de apotheose, attestará ás gerações vindouras que é aqui o paraiso terreal e a metropole universal, por excellencia, onde, em porvir pouco distante, os povos da Terra celebrarão, com a gloria da nacionalidade brasileira, a civilização, o progresso e a grandeza da humanidade.

Historia

Os historiadores não são concordes sobre a data precisa em que a bahia do Rio de Janeiro foi entrada pelo primeiro europeu.

Emquanto uns fixam o anno de 1501 como o da descoberta da magnifica perola fluminense, outros affirmam que só no anno seguinte as aguas da poetica Guanabara foram sulcadas por embarcações portuguezas.

Parece mais acceitavel a versão de que o dia 1 de Janeiro de 1502 auxiliou o almirante lusitano Gonçalo Coelho a lançar as ancoras dos seus tres navios nas profundidades guanabarinas.

O navegador dirigia-se da Bahia de Todos os Santos a explorar a costa meridional da Terra de Santa Cruz. O facto do almirante não dar o nome de um santo ou santa á nova descoberta, como fizera a outros pontos da costa, anteriormente visitados, explica-se, talvez, pela supposição de que a bahia, que occupava, fôsse a foz de um rio, devido á sua configuração e amplitude.

D'ahi o nome de Rio de Janeiro, com que Gonçalo Coelho a baptisou e que ninguem, depois d'elle, se atreveu a mudar.

Tanto no littoral como nas principaes ilhas que enfeitam a bahia, o almirante portuguez encontrou estabelecidos os tamoyos, indios da raça tupy, cujas tabas, ou aldeias, estendiam-se em maior e mais densa quantidade, de Uruçumirim, hoje praia do Flamengo, até Paranapuan, ou seja a actual ilha do Governador.

Gonçalo Coelho continuou a navegar no rumo do Sul, e só 17 annos depois da sua descoberta, a bahia de Guanabara foi entrada por outra expedição europeia, commandada ainda por um portuguez, Fernão de Magalhães, mas ao serviço da Hespanha. D. Manoel, que ao tempo reinava em Portugal, tinha muito que fazer na Europa e para os lados do Oriente, não lhe sobrando o tempo para occupar-se de novas e longinquas descobertas.

Só no reinado de D. João III, seu filho e successor, entrou no Rio de Janeiro a primeira expedição militar portugueza, porque ao rei constára que, desde 1528, os francezes occupavam a bahia e as margens circumvisinhas.

Christovão Jaques commandava a esquadrilha lusitana, de reconhecimento, a que seguiu-se o grosso da expedição, sob as ordens de Martim Affonso de Souza, em 1531. Este desembarcou na pequena praia, fóra da barra, que se estende do morro da Babylonia ao da Urca, e que ainda hoje é conhecida pelo nome de porto de Martim Affonso.

Expulsos os intrusos, o commissario de D. João III, voltou, com as suas caravellas, para a Bahia de Todos os Santos, ficando novamente Rio de Janeiro desguarnecido.

Foi preciso que, vinte e quatro annos depois, em 1555, os francezes voltassem á carga, sob o commando do almirante Nicolas Durand de Villegaignon, para que o rei de Portugal, passados cinco annos, ordenasse a Mem de Sá, terceiro governador geral do Brasil, que expellisse os invasores.

Villegaignon, que sonhára fundar a França Antartica em terras de Santa Cruz, desembarcou á entrada da barra, na ilha da Lage, hoje fortificada, passando a occupar e a guarnecer a ilha de Serygipe, que, desde então, é conhecida pelo nome do almirante bretão, não obstante elle havêl-a baptisado Fort Coligny.

Quando, em 1560, Mem de Sá entrou, com onze navios, o porto do Rio de Janeiro, encontrou os francezes na melhor harmonia com os tamoyos, e reforçados por uma esquadrilha, ao mando de Bois Le Comte. Batidos, os invasores fugiram nos destroços dos seus navios, porém voltaram quatro annos, mais tarde, e estabeleceram-se na actual ilha do Governador, então Moracaia, ou Paranapuan.

D'esta vez foi um sobrinho de Mem de Sá, Estacio de Sá, que partiu directamente de Portugal ao Rio de Janeiro, a fazer frente aos obstinados usurpadores.

Foi em Abril de 1565 que a nova expedição deu entrada na bahia de Guanabara, e depois de reconhecer as fortes posições dos francezes, desembarcou no porto de Martim Affonso. Ahi, entre os morros da Urca e de Babylonia, o oceano Atlantico e a enseada de Botafogo, fundou Estacio de Sá uma povoação, Villa de S. Sebastião, Durante dois annos conservou-se o commandante portuguez n'esta posição, em continuas escaramuças com os francezes e os tamoyos, seus alliados, até que em 18 de Janeiro de 1567, appareceu Mem de Sá com cinco galeões e seis caravellas, bem guarnecidas, em auxilio do sobrinho. Logo tres dias depois, em 20 de Janeiro, os indios e os francezes fôram atacados e destroçados por mar e por terra. Em pleno combate, Estacio de Sá, teve o rosto varado por uma flexa, morrendo trinta dias depois e sendo sepultado na ermida de S. Sebastião.

Para celebrar a victoria, Mem de Sá, elevou a nascente povoação á cathegoria de cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, resolvendo transferil-a para o actual morro do Castello, sitio mais central e menos accessivel aos ataques dos inimigos.

Realisado este intento, e depois de cercar a nova cidade de muralhas e de fazer erigir no cume da montanha uma capella sob a invocação do orago da localidade, o governador geral regressou á Bahia, entregando o governo do Rio de Janeiro, a outro sobrinho seu, Salvador Corrêa de Sá. Este, alguns annos depois, fez trasladar a ossada do primo, da velha ermida, junto do Pão de Assucar, para a capella-mór do novo santuario. Cobre o tumulo uma lapide, com os seguintes dizeres:

"Aqui jaz Estacio de Sá Capitão e conquistador d'esta terra e Cidade. E a campa mandou fazer Salvador Corrêa de Sá, seu primo, segundo capitão e Governador, com suas armas. E esta capella acabou no anno de 1583".

A inscripção esquece-se de mencionar o principal titulo e a gloria immortal da pessôa a quem se refere—a de fundador do Rio de Janeiro. Da sua leitura conclúe-se que Estacio de Sá conquistou a cidade, o que não é verdade.

Salvador Corrêa de Sá, que governou durante trinta annos e morreu na idade de 113 annos, teve a habilidade de transformar os tamoyos em amigos dos portuguezes, e a tal ponto que o chefe indigena Ararygboia, foi o seu principal auxiliar nas luctas que teve de sustentar com os francezes, que não podiam conformar-se com a ideia de dar de mão á sua sonhada colonia Anctartica.

Taes foram os progressos da nova cidade, e tambem das suas immediações que, em 1608, o governo de Lisbôa elevou-a á cathegoria de governo geral, comprehendendo as capitanias de S. Paulo, do Espirito Santo e do Rio de Janeiro.

Depois da audaciosa tentativa de Villegaignon, o mais sério ataque dos francezes contra a preciosa perola de Portugal, realisou-se em 1710, sob o commando de Duclerc. Tendo desembarcado, em 11 de Setembro d'esse anno, na praia de Guaratiba, o inimigo conseguiu penetrar até ao centro da cidade, onde foi batido pela pequena guarnição militar, poderosamente auxiliada pelo povo e, especialmente, pelos estudantes. Dos 1:100 invasores, 400 pagaram, com a vida, as velleidades de conquista, entregando-se os restantes á benevolencia dos vencedores.

Quanto a Duclerc, foi assassinado por um desconhecido, seis mezes após estes acontecimentos.

O celebre Duguay-Trouin foi encarregado de vingar a derrota do collega, o que conseguiu, ganhando um combate naval, nas aguas guanabarinas, contra a armada lusitana e obrigando os habitantes da cidade a pagar-lhe um tributo de 610:000 cruzados, cem caixas de assucar e 200 bois.

Quando, em 1733, o conde de Bobadella, general Gomes Freire de Andrade, foi nomeado governador do Rio de Janeiro, esta cidade entrou em activa phase de prosperidades, sendo, em 1762, elevada a capital do Brasil, e recebendo o conde de Bobadella o titulo de vice-rei. No seu governo foi importada, de Cayenna, a planta do café e construido, entre outros melhoramentos, o famoso aqueducto da Carioca.

Desde 1763, anno em que falleceu Gomes Freire de Andrade, até 1808, data da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, governaram o Brasil, o conde da Cunha, o conde de Azambuja e o marquez de Lavradio.

Com a presença e demora da côrte portugueza, pelo espaço de treze annos, desenvolveu-se extraordinariamente a capital brasileira.

O fugitivo monarcha começou por franquear os portos do Brasil ao commercio de todo o mundo, em 1 de Junho de 1808, memoravel data, cujo centenario foi, no anno passado, celebrado pela Exposição Nacional. D. João VI fundou, no Rio de Janeiro, a Côrte de Justiça, a Academia de Marinha, o Supremo Conselho Militar, a Fabrica de Polvora, o Banco do Brasil, a Escola de Medicina, o Tribunal do Commercio, os Archivos Militares, a Imprensa Real, o Jardim Botanico, a Bibliotheca Nacional, etc. Em 10 de Setembro de 1808, publicava-se a "Gazeta do Rio de Janeiro", primeiro jornal fluminense, impresso em uma typographia da rua dos Barbonos. Foi de 1:200 contos de réis o primeiro capital do Banco do Brasil, inaugurado em 12 de Outubro de 1808, data inolvidavel na prosperidade e grandeza da nação brasileira.

O rei tabaqueiro, na phrase dos seus detractores, que na metropole fizéra má politica e pessima administração, acabando por abandonar a patria ao jugo dos invasores, com a mudança de hemispherio, mudou de temperamento e quiçá de ideias politicas e administrativas, a tal ponto, que a sua viagem forçada á grande colonia sul-americana, assignalou um periodo de assombroso desenvolvimento para o Brasil.

O rei cercou-se de gente de grande valor e de prestigio, tal como Lebreton, membro do Instituto de França, os irmãos Taunay, João Baptista Delbret, Zeferino Ferrez, sabios e artistas do pincel e do escopro e, acima de todos, Grandjean de Montigny, que nos legou a admiravel concepção architectonica da Academia das Bellas Artes, álem de outros trabalhos de que teremos conhecimento.

Em 26 de Abril de 1821, D. João VI regressou a Lisbôa, deixando na regencia do Brasil, o principe D. Pedro, seu filho. Logo no anno seguinte, em 7 de Setembro, andando o regente a viajar por S. Paulo, taes noticias recebeu da côrte de Portugal, inadmissiveis pelas suas exigencias, que alli mesmo, nas margens do Ipyranga, proclamou a independencia do Brasil.

A 30 d'esse mez, apresentou-se o principe no Rio de Janeiro, em um camarote do theatro S. Pedro d'Alcantara, ostentando a legenda—Independencia ou Morte.

Este acto é especialmente notavel por antecipar acontecimentos que forçosamente teriam de realisar-se em breve futuro, devido ao gráu de prosperidade da mais preciosa joia de Portugal e ás absurdas medidas adoptadas pelas côrtes portuguezas, no intuito de contrariar os desejos de independencia, que já começavam a manifestar-se no Brasil. Foi a antiga colonia transformada em imperio e o seu regente em imperador. Este facto teve logar no Rio de Janeiro, em 12 de Outubro de 1822.

Em 7 de Abril de 1831, D. Pedro I foi obrigado a abdicar a corôa em seu filho D. Pedro d'Alcantara, criança de 5 annos, e a retirar-se para a Europa. As principaes causas d'esta resolução foram os actos absolutistas do novo imperador, entre os quaes avultaram a dissolução da Assembleia Constituinte e um vergonhoso tratado celebrado com Portugal. Á abdicação precederam as noites das garrafadas, ou de motins populares, sangrentos para a população do Rio de Janeiro.

Durante o reinado de D. Pedro II, e álem do facto capital da guerra do Paraguay, muitos acontecimentos politicos se deram na capital do imperio, que seria longo e fastidioso enumerar, e augmentariam demasiadamente este capitulo.

Não podemos, todavia, deixar de mencionar o 13 de Maio de 1888 e o 15 de Novembro de 1889, datas, respectivamente, da abolição da escravidão em todo o territorio nacional e da proclamação da Republica dos Estados Unidos do Brasil.

O aureo e glorioso decreto de 13 de Maio, foi assignado por D. Izabel, regente do imperio, ex-princeza imperial e ainda hoje condessa d'Eu, na ausencia de seu pae, o imperador D. Pedro II, que viajava pela Europa. Não obstante os protestos dos conservadores, interessados e tradicionalistas, tal acontecimento foi motivo de grande regosijo para a população fluminense, e teve por immediata consequencia a mudança de instituições politicas, em 15 de novembro do anno seguinte, pelo exercito e pela armada, com o tacito consentimento do povo brasileiro, em geral, e muito especialmente dos habitantes do Rio de Janeiro.

Na presidencia do marechal Floriano José Vieira Peixoto, 2.º presidente da Republica e successor do marechal Manoel Deodoro da Fonseca, teve logar, na bahia de Guanabara, de 1892 a 1894, a revolta da armada, sob o commando do contra-almirante Custodio José de Mello. No espaço de muitos mezes, a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e muito damnificada, se bem que com a hostilidade da esquadra mais soffresse a sua visinha fronteira, a cidade de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro.

No Arsenal de Marinha, um soldado de infantaria tentou assassinar o dr. Prudente José de Moraes Barros, presidente da Republica, de 1894 a 1898, conseguindo trespassar, com a bayoneta, o marechal Machado Bettencourt, ministro da guerra, que se interpuzéra. Desde então, a paz não tem sido perturbada, na capital da Republica, que Municipio Neutro, por decreto de 1884, e Districto Federal, pela Constituição de 24 de Fevereiro de 1891, conta hoje uma população superior a 900 mil habitantes e, concluidos os melhoramentos que a transformam, por completo, será, indiscutivelmente, a primeira cidade da America do Sul e uma das mais bellas e importantes metropoles do mundo.

Phases Fluminenses

Nos dois primeiros seculos de existencia civica, Rio de Janeiro progrediu morosamente, por duas causas principaes—o abandono da metropole e as constantes hostilidades dos francezes e dos indios. Em 1618, isto é, 43 annos depois da sua fundação, a cidade apenas contava uns 3:500 habitantes, incluindo a guarnição militar.

Dois seculos mais tarde, quando D. João VI desembarcou na capital do Brasil, apenas havia, mal edificadas, 46 ruas, 19 praças, campos e largos e 4 travessas. Foi n'essa epocha que teve inicio o grande desenvolvimento da cidade. Em cincoenta annos de progresso, o seu activo era de 284 ruas, 47 praças, 42 travessas, 27 morros e 30 praias habitadas, nas proximidades.

A povoação, já immensa, galgava e contornava as collinas que a pejam e circumdam, estendendo-se pelo Engenho de Dentro, Laranjeiras, Andarahy Grande, Gavea, Tijuca, Villa Izabel e outros pontos.

A segunda fortaleza construida para defeza da cidade occupava o logar da actual egreja da Cruz dos Militares, que era então beira-mar.

As egrejas de S. Domingos e da Lampadosa foram construidas, no seculo XVIII, fóra da cidade que, em 1700, apenas attingia o ponto por onde hoje passa a rua de Uruguayana.

Em 1572 foi uma temeridade edificar-se, no sertão, o templo de S. Francisco Xavier. O primitivo santuario da Candelaria, foi construido em 1604, e as egrejas de Santa Luzia e de N. S. da Conceição, em 1592 e 1600, respectivamente.

A actual egreja de S. Sebastião do Castello é a terceira erguida no mesmo local, desde a trasladação da cidade, não obstante a data que encima o portico ser a da fundação do primeiro santuario, inscripção conservada no mesmo logar, assim como, na capella-mór, tem sido respeitado o tumulo de Estacio de Sá, o primeiro dos fluminenses.

O primeiro corpo administrativo e municipal que teve o Rio de Janeiro, com o nome de Senado da Camara, era constituido por tres vereadores, um procurador, um escrivão, dois almotacés e o Juiz de Fóra, que presidia.

No anno da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, este senado estabeleceu, por meio de marcos de pedra, os limites da cidade junto aos rios das Laranjeiras e Comprido, por um lado, e por outro junto ao mar, em toda a circumferencia.

Foi tal o desenvolvimento commercial e civico da capital, no primeiro quartel do seculo XIX, e eram tão estreitas, tortuosas e deficientes as arterias publicas existentes n'essa epocha que, em 1838, a Camara publicou uma postura ordenando que todas as vias publicas da cidade, e seu termo, tivessem, pelo menos, sessenta palmos de largura. Em 1893, a Prefeitura decretou que essa amplitude fôsse, no minimo, de 17 metros.

O primeiro nivelamento das ruas, calçamento e illuminação, foi começado em 1854, e dois annos depois a municipalidade prohibiu as aguas furtadas e mandou que todos os projectos de construcção fôssem submettidos ao seu exame e approvação.

Deve-se, porém, á Republica, em geral e, especialmente, a tres eminentes patriotas—o dr. Rodrigues Alves, presidente da Republica; dr. Lauro Müller, ministro da Viação e Obras Publicas e dr. Francisco Pereira Passos, Prefeito Municipal, a transformação do Rio de Janeiro colonial, com todos os defeitos das povoações da metropole, aggravados pelos caprichos dos mandões locaes, em uma grande cidade, moderna, rival das mais bellas capitaes do nosso planeta.

Pertence á iniciativa e execução do Governo, principalmente, a construcção do porto, com cáes acostaveis, na extensão de 3:500 metros; a magestosa e formosissima Avenida Central, de mar a mar, rasgando 16 das velhas e movimentadas ruas da cidade, e as obras especiaes de saneamento da capital, que déram em resultado a extincção da febre amarella e de outras molestias endemicas e epidemicas, de ha muito acclimadas no sólo fluminense.

A Prefeitura, ou Municipalidade, no espaço de 4 annos, de 1903 a 1906, executou e iniciou os seguintes melhoramentos:

—Avenida á Beira-Mar, do Passeio Publico á Praia Vermelha, no comprimento de 5:200 metros e com a largura de 33 metros.

—Avenida Mem de Sá, na extensão de 1:540 metros, desde o largo da Lapa até á rua Frei Caneca, atravessando as ruas dos Arcos, Lavradio, Riachuelo, Rezende e Invalidos.

—Avenida Salvador de Sá, ligando a rua Estacio de Sá, com a rua Frei Caneca.

—Alargamento, para 17 metros, d'esta rua e das do Visconde do Rio Branco, Carioca e Assembléa.

—Prolongamento e alargamento da antiga rua de S. Joaquim, hoje Marechal Floriano, até ao largo de Santa Rita.

—Prolongamento da rua Visconde de Inhaúma até ao mar, na extensão total de 1:500 metros e largura de 23.

—Prolongamento da rua do Sacramento até á rua do Marechal Floriano, com a largura de 15,ᵐ60.

—Alargamento da rua Camerino.

—Prolongamento e alargamento da rua da Prainha, hoje do Acre, até ás ruas Marechal Floriano e Uruguayana.

—Transformação d'esta rua, com a largura de 17 metros, arborisação e edificação de grandiosos predios.

—Alargamento e transformação da rua Treze de Maio.

—Ajardinamento do largo da Gloria, da esplanada de Botafogo, do Alto da Boa Vista, na Tijuca, e da praça Quinze de Novembro.

—Ampliação e embellezamento do Cáes Pharoux.

—Prolongamento da travessa de S. Francisco ao largo da Carioca.

—Transformação da praça Marechal Deodoro.

—Ampliação do palacio da Prefeitura.

—Construcção da estrada das Furnas, na Tijuca.

—Canalização do Rio Carioca.

—Construcção do Theatro Municipal.

—Construcção do Mercado Central e de mais tres mercados regionaes.

—Decretação do alargamento e recúo de oitenta ruas.

—Aperfeiçoamento do calçamento de numerosas ruas e augmento da sua illuminação.

—Transformação do quadrilatero da praça da Republica, defronte do Quartel General do Exercito.

Para tão pequeno espaço de tempo é assombroso o trabalho realisado pela municipalidade do Rio de Janeiro.

O governo geral está procedendo á construcção de uma gigantesca avenida, que começando junto da Avenida Central, passe defronte do novo porto e vá terminar na praia de S. Christovão, communicando assim esta com a bellissima praia de Botafogo, na extensão de 10:500 metros. Será, incontestavelmente, a primeira arteria do mundo, em dimensões, porque em belleza, supplantal-a-ha a Avenida Oceanica que, partindo da Avenida Beira-Mar, na Praia Vermelha, contornará, exteriormente, o Pão de Assucar e, pelas praias da Copacabana, do Leme e de Ipanema irá terminar no extremo-sul da praia da Gavea.

E de tudo isso que ahi fica exposto, o que ainda não está prompto ou iniciado, será concluido no espaço de poucos annos, porque o Brasil, em geral, e muito especialmente a sua esplendorosa capital, entraram, decididamente, pela descentralisação administrativa e sob a egide de instituições democraticas, na rapida e brilhantissima senda dos seus gloriosos destinos.

Monumentos

Candelaria

Ha duas versões sobre a fundação d'este santuario.

Segundo a maioria dos auctores, Antonio Martins da Palma, hespanhol, da ilha de Palma, e com mandante de um navio de trafego, vendo-se naufragado, prometteu á Virgem da Candelaria, muito venerada na sua ilha, erigir-lhe uma capella no primeiro terreno que pisásse, vindo aportar ao Rio de Janeiro e desembarcando no local do actual templo, acompanhado de sua mulher, Leonor Gonçalves.

Outros escriptores affirmam que á primitiva ermida foi dado o nome de uma velha náu, chamada N. S. da Candelaria, encalhada n'aquelle local, e que foi com o madeiramento d'essa embarcação que se edificou o primeiro santuario, em 1604.

As obras do actual monumento foram começadas em 1776, e cento e vinte e dois annos se passaram antes da sua conclusão.

Francisco João Roscio, engenheiro e sargento-mór de Portugal, fez o desenho do exterior do templo, em estylo barroco. Concluiu a obra, em 1898, o engenheiro civil dr. Antonio de Paula Freitas, que a dirigiu durante vinte annos, succedendo aos architectos Job Justino de Alcantara, Gustavo Waehnldt, Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.

A frontaria, toda de granito e ladeada por dois soberbos campanarios, é de magestoso aspecto, e melhor sobresairia se mais vasto fôsse o espaço em que se eleva.

Quatro portas de bronze dão entrada ao imponente e artistico santuario, ellas mesmas primôres de arte e devidas á genial concepção do esculptor portuguez Teixeira Lopes.

A decoração interior é em estylo corinthio e constitue o principal valor e attractivo do monumento.

É marmoreo todo o revestimento mural, niveo, de Carrara, nas pilastras, cornijas e entablamento, preto nos pedestaes e vermelho nos paineis. Álem d'estas tres côres e qualidades, o altar-mór ostenta o lapis-lazuli, o brocatello, o verde antigo, o malachito e o amarello de Verona.

Os nove altares lateraes são de marmore branco, de Carrara.

Nas abobadas, revestidas de alvenaria de tijolo, ha pinturas historicas de Zeferino da Costa.

Numerosos quadros, bellas esculpturas e preciosos dourados completam a decoração interior da Candelaria, santuario da religião e da arte.

O templo é aberto em tres naves, a do centro formosa e vastissima; as lateraes apenas a communicar os altares. Todo o monumento occupa a area de 3:520 metros.

As suas dimensões, quanto á planta geral do edificio, são de 80 metros de comprimento por 44 de largura. O corpo de entrada, ou principal, tem 43,ᵐ40 de comprimento, por 12 de largo, excluindo as naves lateraes.

A altura total do edificio, sobre o nivel do mar, é de 76 metros.

As torres teem 57 metros de altura. Este precioso monumento é coroado por um zimborio de cantaria, tijolo e marmore de Lisbôa, formado por 1:422 blócos de pedra, com o pêso de 630 toneladas, e alto de 64 metros. Do seu vértice descortina-se amplo e bello panorama geral da cidade, bahia, arrabaldes e suburbios.

O zimborio foi construido, successivamente, pelos engenheiros-architectos Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.

Álem das pinturas decorativas das abobadas e muralhas, executadas, principalmente, pelos artistas Costa e Tunes, e cujos assumptos prendem-se á lenda dos fundadores do santuario e ás phases da sua construcção, ha a admirar, entre outras artisticas curiosidades, o Baptisterio, á esquerda da entrada principal. A pia é de roseo marmore da Arrabida, e a tampa é de bronze cinzelado, trabalho de Manoel Ferreira Tunes. É dourada a fogo e produz maravilhoso effeito.

Do lado posterior do baptisterio vê-se um precioso tabernaculo, sobre uma banqueta.

Na parede do fundo avulta um baixo-relevo, em cedro, representando o baptismo de Christo, trabalho do mesmo artista.

Theatro Municipal

Dez annos antes da inauguração das obras, que teve logar em 20 de Novembro de 1904, já a municipalidade tributava as companhias theatraes, as emprezas de diversões publicas e até os vendedores de bilhetes para espectaculos, com destino á edificação do Theatro Municipal.

No momento da publicação d'este livro estará elle concluido e, talvez, inaugurado. É um grandioso e bello monumento, que occupa a area de 4:127 metros quadrados, entre a Avenida Central, o becco Manoel de Carvalho, a rua Treze de Maio e a praça Ferreira Vianna. Está edificado sobre cêrca de 1:700 estacas de massaranduba, sapucaia, oleo vermelho, graúna e angelim pedra, batidas em terreno barrento e arenoso.

Trabalharam regular e diariamente 500 operarios, durante os cinco annos da sua construcção e decoração, que consumiram quantia superior a 12:000 contos de réis.

O auctor do projecto e engenheiro-chefe da sua execução, foi o dr. Francisco de Oliveira Passos.

Eis algumas notas escriptas durante uma visita a este monumento, em Maio de 1908:

No rez-do-chão, deposito d'agua com a capacidade de 200:000 litros. Motor da força de 115 cavallos, para ventilação.

Entradas especiaes, para o Presidente da Republica, do lado da Avenida Central e para o Prefeito Municipal, pela rua Treze de Maio.

Paredes decoradas a mosaico francez, representando scenas das principaes peças do theatro universal. Escadarias de marmore branco, decoradas a bronze dourado. Sala de espectaculo.

Uma ordem de frisas, duas de camarotes e uma de amplas galerias. Pintura em branco e profusa illuminação. Camarotes especiaes, á direita, para o Chefe do Estado, á esquerda para o Prefeito Municipal. Tecto pintado sobre téla, por Visconti. Lotação total, para 1:700 pessôas. Cinco entradas para a plateia.

Todo o pavimento dos corredores dos camarotes é a mosaico, bem como o das frisas e galerias.

O vestibulo é em marmore de côres, avultando o verde e o côr de rosa. Elegantes columnas de roseo marmore circumdam os pavimentos superiores, ornamentando a escadaria. Os capiteis das columnas são a bronze dourado.

Todo o marmore empregado no edificio foi importado de Portugal, da França e da Italia.

Ha dois terraços—varandas, lateraes e exteriores, a seis columnas de marmore mesclado e pavimento a mosaico.

As bancadas geraes da ultima ordem são de peroba e comportam mais de 800 pessôas.

Na caixa do theatro, todos os pannos são movidos a electricidade.

Os camarins, em tres pavimentos, com installação hydrotherapica no 1.º, são vastos, arejados e profusamente illuminados.

Em um prédio contiguo estão os motores electricos para a illuminação geral do edificio.

O porão do theatro, está seis metros abaixo do nivel do sólo.

Em caso de incendio, a scena será immediatamente inundada por machinismo especial.

Todos os relogios da casa funccionam electricamente, pela energia que lhes é transmittida por um relogio central.

A illuminação da sala é feita por um systema original, que consiste em lampadas disfarçadas no oval dos balaustres. A mobilia da plateia e dos camarotes é de mogno vermelho, com incrustações de páu-marfim.

O fundo dos camarotes e galerias é de pellica côr de rosa, bem como as guarnições das balaustradas.

Ha um ascensor para a communicação geral da caixa do theatro e um salão para bibliotheca da especialidade. As portas e janellas do foyer são de carvalho e crystal.

O aspecto geral, como os detalhes, até aos mais minuciosos, obedecem ás mais modernas condições, de hygiene, aceio e luxo.

Gabinete Portuguez de Leitura

A associação fundadora d'este monumento, data de 10 de Setembro de 1847, e a inauguração do edificio teve logar cincoenta annos depois. Eleva-se na rua Luiz de Camões, defronte da travessa da Academia, a pouca distancia do largo de S. Francisco de Paula.

O Gabinete é uma joia artistica, interior e exteriormente, e o mais bello padrão de gloria da colonia portugueza no Rio de Janeiro.

A frontaria, elegantissima, é de pedra lioz, em estylo manuelino. Decoram-n'a as estatuas de Camões, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral e do Infante D. Henrique.

No interior, além da secretaria e de varias peças interessantes, ha dois salões notabilissimos pelas dimensões e pela belleza architectonica e decorativa.

O salão da Bibliotheca, occupa toda a altura do edificio, na dimensão de 23 metros. É ladrilhado a mosaico e illuminado por bellissima claraboia de vitraes coloridos. Está dividido em tres pavimentos, por galerias circulares, guarnecidas a columnas de ferro dourado. O golpe de vista é empolgante e maravilhoso.

As artisticas estantes que forram este salão, comportam 85:000 volumes, entre elles a mais celebre camoneana do mundo.

O salão nobre, ou de Honra, é decorado com os escudos de todas as cidades de Portugal.

Ha mais a admirar, o album commemorativo de Eduardo de Lemos, o fundador do Gabinete; os bustos do mesmo, de Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, de Eça de Queiroz e de D. Carlos I; a miniatura da canhoneira Patria, vitrinas com preciosidades bibliographicas, a mesa da Directoria, etc.

O monumento importou em 592 contos de réis, mas quasi outro tanto se tem gasto em melhoramentos e reparações.

O Gabinete conta um fundo social de 800 contos e 114 socios benemeritos, 39 honorarios, 26 correspondentes, 1:327 remidos e 357 contribuintes. Foi architecto do edificio o portuguez Frederico José Branco.

Academia das Bellas Artes

Foi fundada em 1816, pelo vice-rei Conde da Barca, que contratou 11 professores francezes, para as cadeiras de desenho, pintura, esculptura, architectura e mechanica. Chamou-lhe o fundador, Real Academia de Desenho, Pintura, Esculptura e Architectura Civil. A frontaria é obra de Grandjean de Montigny. Nota-se um artistico portão de ferro, do mesmo artista; baixos relevos, de Zeferino Ferrez; uma sacada com balaustres de bronze, e seis columnas jonicas; as estatuas de Minerva e de Appolo e, a rematar, o frontão decorado pela classica quadriga, execução de Ferrez, como o restante é de Montigny.

Em 1855, este edificio foi augmentado pelo architecto Job Justino de Alcantara.

A Academia foi inaugurada em 5 de Novembro de 1826, por D. Pedro I, e por iniciativa do ministro Visconde de S. Leopoldo. A primeira exposição publica de trabalhos artisticos, teve ahi logar em 1829, expondo, entre outros, os artistas Debret, Grandjean e Marcos Ferrez.

A sala de leitura é decorada a pinturas de Montigny e de Ferreira, seu sobrinho. Ha ahi muitos retratos de pintores celebres.

Bibliotheca da especialidade.

Ao subir a dupla escadaria, veem-se quadros de Pedro Americo, Grandjean e Ferreira. A notar, Santa Thereza de Jesus, pelo primeiro. Salão da Escola Nacional. Ao centro, Batalha de Avahy, por Pedro Americo. O proprio pintor está retratado á frente do regimento n.º 33. Em frente, Batalha de Guararapes, por Victor Meirelles. O Ultimo Tamoyo, esplendido trabalho de Rodolpho Amoedo.

Do mesmo auctor:—Partida de Jacob. De Henrique Bernardelli:—Os Bandeirantes.

Segue-se uma galeria de escólas estrangeiras, de pintura, onde está principalmente representada a escóla italiana. Ha preciosidades artisticas de Raphael, Rubens, Ticiano, Ribera, Velasquez, e de outros pintores immortaes, que o visitante não póde apreciar, devido á péssima exposição dos quadros.

A notar, ainda, A Noite, de Pedro Americo.

A collecção artistica d'esta Academia, é avaliada em 4:000 contos. O magnifico palacio das Bellas Artes, em construcção na Avenida Central abrigará, brevemente, estas e outras preciosidades esparsas por diversos edificios da capital da Republica.

Grupos e Estatuas

Monumento do Centenario—Na praça da Gloria, que mede 20:000 metros quadrados, e sobre um pedestal de granito, da altura de 4 metros, eleva-se o grupo, em bronze, commemorativo do 4.º centenario da descoberta do Brasil. É alto de 10 metros e consta das figuras bem lançadas de Pedro Alvares Cabral, Pero Vaz de Caminha e Fr. Henrique de Coimbra, respectivamente commandante, escrivão e capellão da frota descobridora.

O monumento é de Rodolpho Bernardelli, e foi encommendado pela Associação do Quarto Centenario do Descobrimento do Brasil. A arte casa-se aqui com a imponencia e a formosura do aspecto geral.

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Fonte Ramos Pinto—Este gracioso e artistico monumento está collocado ao centro do jardim que aformoseia a Praça da Gloria. Foi offerecido á cidade do Rio de Janeiro, pelos viticultores portuenses Adriano Ramos Pinto & Irmão, e é um gigantesco blóco de marmore branco, decorado por quadros estatuas.

A execução, do esculptor Thevenet, é primorosamente artistica, especialmente a da figura feminina que, tendo um joelho poisado sobre uma anfractuosidade da rocha, mostra a parte posterior ao publico. É tão perfeito este trabalho, que provocou a regeição do prefeito Francisco Pereira Passos, com o pretexto de que excitaria os instintos libidinosos das baixas camadas populares. Com grande reluctancia, Thevenet praticou o enorme delicto artistico de cobrir a estatua com uma ligeira camisa, que não deixa de accusar-lhe o primôr das fórmas.

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Estatua Equestre de D. Pedro I—A erecção d'este monumento foi approvada em sessão do Senado da Camara Municipal do Rio de Janeiro, a 11 de Maio de 1825. Esta resolução não teve seguimento, bem como outras posteriores tentativas, até que em 7 de Setembro de 1854, a Camara Municipal approvou nova proposta do seu presidente, dr. Roberto Jorge Haaddock Lobo. Para o custeio foi aberta uma subscripção publica, por intermedio das camaras municipaes de todo o paiz. Tambem foi aberto concurso entre artistas nacionaes e estrangeiros, cabendo o 1.º premio ao brasileiro João Maximiano Mafra, quanto ao projecto e desenho, sendo a execução confiada ao esculptor francez Luiz Rochet, o 3.º concorrente premiado. A pedra fundamental do monumento foi collocada em 1 de Janeiro de 1862, realisando-se a inauguração em 30 de Março do mesmo anno. A estatua, que custou 334:710$375 réis, occupa o centro da praça da Constituição. A base é de granito, seguindo-se-lhe o pedestal, em bronze, ornamentado a grupos que representam os grandes rios do Brazil—Amasonas, Paraná, Madeira e S. Francisco, symbolisados por indigenas, cuja expressão é eminentemente artistica.

O friso do pedestal é guarnecido por escudos, que representam as vinte provincias brasileiras. D. Pedro I está a cavallo e em grande uniforme de general. Na mão direita, o imperador empunha a Carta Constitucional do Brasil.

O peso total do monumento é de 55:000 kilos. A sua altura é de 3,ᵐ30 na base, 6,ᵐ40 no pedestal e 6 metros da estatua equestre.

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Estatua do Visconde do Rio Branco—Eleva-se ao sul da Praça da Gloria, e a pouca distancia da Fonte Ramos Pinto. É de bronze e foi modelada e fundida pelo esculptor francez Charpentier. A figura está sentada e veste o uniforme de senador do imperio. A mão direita descansa sobre dois livros do Visconde—A Convenção de 20 de Fevereiro e Collecção de Leis do Brasil.

A base, de gneiss do Brasil, sustenta o pedestal, de pedra do Jura, e a estatua da Historia, em bronze, que lê, em uma tábua, a seguinte phrase de Tacito—Autoritate Constantia fama inquantam proeumbante imperatoris fastigio datus clarus.

Este monumento foi inaugurado em 13 de Maio de 1902, anniversario da promulgação da lei que extinguiu a escravidão no Brasil, e em homenagem ao estadista que fez votar a lei do ventre livre.

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Estatua do Duque de Caxias—Este primôr de esculptura, talvez o melhor trabalho de Rodolpho Bernadelli, ergue-se, desde 15 de Agosto de 1899, ao centro do Jardim e da Praça do Duque de Caxias. O monumento é equestre, em bronze, e assenta sobre um pedestal de marmore de Carandahy.

São notaveis, como obra de arte, os baixo-relevos que ornam o pedestal. O marechal, que monta um cavallo de raça, sustenta, na mão direita, um oculo de alcance.

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Estatua de José de Alencar—Foi inaugurada em 1897, e ergue-se na pequena praça que enfrenta o Hotel dos Estrangeiros, entre o Cattete e Botafogo. É de bronze e de Rodolpho Bernardelli. Alencar está sentado em uma poltrona que tem, por base, um blóco de marmore cinzento.

Nas quatro faces do pedestal ha baixo-relevos representando scenas de Iracema, do Guarany, do Sertanejo e do Gaúcho, obras primas do eminente cearense, que brilhou no romance, no drama, na poesia e no jornalismo.

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Estatua de João Caetano dos Santos—Eleva-se defronte da fachada principal da Academia das Bellas Artes, em um hemicyclo traçado por Grandjean de Montigny, para dar espaço, ar e luz á primorosa frontaria do palacio. É obra do esculptor fluminense Chaves Pinheiro, modelada em 1859, no Rio de Janeiro, e fundida em Roma, em 1890. É de bronze, tendo estado, o modelo, exposto na exposição de Philadelphia, em 1876.

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Estatua do General Osorio—Foi inaugurada em 12 de Novembro de 1894, e fundida com o bronze de canhões, tomados aos inimigos da patria. O monumento é equestre, eleva-se ao centro da praça Quinze de Novembro e foi modelada por Bernardelli.

Pésa 5:700 kilos. O pedestal é de granito dos Alpes. Em dois baixo-relevos ha scenas de batalhas ganhas pelo grande cabo de guerra. Desde 21 de Julho de 1892, que o seu corpo repoisa na crypta do monumento, tendo sido trasladado do Asylo dos Invalidos da Patria.

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Estatua de José Bonifacio—Foi esculpturada pelo artista francez Luiz Rochet, e inaugurada em 7 de Setembro de 1872, 50.º anniversario da independencia do Brasil. Deve-se este monumento a uma subscripção popular, iniciada pelo Instituto Historico, que rendeu 60:000:000 réis. Pesa 18:000 kilos, é de bronze e tem a altura de 2ᵐ,40. O heroe da independencia é representado de pé, empunhando uma penna com que escreve o Manifesto ás Nações.

A estatua eleva-se defronte da rua do Ouvidor, ao centro do largo de S. Francisco de Paula.

Egrejas

Cathedral—O bispado do Rio de Janeiro foi creado em 1676, tomando o 1.º bispo conta do seu cargo seis annos depois. A primitiva cathedral foi a egreja de S. Sebastião, erecta no morro do Castello, berço da cidade.

Em 1703 foi a Sé transferida para o templo da Cruz dos Militares, e em 1720, por algum tempo para a basilica da Candelaria, voltando para a Cruz dos Militares, em 1773. Devido, porém, ao estado de ruina d'esta egreja, no mesmo anno, em 1 de Agosto, o cabido sahiu em procissão e dirigiu-se para a egreja do Rosario, elevando-a a cathedral, contra a vontade dos pretos, seus proprietarios.

Ainda assim conservou-se ahi a Sé por mais de setenta annos. Em 1808, o cabido, em virtude de alvará regio, passou para o santuario mandado construir pelos frades carmelitas, em 1761, ao lado do templo do Carmo, onde actualmente se conserva. A ermida, precursora d'esta egreja, foi edificada á beira-mar, e desabou em dia de festividade, matando muitos fieis.

O interior do templo é ornamentado a trabalho de talha e a estuque dourado, em estylo barroco, por mestre Ignacio, que iniciou os trabalhos em 1785. Ha sete altares e duas capellas fundas; uns e outras separados por balaustres dourados. No corpo da egreja ha tres tribunas de cada lado, divididas por pilares. É bella a perspectiva interior pela feliz combinação dos dourados com a guarnição branca, em estuque, e com o primoroso trabalho de talha. A fachada não pertence a ordem alguma architectonica. O grande painel da capella-mór foi pintado por José Leandro de Carvalho.

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Carmo—Bella e imponente frontaria de granito, em estylo barroco, com um lindissimo portico lavrado em marmore da Arrabida.

A confraria dos irmãos terceiros do Carmo, do Rio de Janeiro, foi fundada em 19 de Julho de 1648. A primeira pedra do templo foi lançada em 16 de Julho de 1755, sendo inaugurado em 11 de Julho de 1770. Custou 91:088$995 réis. As duas formosas torres lateraes á frontaria, só ficaram concluidas em 1850 e custaram 111:000$000 réis. Um espaço fechado por dois portões separa esta egreja da Cathedral, ex-capella imperial. O gradil de ferro que cercava o adro e que custára, em Londres, 1:764$100 réis, foi mandado retirar, ultimamente, pelo prefeito Pereira Passos, bem como o do santuario contiguo. Foi no Carmo que se celebrou, em 1792, o Te-Deum em acção de graças pelo enforcamento de Tiradentes. O templo foi novamente dourado em 1854. Até 1812 esteve installado o hospital da Ordem, em edificio annexo, sendo removido para a rua de Riachuelo, em 1870.

O interior da egreja é ornamentado a branco, com toques dourados.

Ha seis altares lateraes e a capella-mór. No corpo principal estão seis tribunas e dois pulpitos. A luz é filtrada, além do zimborio da capella-mór, por seis janellas sobrepostas ás tribunas e por tres do côro, com vitraes coloridos.

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Cruz dos Militares—Occupava, outr'ora, a beira-mar. Está situada na rua Primeiro de Março, esquina da do Ouvidor, e a pequena distancia dos santuarios anteriormente descriptos. É obra dos ultimos annos do seculo XVIII, sendo seu constructor o brigadeiro José Custodio de Sá e Faria. Se bem que de elegante aspecto exterior, nada contém esta egreja de especialmente notavel.

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S. Bento—Templo e mosteiro situados no vértice da collina de egual nome, no extremo da rua Primeiro de Março. É simples e sem arte o aspecto exterior da egreja e dos edificios annexos; ao transpôr, todavia, o peristylo, o visitante fica deslumbrado com a perspectiva e os detalhes da magestosa fabrica. Desde o sopé ás abobadas, o santuario resplandece o velho ouro que os seculos ainda não conseguiram desvanecer. Em talha dourada, é a d'esta egreja a maior, a mais antiga e a mais preciosa decoração que existe na capital do Brasil. É d'uma só nave, ladeada por dez altares, oito dos quaes communicam-se, interiormente, por duas especies de naves. Os dois pulpitos são tambem preciosos. Sobre os arcos que dão ingresso aos altares, ha outras tantas tribunas douradas, com balaustradas. O tecto é em quadriculos de madeira colorida.

No pavimento do corpo principal estão as sepulturas dos doadores, D. Diogo de Brito de Lacerda, e D. Victoria de Sá, com brazões heraldicos.

São riquissimas as capellas do Santissimo Sacramento e da Immaculada Conceição. A primeira tem quatro tribunas e um magnifico altar, com esplendoroso sacrario e quatro columnas salomonicas, tudo dourado. Todos os altares do monumento são guarnecidos a columnas do mesmo estylo e profusamente douradas.

Na capella-mór ha bancadas de nogueira para a assistencia capitular. Á esquerda está o solio, com o docel, para o abbade-bispo de S. Bento.

Os beneditinos estabeleceram-se no Rio de Janeiro, em 1589, e occuparam, primitivamente, a ermida de N. S. do Ó, na praia da cidade, doada pelo governador Corrêa de Sá.

O tecto da capella-mór é decorado a frescos, representando scenas da vida de S. Bento. É grande, valiosa e artistica a collecção de objectos de prata, que adorna o templo, avultando a imagem de N.ª S.ª do Monserrat, que occupa a cúspide do altar-mór; o crucifixo d'este altar, o tocheiro da capella-mór e as lampadas das capellas lateraes.

O corpo da egreja é illuminado por seis artisticos lampeões de ferro, a tres luzes. Da esplanada, bem como de varios pontos da vasta cêrca do convento, a vista é extensa e bella para diversos pontos da cidade e da bahia.

O Gymnasio de S. Bento e a escóla de preparatorios, contiguos ao templo, teem frequencia superior a 300 alumnos. Ha ainda a escóla preliminar de S. José e uma escóla nocturna, tudo para o sexo masculino. Todos os frades d'este convento são allemães. Na cêrca está uma caixa de agua, do rio do Ouro, que communica com o deposito geral do Pedregulho.

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S. Francisco da Penitencia—Minusculo e magnifico santuario, pertencente á Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia, situado no alto da collina de Santo Antonio, e junto á egreja d'esta invocação. Depois do de S. Bento, é este o interior sagrado mais artistico e bello do Rio de Janeiro. Os 6 altares lateraes, os 2 pulpitos, as 6 varandas, o magestoso árco-cruzeiro, a capella mór e o côro constituem um grandioso poema em talha dourada, onde a arte da execução rivalisa com os primôres das concepções decorativas e da materia prima empregada, ha seculos, no realce artistico.

O tecto é em madeira pintada e nos intervallos das tribunas ha quadros emmoldurados em talha dourada e pintados por José de Oliveira.

A primitiva egreja da Ordem Terceira da Penitencia, no Rio de Janeiro, foi a capella da Conceição, erecta na visinha egreja de Santo Antonio, por Luiz de Figueiredo e sua mulher, Antonia Carneiro.

O actual edificio foi concluido em 1772, depois de muitas contendas com os visinhos frades franciscanos do convento de Santo Antonio, tendo começado as obras em 1653.

Tanto o interior como o exterior do santuario são em estylo barroco.

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Santo Antonio—Communica com o edificio anteriormente descripto. Esta egreja é modestissima, destacando-se apenas a capella do Noviciado, com o tumulo, em marmore, do principe D. Pedro Carlos, filho de D. João VI. Contiguos a estas egrejas estão os dois conventos das mesmas invocações, ambos habitados por frades franciscanos.

Do adro d'estes santuarios, gosa-se o panorama parcial da cidade, da bahia e dos suburbios.

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S. Francisco de Paula—No lado Sul da praça de egual nome, ergue-se imponentemente a elegantissima frontaria d'este templo, pertencente á Veneravel Ordem Terceira dos Minimos de S. Francisco de Paula. É construcção architectonica da ordem composita e ostenta um bellissimo portico de marmore da Arrabida. Foi inaugurado em 1801. Os artistas brasileiros Valentim da Fonseca e Silva e Antonio de Padua e Castro, decoraram interior e sumptuosamente esta egreja, a mais central da cidade. Ladeiam a fachada duas torres, que realçam a belleza do conjuncto. Tambem aqui, e em nome da esthetica civica, o prefeito Passos destruiu o gradeado que protegia o adro.

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Matriz da Gloria—Esta vastissima egreja eleva-se na face occidental da praça do Duque de Caxias.

A frontaria é aformoseada por oito columnas jonicas, de granito, com dez metros de altura, que assentam em treze degraus de cantaria e sustentam um frontão da mesma pedra, com um painel decorativo, e as estatuas de S. Pedro e S. Paulo, nas extremidades lateraes. Do lado posterior do frontão eleva-se um campanario da altura de quarenta e dois metros, até um terraço guarnecido a balaustrada e a estatuas de granito. Sobre esta esplanada levanta-se outro corpo de torre, rematado por uma pyramide quadrangular, que sustenta uma cruz á altura total de sessenta metros. Interiormente, o templo é decorado em estylo barroco, notando-se a preciosa obra de talha do altar-mór.

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Outras muitas egrejas, menos notaveis, accentúam o aspecto monumental do Rio de Janeiro, taes como S. José, Lapa, S. Christovão, Rosario, Sacramento, S. João Baptista, Gavea, e a historica e popular ermida octogona que corôa o vértice da pittoresca altura da Gloria.

Museus

Museu Nacional—Foi fundado em 1710, pelo vice-rei Luiz de Vasconcellos, em um predio da rua do Sacramento, mais tarde ampliado para Thesouro Federal.

Tendo caído em abandono, D. João VI reergueu-o, em 1818, a pedido do seu ministro Thomaz Antonio de Villa Nova Portugal, sendo installado em um palacete do campo de Sant'Anna, depois praça da Acclamação. Em 11 de Julho de 1864, foi inaugurada a bibliotheca d'este Museu, com 3:000 volumes, contando hoje mais de dez mil. Um italiano, em 25 de Junho de 1865, tendo-se escondido no interior do edificio, no momento de serem fechadas as portas, durante a noite roubou 49 diamantes, 153 moedas antigas e 70 medalhas diversas.

O Museu foi mudado, em 1892, para o ex-palacio imperial de S. Christovão, que servira, em 1890 e 1891, de Palacio do Congresso Constituinte da Republica. É um amplo e vistoso edificio situado em terreno elevado, ao centro de terras incultas e enfrentado por um magnifico parque, cuidadosamente ajardinado.

As principaes collecções são a mineralogica e a antropologica, seguindo-se-lhes, em importancia, a numismatica, a ethnographica e a de antiguidades egypcias e pompeanas.

Começando pelo 3.º pavimento, visita-se a Sala Rodrigues Ferreira, com curiosos exemplares de simios, phocas e outros animaes.

Sala Correia de Lacerda. Carnivoros roedores. Bellissimo exemplar leonino. Insectivoros.

Sala Spix. Mammiferos. Antiodactylos ruminantes. Magnificos exemplares de elephantes e de veados.

Sala Blainville. Esqueletos de passaros. Gabinetes, a seguir, com variadissima e abundante collecção de insectos do paiz. Interessantes habitações de maribondos.

Galeria Buffon. Esqueletos de quadrupedes.

Segundo pavimento.

Sala Burmeister. Curiosissima collecção de ninhos de aves.

Sala Natterer. Passaros.

Sala Wied. Aves de rapina. Esplendido exemplar de condor dos Andes.

Sala Schreiner. Numerosa e escolhida collecção avicola-brasileira.

Sala Wallace. Passaros corredores, entre elles dois magnificos exemplares de avestruz.

Galeria Baptista Caetano. Ethnographia. Vestuarios e armas de varias tribus de indios da bacia do Amazonas.

Sala Simão de Vasconcellos. Armas, utensilios e ornatos de indios mundurucús, araras, uaupés e da Guyana Brasileira.

Sala Castelnau. Retratos e estatuas de indigenas do Brasil. Grupo, em bronze, offerecido pelo marechal Deodoro.

Sala Varnhagen. Numerosa e curiosissima collecção de armas, vestuarios, utensilios e ornatos dos indios carajás, appiaças, bororós, mahués e guajarás.

Sala Ferreira Penna. Ceramica greco-romana. Ceramica brasileira, peruana e mexicana. Alguns dos objectos expostos são pre-historicos.

Galeria Fernão Cardim. Ethnographia das ilhas Aleutas, Sandwich, Nova Guiné, Rainha Carlota, Madagascar e Nova Zelandia.

Sala Champollion. Sarcophagos e mumias. Antiguidades mexicanas, africanas e europeias. Ethnographia africana e asiatica. Antiguidades egypcias.

Sala Broca. Mumias pequenas. Esqueletos indianos. 300 caveiras de indios diversos.

Sala Freire Allemão. Fibras textis. Cipós e madeiras do Brasil. Amostras de oleos e de sementes nacionaes.

Galeria Conceição Velloso. Troncos gigantescos de vegetaes do Brasil.

Sala Humboldt. Ethnographia sul-americana.

Galerias Gabriel Soares, Eschwege e Couto de Magalhães. Pirogas, remos e rêdes indianas. Pedras e placas com inscripções e brazões.

Sala Haeckel. Echinoides. Ovos e embryões.

Sala Lamarch. Molluscos. Collecção numerosissima e interessante.

Sala Lacaze-Duthiers. Madreporarios. Hydroides. Espongiarios. Alcyonarios.

Sala Dumeril. Serpentes, lagartos, jabutis, tartarugas, kagados, etc.

Sala Agassiz. Bello exemplar de Cephaloptera Vampyrus Gunth Jamantra, apanhado na praia da Copacabana. Mostruario de peixes em alcool.

Sala Andrada. Riquissima collecção mineralogica.

Rez-do-chão:

Secções de paleontologia brasileira e estrangeira. Ossuario de baleia com 16 metros de comprimento.

Meteorito de Bendegó. É o maior e mais pesado que se conhece. Foi encontrado em 1784, por Joaquim da Motta Botelho, nas proximidades do riacho Bendegó. Chegou ao Rio de Janeiro em 1 de Junho de 1888. Pésa 5,360 kilos.

Composição: Ferro 95,1 Nickel 3,9 Outros elementos 1,

Museu Naval—Encontra-se, este museu, no rez-do-chão da repartição do Almirantado, na rua de D. Manuel. Foi creado por decreto de 14 de Março de 1868 e inaugurado em 25 de Março de 1884, nos salões do Arsenal de Marinha, devido á intervenção do vice-almirante Arthur de Jaceguay. Por decreto de 26 de Abril de 1890, o almirante Wandenkolck, ministro da marinha, reuniu no mesmo estabelecimento, á rua do Conselheiro Saraiva, n.º 12, o Museu e a Bibliotheca.

No dia 11 de Junho de 1898, sendo ministro da marinha o contra-almirante Manoel José Alves Barbosa, foi solemnemente inaugurado o museu, no edificio actual, e franqueado ao publico.

O principal valor artistico d'este museu, consiste nos seguintes quadros do pintor De Martino:

—Aprisionamento da corveta argentina General Dorrego, pela corveta brasileira Bertioga.

—Passagem do Tonelero, em 1851.

—Combate naval do Riachuelo.

—Abordagem do Barroso e do Rio Grande.

—Bombardeamento do forte de Curuzú.

—Abordagem da fragata brasileira Imperatriz, pela esquadra argentina.

—Couraçado Independencia.

Passagem do Humaytá.

—Noite de luar, no porto de Montevideu.

—Encontro do Almirante Barroso com o Riachuelo, no alto mar.

—Couraçado Independencia, fundeado no Tamisa.

—Abordagem da corveta Maceió, por canhoneiras argentinas.

—Abordagem dos paraguayos á esquadra brasileira, em 2 de Março de 1868.

—Acampamento do Chaco, em frente a Humaytá.

Quadros de Victor Meirelles:

—Passagem do Humaytá, em 19 de Fevereiro de 1868.

—Combate Naval do Riachuelo.

Ha ainda muitos outros quadros a oleo, photographias e retratos de almirantes e de ministros da marinha.

Este museu é dividido em oito secções, constando a 1.ª de quadros a oleo; a 2.ª de retratos e photographias; a 3.ª de modelos de navios; a 4.ª de bandeiras e estandartes; a 5.ª de artilharia, couraças, torpedos e variado armamento fixo; a 6.ª de armamento portatil; a 7.ª de reliquias de navios historicos e de ethnographia nacional; e a 8.ª secção consta de medalhas.

Pedagogium, ou Museu Escolar. Funccionam n'este edificio, defronte do Passeio Publico, os cursos fixos e normaes de sciencias physicas e naturaes e os cursos temporarios[2]. Tambem ahi realisam-se conferencias e exposições pedagogicas. Encerra uma officina de trabalhos manuaes; uma sala-modelo da classe primaria, contendo o material escolar; um gabinete de geographia; um gabinete-museu de historia natural; um gabinete de physica e laboratorios de psychologia experimental, de chimica e de physiologia do systema nervoso. Contem uma bibliotheca que, com o museu e os laboratorios, está patente das 10 horas da manhã ás 3 da tarde, excepto ás segundas-feiras.

As classes são nocturnas.

De maneira que o Pedagogium, que funcciona em edificio proprio e municipal é, ao mesmo tempo, um instituto para habilitação de professores primarios e um museu pedagogico. O laboratorio de psychologia experimental é o unico, no seu genero, no territorio da Republica.

Em 1902 trabalharam 7 cursos, com a frequencia de 153 alumnos; em 1903, 10 cursos com 143 alumnos, e em 1904, 17 cursos com 194 alumnos.

[2] Ao entrar este livro no prélo deixaram de funccionar as aulas do Pedagogium.

Bibliothecas

Bibliotheca Nacional—Foi fundada por D. João VI, em 1810, com os livros que levou da bibliotheca do palacio real de Lisboa. Primitivamente funccionou nos altos do hospital do Carmo, junto do palacio imperial. Até 1822, esta instituição não foi publica.

Em 4 de Agosto de 1858, foi reaberta ao publico no edificio especial que o governo comprára, no Largo da Lapa, por 124 Apolices de um conto de réis. No momento da publicação d'este livro está a construir-se, na Avenida Central, um magestoso palacio destinado á definitiva installação da Bibliotheca Nacional.

Contem cêrca de 240:000 volumes, 25:150 exemplares de moedas e medalhas e 100:000 estampas e gravuras. Possue muitos exemplares rasos, impressos e manuscriptos, e numerosos retratos de artistas celebres, taes como Alberto Durer, Van-Dyck, Lucas de Hollanda, Raimondi, Andréa Mantegna, e outros.

A biblia latina de Fust Schoeffer, de Moguncia, impressa em pergaminho e em 1462, é uma das preciosidades d'esta bibliotheca. Possue officina typographica e de encadernação. Está patente ao publico, ininterruptamente, das dez da manhã ás nove horas da noite. A frequencia média, mensal, é de 3:500 leitores.

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Bibliotheca Municipal—Contem, actualmente, cêrca de 22:000 volumes litterarios e scientificos. Foi creada em 15 de Março de 1893, em sessão da Camara Municipal, por proposta do vereador-presidente, tenente-coronel Antonio Barroso Pereira. A frequencia média, mensal, é de 1:200 leitores. É publica nos dias uteis, das 10 horas da manhã ás 3 da tarde, e das 5 da tarde ás 8 horas da noite. Está installada no edificio da Prefeitura, na Praça da Republica.

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Bibliotheca Fluminense—É esta a principal das bibliothecas particulares do Rio de Janeiro. Foi fundada em 1847, por Bernardo Joaquim de Oliveira, e está installada no predio n.º 92, da rua do Ouvidor.

Encerra 90:000 volumes de artes, litteratura e sciencias, álem de numerosos e preciosos manuscriptos.

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Alem d'estas ha as bibliothecas especiaes do Exercito e da Marinha, nos respectivos arsenaes; a Bibliotheca Germania, na Praia do Flamengo n.º 60; a Bibliotheca do Commercio, no edificio da Associação Commercial, e outras de menos importancia e particulares.

Jardins e parques

Parque da Republica—Occupa o centro da maior praça do mundo, com a superficie de 198:000 metros. O Campo de Marte, em Paris, tem 112:000 metros; a Praça Real, de Berlim, 100:000 metros; a Praça do Hotel de Ville, em Vienna d'Austria, 90:000 metros, e a Praça da Concordia, em Paris, 89:000 metros. E isto para citar só as principaes.

O Parque foi inaugurado em 7 de Setembro de 1880, e é circumdado por um gradil de ferro, da altura de 2,ᵐ30. Esta obra foi custeada pela Camara Municipal e executada sob a direcção do dr. Glaziou, eminente botanico, architecto e paysagista. As obras começaram sete annos antes da inauguração. Nas quatro faces do gradeamento, que é fundido em sopé de cantaria, abrem outros tantos portões monumentaes, com motivos decorativos.

A superficie plantada é de 86:000 metros; os lagos e os rios occupam 18:000 metros e os arruados 43:522 metros. Estes são amplos e calcetados a macadám, O Parque está situado no centro da cidade do Rio de Janeiro, e divide os velhos bairros, hoje transformados, da nova metropole, começada a edificar no seculo XVIII.

Das decorações d'este bellissimo e magestoso logradouro publico avulta a cascata, em fórma de gruta, com galerias transitaveis, de cujos tectos pendem gottejantes estalactites.

Ha dois pavilhões de ferro para concertos, e na vastissima praça central tem-se construido, por vezes, numerosas barracas para kermesses, e realisado esplendidas batalhas de flôres, com o concurso das alamedas que a ella convergem. Numerosas estatuas, grupos artisticos e pontes rusticas decoram este magnifico Parque.

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Passeio Publico—O mais antigo e um dos mais bellos logradouros publicos da formosissima capital do Brasil, foi mandado delinear e executar pelo vice-rei Luiz de Vasconcellos e Sousa, sobre a lagôa pantanosa e aterrada do Boqueirão da Ajuda. Foi auctor do trabalho o mestre Valentim da Fonseca e Silva, que da tarefa se desempenhou com aprimorado gosto artistico.

A inauguração realisou-se em 1783, mas tendo sido a conservação do Passeio descurada pelos successores d'aquelle vice-rei, houve necessidade de reformal-o, o que se fez, pela ultima vez, em 1861, sob a direcção do dr. Glaziou. Foi reaberto o Passeio, ao publico, no dia 7 de Setembro do anno seguinte. A area total do terreno é de 28:196 metros, e a superficie plantada, de 17:637.

O arvoredo, mais que secular, é denso, frondoso e bello, constituindo uma preciosidade pela raridade e excellencia dos exemplares que o formam e o melhor local de sombra que existe no centro da cidade. Nota-se um Aquario, inaugurado em 1904 e o primeiro construido na America do Sul, com 20 tanques, ou piscinas e cêrca de 40 variedades de peixes raros, zoophytos, echinodermes, molluscos e crustaceos.

Sob uma formosa e soberba Latania vê-se o busto de Gonçalves Dias, inaugurado em 1901.

É de bronze, sobre pedestal de granito, e execução de Rodolpho Bernardelli. Ha ainda a notar duas columnas de pedra, cobertas de hera, obra do mestre Valentim, e dois tanques com jacarés de bronze, de cujas fauces precipita-se, ha 122 annos, o precioso liquido que dessedenta parte da população fluminense. O mais precioso local d'este pittoresco e bello Passeio Publico, é o amplo terraço, que domina a Avenida Beira-Mar e a magestosa bahia de Guanabara. D'ahi aprecia-se todo o movimento do porto e um dos mais empolgantes panoramas do nosso planeta.

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Jardim Botanico—Entre a lagôa Rodrigo de Freitas e o ponto terminal da linha de tramways electricos da Botanical Garden, está situado o mais bello dos jardins botanicos do mundo. A sua area é de 544:611 metros, e encerra mais de 60:000 exemplares de plantas, muitissimas raras, algumas originaes e unicas, e todas extraordinariamente desenvolvidas.

Foi fundado por D. João VI, em 1808, com o nome de Real Horto de D. João VI, mudado por decreto de 11 de Maio de 1809, para Real Jardim Botanico.

Logo á entrada a nossa retina é maravilhada pela Alameda das Palmeiras, com 134 exemplares magnificos, que occupam a extensão de 740 metros, em linha recta. As palmeiras teem 25 metros de altura e cerca de 1,ᵐ30 de circumferencia na base. Esta alameda é universalmente afamada e a primeira no seu genero. Outras alamedas, menos extensas, e tambem bordadas a palmeiras, correm parallelas a esta e dão um aspecto monumental, bello e imponente ao Jardim Botanico do Rio de Janeiro.

Á esquerda da entrada admira-se uma Guarea trichilioides, o mais velho dos vegetaes indigenas d'este estabelecimento. Do lado opposto ostenta-se um soberbo exemplar de Nephelium Li-tchi, importado de Cayenna, em 1809.

A Palma Mater, que produziu as sementes de todas as grandes palmeiras da mesma especie que enfeitam o Jardim Botanico, a capital e todo o Brasil, eleva-se ao lado da Cascatinha, e tem a altura de 36 metros. É oriunda da Ilha de França, e foi plantada por D. João VI, em 1809.

O director Serpa Brandão, cujo nome foi dado á Alameda Central, mandava queimar as sementes da Palma Mater, para que não se reproduzissem fóra do Jardim; porém os escravos subiam, de noite, ao vértice da planta, e roubavam as sementes, que vendiam a 100 réis cada uma.

Ultimamente, apparecendo lagartas verdes a devorar a base das folhas d'esta preciosa e secular palmeira, o director Barbosa Rodrigues, mandou propositadamente construir um andaime para extinguir os damninhos reptis.

Ao fundo da Alameda Serpa Brandão, vê-se um artistico fontanario de bronze que outr'ora esteve em uma praça da cidade.

Proximo d'um magestoso bambual formando curvas em gothico, ergue-se o monumento a Frei Leandro do Sacramento, o primeiro director d'este Jardim. É um busto de bronze com pedestal de marmore e dedicatoria em lettras douradas. Está abrigado por uma construcção octogona com tecto de vidro. Enfrenta-o um lago coberto pela Victoria Regia, representada por esplendidos exemplares.

Este Jardim é cortado por lindissimas avenidas de samambaias, mangueiras, bambús e palmeiras, notando-se todos os exemplares das plantas com as suas designações scientificas, e o maximo aceio e cuidado na conservação do preciosissimo horto, uma das principaes curiosidades da capital do Brasil.

Junto da Palma Mater, inicia-se a construcção do monumento ao fundador do Jardim.

Será inaugurado por occasião da celebração do centenario da fundação d'este maravilhoso escrinio scientifico, natural e artistico.

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Floresta da Tijuca—Não obstante estar já situada em um dos mais apraziveis arrabaldes do Rio de Janeiro, nem por isso a floresta da Tijuca deixa de ser um dos logradouros publicos mais procurados e admirados pela população fluminense e, especialmente, pelos forasteiros, que ahi se deliciam em plena apotheose da excelsa natureza.

Na Tijuca, como no Jardim Botanico, na Gavea, no Corcovado e no Pão de Assucar, o visitante é empolgado por esse abraço natural que, pela sua extensão, variedade, abundancia e incomparavel formosura, sublima Rio de Janeiro á culminancia da mais bella e pittoresca metropole do nosso planeta.

O electrico da Light, parte da praça da Constituição e, ao saír da rua do Conde de Bomfim, atravessa terrenos incultos e abundantemente vegetativos, precursores das exuberancias florestaes.

Ao passo que, atravessada a estrada velha, pronuncia-se o movimento ascendente pela encosta, o vehiculo transforma-se em barco, a navegar através de encapellado oceano, pondo em grave risco o equilibrio e as costellas dos passageiros. A linha é pessimamente construida e as curvas são numerosas e rapidas. Porém o observador tem ampla e ineffavel compensação espiritual na formosura da paisagem e no deslumbramento do panorama que os seus olhos abrangem e contemplam.

O electrico pára no alto da Boavista, a 13½ kilometros do largo de S. Francisco de Paula, em uma praça de 15:000 metros de superficie que, ha meia duzia de annos, apenas era um matagal. Hoje está transformada em formoso jardim, com um elegante pavilhão de ferro, ao centro.

Estamos na entrada da serra e da floresta. Começou a aproveital-a e a aformoseal-a o Visconde do Bom Retiro, em 1857, quando ministro do Imperio. Deu-lhe grande desenvolvimento o major Gomes Archer, em 1874, construindo estradas, na extensão de 20 kilometros, regularisando os cursos de agua que atravessam a floresta e plantando arvoredo nas clareiras dispersas.

Quem, da praça da Boavista, internar-se pela estrada principal, na espessura vegetativa, depara, a pouca distancia, com a Cascatinha, primeira quéda d'agua, para quem caminha na direcção norte e que precipita-se da altura de 30 metros. Ao cabo de uns 3 kilometros attinge-se o Excelsior, ponto de vista maravilhoso, á altura de 693 metros. Tambem é notavel o planalto do Bom Retiro, que lhe fica proximo e cuja altura é de 659 metros.

Continuando-se a percorrer a magestosa floresta, visita-se a Gruta de Paulo e Virginia, as Furnas de Agassiz, a Cascata Grande, a Meza do Imperador e a Vista Chineza, com um chalet rustico, de onde se gosa feerica perspectiva. O ponto culminante, porém, da serra e da floresta, é o Pico da Tijuca, na altitude de 1:022 metros acima do nivel do mar. O panorama que d'ahi se descortina escapa á percepção humana, pela sua sublimidade, e não póde descrever-se em linguagem alguma, porque não é dado ao homem immiscuir-se nos esplendores divinos.

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Jardim Zoologico—Este estabelecimento, outr'ora um dos mais bellos e interessantes logradouros publicos da capital carioca, no tempo do seu fundador, o barão de Drummond, é agora a desvergonha do Rio de Janeiro. Hoje é deposito da casa Herman Stoltz & C.ª representante do grande parque zoologico Stingler, de Hamburgo, o primeiro do mundo. Nem por isso a collecção é valiosa, antes péssima pela deficiencia de numero e qualidade de individuos expostos.

O parque está quasi abandonado, quando deveria ser um dos melhores no seu genero, ainda que não expozésse senão exemplares nacionaes.

Não obstante ser agora o Jardim Zoologico um deposito particular de animaes importados do estrangeiro, paga-se ainda mil réis de entrada por pessôa, como se verdadeiramente fôsse um parque para gôso da população. Está situado no arrabalde de Villa Izabel.

Rio de janeiro encerra ainda outros parques e praças ajardinadas, taes como a praça Marechal Deodoro, em S. Christovão, com 180:000 metros de superficie; a praça da Gloria, onde se erguem os monumentos do Centenario, a estatua do Visconde do Rio Branco e a Fonte Ramos Pinto; a praça do Duque de Caxias; a da Constituição; a de Quinze de Novembro, e toda a magestosa e bella esplanada de Botafogo, que enfrenta a enseada do mesmo nome.

Theatros

S. Pedro de Alcantara—O principal theatro do Rio de janeiro, ainda por inaugurar, é o Municipal, já descripto no capitulo—Monumentos.

Das antigas casas de espectaculos, o melhor edificio é o do Theatro S. Pedro de Alcantara, na antiga praça da Constituição, hoje Tiradentes.

Segundo a giria popular fluminense, este theatro tem caveira de burro, porque tendo sido construido, primitivamente, em 1770, ardeu em 1824, em 1851 e em 1856. Exterior e interiormente, a sua architectura é vulgarissima. Tem 87 camarotes, 532 cadeiras, na plateia, 28 no balcão e 400 logares de galeria. É frequentado por companhias estrangeiras e nacionaes de opera, opereta e comedia.

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Theatro Lyrico—Outr'ora Theatro D. Pedro II. É um casarão situado na rua Treze de Maio, esquina da rua Senador Dantas, e prestes a desapparecer, em nome da hygiene e da esthetica.

Ahi exhibiram-se as maiores celebridades da scena lyrica universal. Póde conter duas mil pessôas. Tem 806 cadeiras de plateia, 220 de balcão, 84 camarotes e 500 logares de galeria.

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Theatro Apollo—Está situado na rua do Lavradio e é precedido de um pequeno jardim. Procuram-n'o as companhias de operetas, revistas e magicas. A construcção é ligeira e sem importancia.

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Theatro Recreio Dramatico—Ao fundo da rua Luiz Gama, antiga do Espirito Santo. É muito antigo e precede-o vasto jardim, principal attractivo do estabelecimento. É muito frequentado por companhias dramaticas e de operetas. Tem gloriosas tradições. Ahi representaram Antonio Pedro, João Caetano dos Santos e outras notabilidades nacionaes e estrangeiras.

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Theatro Sant'Anna—Está, como o antecedente, situado na rua Luiz Gama e tem, como elle, gloriosas tradições artisticas. Á saída d'este theatro, foi D. Pedro II victima de uma tentativa de assassinato, em 1888. Encerra 22 camarotes, 81 cadeiras e 500 logares de galeria. Tem sido frequentado por companhias theatraes de todos os generos.

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Theatro Lucinda—Ainda na mesma rua. Contem 306 cadeiras, 13 camarotes e 200 logares de galeria. É para comedias, operetas, dramas, revistas e magicas.

Foi fundado pela grande actriz Lucinda Simões, que o illustrou durante muito tempo.

Álem d'estes theatros, ha o de S. José, na praça Tiradentes, e grande numero de cinematographos, casinos, frontões e cafés cantantes. A vida de theatro é, porém, pouco intensa no Rio de Janeiro, terra de trabalho e de calor. As familias preferem gosar a escassa frescura da noite, aos portões das suas chacaras, a irem metter-se em exiguas salas, cuja atmosphera é insupportavel pelo calor emanante da illuminação, dos corpos e da falta de ventilação e de ventiladores.

Cemiterios

O maior cemiterio da capital do Brasil, é o de S. Francisco Xavier, entre a praia do Cajú, o Retiro Saudoso e a rua Bella de S. João. Foi inaugurado em 1840. Pertence á Irmandade da Misericordia, porém os enterramentos são publicos.

D'entre os seus monumentos destacam-se:

—Aos marinheiros italianos do couraçado Lombardia.

—Capella da familia Jannuzzi. É circular, interessante e artistica.

—Sepultura de Flavia Maciel.

—Sepultura do Barão de Alagôas.

—Campa em marmore preto e lettras de bronze, do marechal Manoel Deodoro da Fonseca e sua esposa.

E poucos mais jazigos notaveis sob o ponto de vista artistico.

Annexo a este, ha um cemiterio para acatholicos.

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O cemiterio de S. Francisco da Penitencia está separado do anterior por uma collina. Aqui tambem não abundam as campas artisticas. Destaca-se uma grande capella de granito, com frontaria de marmore cinzento, guarnecida por duas columnas inteiras e duas meias columnas de marmore branco. Remata-a uma cupula de granito. Interiormente, as paredes são occupadas por 460 gavetas de marmore branco, numeradas, para ossuarios. Ha duas galerias circulares, de ferro, e uma crypta com numeroso ossuario, disposto em triplice muralha. Foi inaugurada em 21 de Abril de 1908, e pertence, como o cemiterio, á Veneravel Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia.

Á entrada d'este campo santo, primorosamente ajardinado, estão gravados, em marmore, os seguintes dizeres, a lettras pretas:

—Hoje sois o que nós fômos—.

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O cemiterio do Carmo, de propriedade da Ordem de egual nome, está situado a seguir aos antecedentes, na direcção da cidade. É o mais pequeno dos tres.

Ha a notar ahi:—Capella-Jazigo do commendador Manoel Mattos do Souto, em estylo manuelino.

—Sepultura de João Gonçalves Barroso. É de marmore branco e decorada a estatuas. Ladeiam-n'a dois leões da mesma pedra.

—Jazigo de granito, do conselheiro Manoel Pinto de Sousa Dantas, com o seu busto em bronze. É em estylo egypciaco e encerra crypta e urna de granito.

Estes cemiterios estão admiravelmente situados, sob o ponto de vista topographico, á beira-mar e a grande distancia da cidade.

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O cemiterio de S. João Baptista, está situado em Botafogo, junto das ruas de S. João Baptista e do General Polydoro. O terreno é ligeiramente accidentado, abrangendo-se, á entrada, a vista geral de todo o campo santo, com os jazigos em amphitheatro.

Que esplendor de scenario, em tão limitado horizonte!

A propria montanha, cuja encosta oriental o cemiterio occupa, e o Corcovado, que magestosamente domina e corôa o panorama, fecham os limites visuaes, com as elevações suas derivadas, patenteando ao observador a indescriptivel belleza natural dos seus contornos. Artisticamente ha a notar:

—Jazigo de marmore e de granito côr de rosa, da familia Murinelli.

—Capella monumental, que encerra o niveo sarcophago do marechal Floriano Peixoto.

—Jazigos das familias Silva Macieira e Torres, com lindissima frontaria a columnas salomonicas.

—Sepulturas das familias Carneiro da Cunha Esteves, Rodrigues Portella, Armand Darlot, Adolpho Hasselman, e uma ou outra estatua decorativa de sepulturas mais modestas.

Um montão de soberbas corôas, sobre uma campa rasa, indicava que, na vespera da nossa visita, tinha alli sido collocado o feretro do almirante Saldanha da Gama.

Notam-se os tumulos de outras notabilidades, como o Barão de Cotegipe e o Marechal Machado Bettencourt.

No arrabalde de Catumby está o cemiterio da Ordem Terceira dos Minimos de S. Francisco de Paula.

Álem d'estes, ha os cemiterios protestante e israelita.

Curiosidades

=Avenida Central=—Os trabalhos iniciaes da mais bella e monumental arteria publica do Rio de Janeiro, começaram em 8 de Março de 1904, e já em 7 de Setembro do mesmo anno, o Presidente da Republica, Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, e o Ministro da Viação e Obras Publicas, Dr. Lauro Müller, inauguravam officialmente a Avenida Central, comprida de 1812 e larga de 33 metros. Prolonga-se de mar a mar, desde a Prainha ao Passeio Publico. Decoram-n'a sumptuosos edificios, alguns tambem notaveis pela arte architectonica e decorativa. Destacam-se os seguintes:

—Pavilhão de Monröe. É elegantissimo, com estructura de ferro e serviu na Exposição de S. Luiz. Palacio da Justiça. Bibliotheca Nacional. Academia das Bellas Artes. Theatro Municipal. Companhia Jardim Botanico. Casa Guinle. Predio n.º 131, estylo Renascença. Associação dos Empregados do Commercio. Club de Engenharia. Jornal do Commercio. Predio em estylo mourisco e cupula dourada, construido pelo architecto Morales de los Rios. Predio de Theodoro Wille. Companhia Docas de Santos, com uma artistica e monumental porta esculpturada em talha. Palacio da Caixa de Conversão, exteriormente decorado a columnas caneladas, com capiteis dourados. O hall é lindissimo, vistoso e artistico. Casa Roxo Rodrigues, em cantaria cinzenta e em fórma acastellada. Para terminar, citaremos o palacio dos Benedictinos e o edificio do grande jornal O Paiz. Jannuzzi e Heitor de Mello foram, álem do já citado, os principaes constructores dos bellissimos palacios e palacetes que sublimam a Avenida Central do Rio de Janeiro á culminancia de primeira arteria publica da America do Sul. No extremo da Prainha, ergue-se uma columna de granito, destinada a supportar a estatua do Visconde de Mauá.

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=Palacio da Presidencia da Republica=—Foi edificado em 1862, pelo Barão de Nova Friburgo, e adquirido, pelo Governo Federal, em 1896, para residencia do chefe do Estado.

Tem soffrido varias modificações, e o terreno da chácara foi augmentado até á Avenida Beira-Mar; porém, interiormente, á excepção dos sobrados e de alguns motivos decorativos, a fabrica é da primitiva.

A fachada é em tres pavimentos, estando installadas no do rez-do-chão as repartições de serviço; no 1.º andar, ou 2.º pavimento, as salas e os salões de recepção, servindo o 3.º de residencia particular. Á entrada ha duas ordens de columnas caneladas que atravessam o perystillo, ornado a estatuas e grupos.

A escadaria é magnifica, realçando-lhe a belleza as tribunas douradas que circulam o 3.º pavimento.

No andar nobre ha, especialmente a notar, pela decoração a frescos, estuques e dourados, a sala Azul, para recepções de embaixadores; a sala Amarella, ou de Musica; a sala da Capella, que serve de recepção á esposa do Presidente da Republica; a sala Pompeiana, com finissimas decorações e a celebre Jarra Beethoven, obra prima de Raphael Bordallo Pinheiro; o salão dos Banquetes; a sala Mourisca, decorada a marmore preto, e o Salão Official das Recepções, esplendidamente decorado.

Todas estas salas e salões ostentam soberbos lustres e precioso mobiliario. Na sala Silva Jardim, nota-se o quadro de Aurelio de Figueiredo—Juramento de Deodoro—com todos os principaes personagens do 15 de Novembro. Na secretaria vê-se A Descoberta do Brasil, outro quadro de Aurelio de Figueiredo, e A Selva, quadro de Antonio Parreiras.

Um ascensor communica os pavimentos. O parque, esculpturalmente decorado, é atravessado por dupla fila de lindas e gigantescas palmeiras.

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=Aqueducto da Carioca=—É a principal e monumental curiosidade que o Rio de Janeiro possúe dos tempos coloniaes. A sua extensão principal é de nove mil metros, desde a Mãe d'Agua, na serra de Santa Thereza, até ao largo da Carioca. A sua parte monumental, porém, é composta de 42 arcos de alvenaria, da altura de 17,ᵐ6, desde a caixa d'agua da Carioca, onde hoje está a estação da Companhia Ferro Carril Carioca, até ao morro de Santa Thereza. Este é o actual viaducto da linha, que se prolonga até ao Silvestre. Foi este aqueducto mandado construir pelo Conde de Bobadella, 59.º Governador do Rio de Janeiro, em 1744.

Durante o trajecto através d'esta colossal arcaria, gosa-se admiraveis vistas parciaes da cidade, da bahia, e de alguns arrabaldes.

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=Palacio Itamaraty=—Está situado na antiga rua Larga de S. Joaquim. Foi o primitivo palacio do Governo, em seguida á proclamação da Republica. Hoje é o Ministerio das Relações Exteriores e serve tambem de residencia ao respectivo ministro, o Barão do Rio Branco.

No 1.º andar, ou nobre, nota-se a sala do Tribunal Arbitral, com mobilia dourada e estofos côr de rosa. Sala de recepção para o director geral do Ministerio, com os bustos, em bronze, do Visconde de Cabo Frio e de Quintino Bocayuva. Salão Amarello, para recepção de diplomatas. Admira-se aqui um quadro de Pedro Americo, intitulado—Paz—. Bustos, em bronze, de José Bonifacio, José Antonio Saraiva, Barão de Cotegipe, Marquez do Paraná, Visconde do Uruguay, Marquez d'Abrantes, Pimenta Bueno, Visconde do Rio Branco e Visconde de Cachoeira. Gabinete particular de recepção de diplomatas. Vê-se aqui o Grito do Ipyranga, por Pedro Americo, esboço do quadro que está em S. Paulo. Retrato de metal, em relêvo, do Barão do Rio Branco, offerecido pelo povo de S. Paulo.

Outros objectos, em prata e prata dourada, entre elles um do Jornal do Commercio, offerecidos ao actual ministro das Relações Exteriores, por occasião da sentença do tribunal arbitral suisso, na questão das Missões.

Sala Vermelha, decorada a quadros e a retratos. Um dos primeiros foi offerecido ao Barão do Rio Branco, pelo rei D. Carlos I, de Portugal.

Salão de Baile e Banquetes, com um soberbo lustre de metal amarello e crystal de rocha. Contigua está a sala de Fumo, que tambem serviu de recepção particular aos ex-presidentes da Republica, Deodoro e Floriano. Bustos, em bronze, do padre Bartholomeu de Gusmão e do Barão do Rio Branco. Relogio historico de D. João VI. Sala dos Retratos, dos presidentes da Republica.

Ha um edificio annexo, com a Secretaria e a Bibliotheca do Ministerio, que é importantissima.

Em tres salões, dos quaes o maior tem 33 metros de comprimento e o mais pequeno 22, estão 42:000 volumes encadernados, e cêrca de 100:000 brochuras e 25:000 cartas geographicas. Tambem, n'este edificio, está o archivo secreto do Ministerio das Relações Exteriores.

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=Chafariz Colonial=—Outra reliquia do Brasil colonial. Foi o governador Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadella, quem o mandou construir ao centro do largo do Paço. Alguns annos depois, o governador Luiz de Vasconcellos e Souza, mandou que o chafariz fôsse removido para a beira-mar, junto do caes, a fim de abastecer as embarcações, ao mesmo tempo que parte da população da cidade. É uma obra artistica, de granito lavrado, com escudo, almofadas e balaustrada de marmore branco. Occupa, hoje, o fundo do primeiro polygono ajardinado da praça Quinze de Novembro, a 85 metros da bahia. Remata-o a esphera armillar, de ferro. É obra do seculo XVIII.

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=Casa da Moeda=—O primitivo estabelecimento d'este nome, transferido da Bahia em 17 de Março de 1699, funccionou no edificio da Junta do Commercio, apenas durante um anno, sendo transferido para Pernambuco. N'esse curto periodo foram cunhados 612:644$000 réis em ouro e 255:694$980 réis em prata.

Em Janeiro de 1703 foi restabelecida a Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Para installal-a foi construido um edificio entre as travessas das Bellas Artes e da Moeda, aonde tambem funccionavam o Real Erario e a Thesouraria Geral das Tropas. Essa casa ardeu em 1 de Outubro de 1836, sendo os valores e apparelhos recolhidos á egreja do Sacramento.

O actual edificio foi construido de 1851 a 1853, na face occidental do então Campo da Acclamação, hoje Praça da Republica. Occupa uma area de 97:083 palmos quadrados. É precedido de um elegante gradil de ferro fundido em cantaria, com dois portões artisticamente ornamentados.

A frontaria consta de um corpo central saliente e revestido de cantaria, de dois torreões com tres janellas, em cada pavimento, e de dois corpos intermediarios, com 4 janellas em cada andar. O 1.º pavimento é decorado com pilares e columnatas de ordem dorica-romana, e o 2.º com pilares e columnata de ordem jonica, tudo de granito. Interiormente, ha seis columnas graniticas, em cada pavimento, que sustentam entablamentos, cujos frisos são ornados a triglyphos e metopos.

A decoração vestibular é no estylo dorico-romano. Na escadaria do perystillo estão dois leões de bronze. Custou este palacio cêrca de dois mil contos. Foi o Visconde de Itaborahy, ministro da fazenda, em 1853, o iniciador d'esta construcção, levada depois a effeito pelo seu successor Bernardo de Souza Franco. Foram emprezarios-constructores o dr. Theodoro Antonio de Oliveira e Antonio Francisco Guimarães Pinheiro.

No vestibulo estão 4 peças com o laboratorio de analyses, o gabinete da Direcção e o gabinete de mineralogia. 1.º pavimento. Officina de gravura. Mostruario de medalhas cunhadas no estabelecimento. Officina de estamparia de sêllos e de estampilhas. Occupa 45 operarios.

No rez-do-chão, visita-se os depositos de material, as officinas de fundição de metaes, a officina de laminação e cunhagem e a officina das machinas.

Na officina de xenographia imprime-se notas de 5, 10, 20 e 50$000 réis. Impressão de apolices na secção lithographica.

No Deposito Geral da Thesouraria, no 1.º pavimento, admira-se a magnifica installação, a primeira da America do Sul. Consta de duas secções independentes, uma para a moeda e a outra para o sêllo. As portas, de ferro, abrem por meio de relogios, aos quaes dá-se corda na vespera, não se podendo abrir nem com a propria chave, antes da hora marcada. Em Maio de 1908, continha 200 mil contos de réis, em metal e sêllos.

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=Rua do Ouvidor=—Esta arteria publica, a mais movimentada e caracteristica do Rio de Janeiro, tem setecentos metros de extensão desde a rua do Mercado ao largo de S. Francisco de Paula. A designação porque continúa a ser popularmente conhecida, não obstante haveram-n'a chrismado em rua Moreira Cesar, data de 1780, e provem do facto de ahi ter morado o ouvidor (magistrado) da capital do Brasil colonial, Berquó da Silveira.

Atravessa as ruas Primeiro de Março, da Quitanda, a Avenida Central, e as ruas Gonçalves Dias e Uruguayana. Apesar da grande concorrencia que principia a fazer-lhe a sua visinha, a magestosa Avenida, esta curiosissima arteria continua a ser o club ao ar livre, como lhe chamam, isto é, a reunião da sociedade elegante dos dois sexos, que encontra-se e troca impressões nos passeios, no meio da rua, que não é transitada por vehiculos, e ás portas dos estabelecimentos de luxo, especialmente das casas de modas, redacções de jornaes, tabacarias, cafés e confeitarias. Em nenhuma outra cidade do mundo ha assim uma rua com um feitio tão original, tão intima, interessante e encantadora.

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=Senado=—Occupa, na face occidental da actual Praça da Republica, o edificio construido e offerecido, em 1810, por uma commissão de negociantes da Bahia, ao conde dos Arcos. A sua adaptação a Senado realisou-se em 1824, comprando-o o governo imperial ao procurador do conde, por 44:568$000 réis. A 1.ª sessão teve logar em 6 de Maio de 1826.

Em 1831 foi a casa abandonada por ameaçar ruina, passando o Senado a funccionar no edificio da Relação, na rua do Lavradio.

Reedificou-se o antigo palacete que foi reaberto em 1835. Damnificado, em breve, pelo cupim, passou de novo o Senado a occupar a casa da Relação, até que reedificou-se o edificio actual, sob a direcção do engenheiro Miguel de Frias e Vasconcellos. O interior é pobremente decorado. A sala das sessões é modestissima. Tem 68 cadeiras e algumas galerias e tribunas. É construcção interior e exteriormente indigna e impropria da séde da primeira assembleia legislativa do Brasil.

Pelas salas ha algumas pinturas, bustos e retratos de personagens e de oradores celebres.

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=Bolsa=—Este palacio occupa a area de dois mil metros quadrados, na rua Primeiro de Março, confinando com a rua General Camara, a rua do Visconde da Itaborahy e uma passagem que a separa do edificio do Correio Geral. Iniciou a sua construcção, em 1880, o architecto Francisco Joaquim Bettencourt da Silva, terminando-a, ultimamente, o engenheiro civil José Valentim Dunhan.

Pertence á Associação Commercial do Rio de Janeiro. O chefe da Camara Syndical de correctores de fundos publicos, preside diariamente á venda de papeis de credito, que effectua-se em uma vasta rotunda, ao centro do magnifico hall. As dependencias do edificio são amplas e numerosas, destacando-se a bibliotheca, que é importante, o archivo, o salão de leitura e a sala das sessões.

A Associação Commercial foi fundada em 9 de Setembro de 1834, com o titulo de Sociedade dos Assignantes da Praça do Commercio.

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=Camara dos Deputados=—Ha cêrca de 80 annos que existe este casarão, tendo primitivamente servido de paço municipal e de cadeia.

Esta era no pavimento terreo e n'ella esteve encarcerado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, álem de outros prisioneiros notaveis. A camara dos deputados funcciona n'este edificio, desde 1823. Tem a construcção soffrido varios remendos, mas fica sempre com o mesmo aspecto lugubre e mesquinho, absolutamente impropria para o fim que serve. Admira como na actual quadra, de assombrosos melhoramentos fluminenses, ainda não se começásse a edificação de um palacio proprio á reunião dos representantes do povo brasileiro.

O pavimento superior é occupado pela Camara, e no rez-do-chão estão a Caixa Economica e o Monte de Soccorro. A construcção não pertence a nenhum genero de architectura. O salão, pouco amplo e muito simples, é ladeado por galerias, para o publico, e por tribunas para senhoras e para o corpo diplomatico.

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=Alfandega=—Grande edificio que occupa toda a rua do Visconde de Itaborahy, do lado do mar. Foi construido em 1817, pelo risco do architecto francez Grandjean de Montigny.

Encerra 14 vastissimos armazens.

O corpo principal foi, até 1821, séde da Praça do Commercio, ou Bolsa.

A renda mensal e actual da alfandega do Rio de Janeiro é, na média, de sete mil contos. Regula por quatro milhões de volumes, o movimento annual dos armazens.

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=Canal do Mangue=—É uma das curiosidades da capital brasileira.

O seu nome vem da planta Eugenia Nitida, vulgo mangue, que cobria um enorme pantano onde a população do bairro despejava as immundicies das habitações. Foi começado em 1855 e terminado em 1860, sob a direcção do Barão de Mauá.

Não tendo, porém, declive sufficiente para facil communicação com o mar, procede-se actualmente á sua completa transformação e aformoseamento. O canal tem a extensão de 2:600 metros, desde a praça Onze de Junho até ao mar. É em duas rectas, a 1.ª de 1:200 e a segunda de 1:400 metros. Quadrupla fila de elegantes e gigantescas palmeiras sombreia e embelleza a 1.ª recta, prolongando-se pela 2.ª secção em dupla fila. Tanto a transformação d'este canal, como a esplendida avenida que o margina, do lado direito, fazem parte das obras do porto do Rio de Janeiro.

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=Supremo Tribunal Federal=—É esta uma das mais bellas, artisticas e monumentaes construcções do Rio actual. Ergue-se na rua Primeiro de Março e é um palacio de marmore e de granito, primitivamente destinado e edificado para séde do Banco do Brasil.

Foi seu architecto Paulo Schroeder.

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=Repartição Geral dos Telegraphos=—É o historico palacio construido, em 1743, por ordem do 59.º Governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, depois Conde de Bobadella. Occupou-o elle proprio e, a seguir, installaram-se ahi mais sete governadores, já então vice-reis do Brasil.

Em 1808 occupou-o D. João VI, quando fugido de Portugal, e desde 1822 a 1889, foi palacio imperial. D'ahi embarcou para o exilio, na madrugada de 16 de Novembro de 1889, o imperador D. Pedro II, acompanhado por sua familia. Sob o ponto de vista historico é este o mais notavel edificio da capital da Republica.

Exterior, como interiormente, nada contem de apreciavel.

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=Prefeitura=—Ha dois edificios, occupados pelas duas instituições que constituem a Prefeitura, a saber o Conselho Municipal e a Municipalidade. O primeiro está installado em um elegantissimo predio da rua Treze de Maio, outr'ora escóla publica. Foi restaurado em 1895.

A Municipalidade, ou Prefeitura, funcciona em um vasto edificio da Praça da Republica, lado oriental. Álem de varias salas e salões, amplos e bem decorados e guarnecidos, a Prefeitura encerra uma importante bibliotheca.

Em 1904, a receita municipal foi de réis 28:302:269$242, e a despeza de 28:217:890$888 réis.

Em 1905, foi a receita de 23:834:861$000 réis, e a despeza de 23:807:521$463 réis.

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=Imprensa Nacional=—Este amplo edificio, com 89 metros de frontaria, foi mandado construir, em 1877, pelo Visconde do Rio Branco, então ministro da fazenda, para installação da Typographia Nacional, com todos os seus serviços annexos e derivados.

Occupa uma area de 8:148 metros, e prolonga-se desde a estação da Companhia Carril Carioca, até ao Theatro Lyrico. O dr. Antonio de Paula Freitas, engenheiro, dirigiu as obras. A architectura é em estylo gothico-inglez.

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=Correio Geral=—Esboçou o plano d'este edificio, o constructor Pedro Bosisio, por conta do ministerio da Fazenda e de accôrdo com a Associação Commercial. Afinal esta collectividade, que tinha de occupar um dos pavimentos, edificou casa á parte. A obra do Governo tem 40 metros de frente por 39 de fundo, dirigindo os trabalhos o dr. Antonio de Paula Freitas. O estylo architectonico é o do Renascimento, vendo-se no pavimento do rez-do-chão os caracteristicos da ordem jonica, no andar nobre os da ordem corinthia e no 3.º pavimento os da ordem composita. Também ahi funcciona a Caixa de Amortisação.

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=Mercado Novo=—Tambem chamado Central. É novissimo, pois foi inaugurado em 15 de Fevereiro de 1908.

Foi construido para substituir o mercado Velho, situado na praia do Peixe. O novo occupa a praia de D. Manuel. É de ferro e vitraes, tendo 8 portões, 4 nos angulos e 4 lateraes. Ao centro, eleva-se um elegante pavilhão com torre e relogio. É muito arejado, asseiado e cortado de ruas calçadas a parallelipipedos. O centro é ajardinado. Destina-se esta construcção, a unica do Rio de Janeiro, no seu genero, á venda de peixe, carne e legumes. Em diversos bairros da cidade, ha mercados provisorios, em plena rua, até ás 9 horas da manhã.

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=Banco da Republica=—Foi fundado em 12 de Outubro de 1808, com o titulo de Banco do Brasil, e com o capital de tres milhões de cruzados, em 1:200 acções de um conto de réis, cada uma. Começou a negociar em 1809, em uma casa da rua Direita, esquina da rua de S. Pedro.

Por alvará de 20 de Outubro de 1812, o Governo constituiu-se accionista com cem contos annuaes, producto de novos impostos, no intuito de auxiliar o Banco.

Em 1815 foi o estabelecimento mudado para outro predio, na mesma rua. A 16 de Fevereiro de 1816, foram mandadas estabelecer agencias, d'este Banco, na Bahia e, a seguir, em outras provincias.

Esteve quasi fallido, em 1821, em consequencia de um activo de cinco mil contos contra um passivo de seis mil, sendo reorganisado pelo Governo, em 1823, que o auxiliou com mil e duzentos contos. Alem disso o Estado permittiu que o Banco emittisse bilhetes de 4, 6, 8 e 12$000 réis.

Por causa dos supprimentos feitos pelo Banco ao Governo, durante as guerras do Sul, a assembleia geral dos accionistas recorreu ao Governo, que contractou com o Banco pagar-lhe a divida com nova emissão de notas, proporcional á mesma divida. Esta medida desacreditou o Banco.

Por carta de lei de 23 de Setembro de 1829, foi mandado liquidar, e definitivamente dissolvido em 3 de julho de 1848. Por decreto de 2 de Julho de 1851, foi creado um novo Banco do Brasil, com o capital de dez mil contos, dividido em 20:000 acções de 500$000 réis cada uma, começando as operações a 21 de Agosto, na casa n.º 143 da rua da Quitanda.

Em 12 de Julho de 1853, este Banco foi fundido com o Commercial, sob o titulo do Banco do Brasil. Foi installado no actual edificio, especialmente construido, situado na rua da Alfandega, esquina da rua da Candelaria, em 10 de Abril de 1854. O capital do 3.º Banco do Brasil, era de trinta mil contos, divididos em 150:000 acções.

Esse capital foi depois elevado a 33:000 contos, divididos em 165:000 acções de 200$000 réis cada uma.

O primeiro ministro da Fazenda, da Republica, o dr. Ruy Barbosa, reformou-o em 1890, sob a designação de Banco da Republica dos Estados Unidos do Brasil, concedendo-lhe a faculdade emissora, ao principio com caracter privativo, ampliando-a depois a outros estabelecimentos de credito.

Foi o abuso d'esta faculdade que produziu o ensilhamento, causa do atrazo e do descredito das finanças brasileiras.

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=Casas de Correcção e de Detenção=—A primeira funcciona em edificio proprio, construido de 1835 a 1840, na rua do Conde d'Eu. A segunda, proxima da antecedente, foi inaugurada em 20 de Abril de 1856. Este estabelecimento é, hygienicamente, superior á Casa de Correcção, porém ambos estão mal situados. A primeira d'estas casas é uma especie de penitenciaria para trabalhos forçados e galés perpetuas. A segunda é apenas o deposito de presos das esquadras de policia, até que são julgados.

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=Palacio Episcopal=—Foi edificado de 1701 a 1715, pelo bispo D. Francisco de S. Jeronymo, no local da ermida da Conceição e de uma casa habitada por alguns religiosos francezes. Reformou-o o bispo D. José Joaquim Justiniano.

É um casarão sem architectura alguma definida, mas que occupa uma bellissima posição topographica, no alto do morro da Conceição, de onde o golpe de vista é maravilhoso para a cidade, a bahia e os arrabaldes.

A decoração interior é modesta, notando-se alguns retratos e bustos de prelados e monarchas.

Estabelecimentos Scientificos

Observatorio—Occupa o vértice do morro do Castello e foi fundado no reinado de D. Pedro I.

Servem ás suas installações as dependencias de um antigo estabelecimento de jesuitas, que nunca foi concluido. Torre mobil de duplo tecto, com instrumentos thermometricos e barometricos. Installação especial com apparelhos de precisão de horas.

Avulta um de Bamberg, Allemanha, que importou em 4:200$000 réis. Pavilhão com cupula mobil, de madeira e ferro, onde está installada a pequena equatorial, com 25 centimetros de objectiva. Ha outra, com 33 centimetros, que está desmontada.

Pavilhão com a installação de meridianos modernos e aperfeiçoados, não obstante prestar ainda serviços um apparelho de 1849.

Secção especial de preparo de chronometros de bordo.

Torre de ferro com balão, que sóbe e dispara precisamente á 1 hora da tarde. Deposito de instrumentos varios.

Salão com a bibliotheca especial do estabelecimento, em mais de 20:000 volumes. Sismographo, interessante apparelho que marca, com precisão, todos os phenomenos sismicos que se produzam em qualquer parte do mundo. Ha ainda outro instrumento d'este genero, com o peso de 500 kilos.

Apparelho para registo de electricidade atmospherica.

Amplo terraço, ladrilhado a tijolo, cota esplendorosa vista da bahia, da barra e da cidade.

Nas paredes e torreões vê-se o signal das balas disparadas pelos navios da esquadra revoltada, do contra-almirante Custodio José de Mello.

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Faculdade de Medicina—Este estabelecimento scientifico, que teve a sua origem no decreto de 5 de Novembro de 1808, mandando fundar, no Hospital Real Militar, uma escola anatomica, cirurgica e medica, está, ha quarenta annos, a funccionar em um velho pardieiro que tem entrada pelo largo da Misericordia.

É faculdade desde 3 de outubro de 1832. Comprehende os cursos de medicina, obstetrica, pharmacia e odontologia. Tem bibliotheca da especialidade e laboratorio de chimica.

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Escóla Polytechnica—Esta instituição teve a sua origem em 1699, quando o governo da metropole mandou estabelecer, no Rio de janeiro, uma aula de fortificação. Em 1810, estando D. João VI na capital do Brasil, tratou-se de installação condigna para este estabelecimento, já então reformado em Academia Real Militar, sendo aproveitados os alicerces e as paredes, até meia altura, da egreja cuja construccção estava, havia annos, interrompida e que era destinada a cathedral. Em 1812 foram inauguradas as aulas n'esse novo edificio, que é o actual, varias vezes modificado, no largo de S. Francisco de Paula, defronte da rua do Ouvidor. É de alvenaria sem estylo architectonico.

Em 9 de Março de 1842, o ministro da guerra, José Clemente Pereira, transformou o estabelecimento em Escóla Militar.

Dezeseis annos mais tarde, Jeronymo Francisco Coelho, tambem ministro da guerra, modificou-a para Escóla Central. Foi reorganisada sob a denominação de Escola Polytechnica, por decreto de 25 de Abril de 1874.

Tem sido reformada, por varias vezes, tanto sob o ponto de vista technico, como em relação ao edificio. Ultimamente, puzeram-lhe ao centro da fachada 4 columnas de pedra granitica, que o povo chrismou de nariz de cêra. Foi n'esta escóla que se formaram, em engenharia, os velhos marechaes do exercito brasileiro.

Comprehende os cursos de engenharia civil, estradas, minas, engenharia geographica e sciencias physico-mathematicas.

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Conservatorio de Musica—Este conservatorio foi creado por decreto de 27 de Novembro de 1841 e provisoriamente foram installadas as aulas no edificio do Museu Nacional, em 10 de Agosto de 1848. Em 14 de Maio de 1855 foi o Instituto Nacional de Musica, sua designação official, incorporado á Academia das Bellas Artes, construindo-se junto a esta Academia, um edificio especial para o Conservatorio, que foi inaugurado em 9 de Janeiro de 1872.

A edificação nada apresenta de notavel, funccionando a instituição para os dois sexos.

Este estabelecimento foi originado na Sociedade Beneficente Musical, fundada por Francisco Manoel da Silva, em 1833. O Conservatorio occupa 19 professores, 4 adjunctos e 9 auxiliares de ensino.

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Academia Nacional de Bellas Artes. Pedagogium. Syllogêo Brasileiro—Das duas primeiras instituições já foi dada noticia desenvolvida no capitulo Museus. O Syllogêo Brasileiro abriga a Academia Nacional de Medicina, o Instituto da Ordem dos Advogados e a Academia de Lettras. D'esta Academia partiu, ultimamente, a iniciativa da reforma da orthographia brasileira. O edificio especial onde funcciona o Syllogêo, foi mandado concluir recentemente pelo ministro Seabra, e está situado defronte do Passeio Publico.

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Escóla Normal—Estabelecimento scientifico para habilitação de professoras. Foi creado por decreto de 30 de Novembro de 1876, em duas secções, uma para preparo de professoras e a outra de instrucção primaria. Para seu funccionamento, foi construido um edifício especial, na rua da Relação, esquina da rua dos Invalidos, cuja pedra fundamental foi collocada em 2 de Dezembro de 1876. Actualmente, esta Escóla funcciona em um palacete da praça da Republica, porém vae ser brevemente transferida para casa propria, na Avenida Central.

O curso normal divide-se em 4 séries, comprehendendo a primeira—portuguez, francez, arithmetica, geographia, musica, trabalhos manuaes, trabalhos de agulha, calligraphia e gymnastica.

A 2.ª série abrange as aulas de portuguez, francez, algebra, geometria, geographia, historia, desenho linear, musica e trabalhos de agulha.

Na 3.ª série ha as seguintes disciplinas:—portuguez, francez, historia da America, historia natural, physica, pedagogia, trabalhos manuaes e desenho de ornato.

Finalmente, a 4.ª série comprehende litteratura brasileira, chimica, historia do Brasil, instrucção civica, pedagogia e desenho de figura.

A Escóla Normal encerra uma bibliotheca, uma officina de trabalhos de agulha, um gabinete de historia natural e um laboratorio de physica e chimica.

De 1900 a 1904 foram diplomadas 320 professoras, que só conseguem obter nomeação official depois de servirem um anno de adjuntas a professores cathedraticos, e mediante concurso publico.

O estabelecimento é superiormente dirigido pelo Director Geral de Instrucção Publica, auxiliado por um sub-director. A Escóla tem professores cathedraticos especiaes para cada disciplina, com uma professora-substituta, para cada cadeira, escolhida entre as diplomadas de mais brilhantes provas.

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Collegio Militar—Foi fundado, em 1880, pelo Conselheiro Thomaz José Coelho de Almeida, no antigo palacete do Barão de Mesquita.

Em 1891 foram inauguradas vastas dependencias juntas á primitiva installação. Abriga cêrca de 600 alumnos, filhos e primeiros netos de officiaes effectivos e reformados do Exercito e da Armada, filhos e primeiros netos de officiaes honorarios, por serviços de guerra; e filhos de praças de pret mortas em combate. Estes são os internados gratuitos; porém o estabelecimento tambem admitte alumnos contribuintes, de todas as classes sociaes. Os alumnos do Collegio Militar podem seguir a carreira que quizerem, valendo-lhes o curso d'esta instituição para as escólas militares de terra e mar.

Os dois edificios elevam-se ao centro de vasto e arborisado terreno, com a entrada pela rua de S. Francisco Xavier. No antigo palacete do Barão de Mesquita, visita-se a secretaria, a sala de armas, a repartição do quartel-mestre, a repartição do material, a arrecadação, os gabinetes do commandante, secretario e sub-secretario, a bibliotheca, a sala da congregação e a sala de honra dos alumnos distinctos. No grande edificio annexo estão installados tres dormitorios a 130 camas, álem de outros mais pequenos e 23 salas para aulas. Independentemente d'estes edificios, ha vasta installação hydrotherapica, gymnastica, usina para a illuminação electrica, etc.

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Gymnasio Nacional—Divide-se este estabelecimento de ensino em Internato e Externato. O primeiro occupa um vasto edificio na praça Marechal Deodoro. Até 1889, e á proclamação da Republica, teve esta instituição o titulo official de Collegio de D. Pedro II.

É destinado a formar bachareis em lettras, e foi fundado em 1837. O internato tem accommodações para 150 alumnos e o externato para 290. Este está installado na rua Marechal Floriano.

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Lyceu de Artes e Officios—Esta instituição, de ensino popular e gratuito, foi fundada e é mantida pela Sociedade Propagadora das Bellas Artes, em um velho, incompleto e improprio edificio da rua Treze de Maio, defronte do predio do Theatro Lyrico. O Governo auxilia o custeio d'este estabelecimento de ensino superior, que é regularmente frequentado.

Da Carioca ao Somaré

Partindo-se do antigo largo da Carioca, por sobre um viaducto, outr'ora aqueducto-conductor das aguas da serra do Andarahy, e das suas bifurcações, para a caixa d'agua da Carioca, em meia hora attinge-se o Somaré, que é um planalto situado álem do morro de Santa Thereza, e sobranceiro aos bairros de Catumby, Rio Comprido, Engenho Novo, Larangeiras, Fabrica das Chitas, Engenho Velho e Andarahy.

Sahindo do viaducto, o tramway embrenha-se em uma região encantadora pela opulencia e pelo pittoresco da vegetação, como devido ás elegantes construcções, aos jardins e ás chacaras, que salpicam a montanha, quebrando-lhe a monotonia vegetativa e realçando-lhe a belleza natural. Porém, o viajante não sabe que mais admirar, se a paisagem que o cerca, cuja formosura e perfume o deliciam, se o panorama que os, olhos abrangem, empolgante para a imaginação e sublimado para o espirito.

As encostas e os valles circumvisinhos, semeados de casaria, que quasi desapparece sob a fronde do arvoredo; os vértices de serras perenne e opulentamente vestidas, cujos encantos as nuvens tentam encobrir ao observador maravilhado; e, emfim, a immensa bahia de Guanabara, semeada de ilhas e resplendente das caricias do sol, tudo perpassa em profusão e como em um kaleidoscopio pela nossa retina, patenteando-nos os ineffaveis primôres da assombrosa capital brasileira.

A primeira estação é França e a segunda Lagoinha, onde a linha ferrea bifurca-se para o Silvestre e para o Somaré.

Attingido este ponto, em via de preparação pelo desbravamento do terreno e aterro da esplanada, o viajante assiste á apotheose da natureza em um dos mais deslumbrantes scenarios do universo. Não se descreve o indescriptivel, mas vê-se e sente-se que nenhuma outra cidade do mundo possúe os encantos naturaes do Rio de Janeiro.

A Companhia Ferro Carril da Carioca, presta relevante serviço publico, melhorando e explorando o Somaré, proximo futuro ponto de reunião dos fluminenses e de todos os admiradores do bello na sua mais suggestiva e arrebatadora manifestação.

A excelsa natureza, sempre libérrima e previdente, compensa assim os habitantes da esplendorosa capital do Brasil, proporcionando-lhes este e outros locaes de frescura e de recreio, a pouca distancia do centro de uma grande cidade, cuja temperatura é geralmente cálida.

Assistencia Publica

Seria negar a verdade escrever que não ha deficiencias no serviço de assistencia publica, no Rio de Janeiro. Pelo conhecimento d'este e do capitulo seguinte, que trata da beneficencia particular, ver-se-ha o quanto é cultivado e desenvolvido, na capital brasileira, o nobilissimo sentimento da philantropia, e quaes os principaes altares onde é adorada a deusa Caridade, que é tambem a mais bella e a mais sublime virtude civica como a mais gloriosa conquista da civilisação universal. As lacunas desapparecerão, gradualmente, pelos esforços combinados dos elementos officiaes, das associações beneficentes e da iniciativa particular, sempre sollicita e generosa na lucta ingente e sacrosanta contra as miserias humanas e as iniquidades sociaes.

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Hospital Nacional de Alienados—Foi fundado por decreto de 18 de Julho de 1841, para solemnisar a sagração e coroação de D. Pedro II, e por iniciativa do ministro do Imperio e provedor da Santa Casa de Misericordia, José Clemente Pereira.

A 1.ª pedra do edificio, que é o actual, situado na Praia Vermelha e na antiga chacara do Vigario Geral, foi lançada em 3 de Setembro de 1842, e a inauguração realisou-se, solemnemente, em 5 de Dezembro de 1852, com o titulo official de Hospicio de D. Pedro II, que conservou até á proclamação da Republica. Tres dias depois começou a funccionar com 140 alienados, 67 da enfermaria provisoria da Praia Vermelha e 73 removidos do Hospital da Misericordia.

O palacio occupa uma area de 1:562 braças quadradas. O portico, de cantaria, é accessivel por 10 degráus. 4 columnas de pedra, com capiteis doricos, sustentam uma balaustrada de marmore, com tres portas entre as columnas. Na frontaria do 2.º pavimento estão quatro columnas de ordem jonica, coroando o corpo central do edificio um frontão recto.

Um attico ornado de estatuas e vasos de marmore, occulta o telhado.

A architectura do 1.º pavimento é de ordem dorica, com vinte janellas de peitoril, nos corpos lateraes, e a do 2.º andar é de ordem jonica, tambem com 20 janellas. O desenho d'este monumento é dos architectos Domingos Monteiro, Guilhobel e José Maria Jacintho Rebello.

No vestibulo estão as estatuas de Esquirol e de Pinnel, por Pettrich.

O lado direito do edificio é occupado por homens e o esquerdo por mulheres. A primitiva construcção do Hospicio importou em 1:313:451$481 réis. 2.º pavimento: Bibliotheca da especialidade, a melhor da America do Sul. Grande mesa ao centro, com as revistas publicadas, em todo o mundo, sobre molestias nervosas. Gabinetes do Director e do Secretario.

Secção Calmeil. 150 doentes. Gabinete do medico. Sala de bilhar, para os doentes. Salão de recreio.

Gabinetes particulares, para doentes recolhidos á custa das familias.

Terraço para recreio, com lavatorio e banheiras de aceio. Corredor com quartos particulares para doentes de 4.ª classe. Bibliotheca para enfermos. Sala para doentes agitados. Foram supprimidos os quartos fortes para encerramento de furiosos. Refeitorio d'esta secção. Salão de sessões e festas. Aqui admira-se as estatuas de D. Pedro II e de José Clemente Pereira, em marmore branco, pelo esculptor Pettrich; os retratos de Deodoro, Rodrigues Alves, Aristides Lobo, e os bustos, em marmore branco, dos bemfeitores Eduardo Pinto e José Ribeiro. Archivo da casa. Capella, com um só altar e n'este a imagem de S. Pedro de Alcantara, marmorea obra de arte.

1.º pavimento. Dispensa e cosinha. Salão de curativos e de operações, dotado dos melhores e mais modernos apparelhos da especialidade. Installação especial para exames internos por meio da electricidade. Gabinete anatomico e estufa. Laboratorio bacteriologico. Esplendido microscopio e magnifico apparelho especial para medidas cerebraes.

Apparelho de microphotographia.

Pharmacia do estabelecimento.

Sala da energia electrica.

Secção dos raios X. Banheira electrica.

Apparelho para banhos de luz.

Sala de ophtalmologia.

Gabinete odonthologico.

Museu da especialidade, com grande numero de craneos.

Na cêrca do estabelecimento está um pavilhão isolado, com a cosinha geral do estabelecimento, movida a vapor, monumental e primorosamente aceiada.

Dois pavilhões para doentes epilepticos. Pavilhão para admissão e observação de doentes, com gabinetes para os exames medicos.

Aula de chimica psychiatrica da Faculdade de Medicina.

Pavilhão com installação balnear para doentes em observação. Duches e gabinetes para applicações electricas. Gabinete de psychologia experimental. Pavilhão com officinas de typographia, encadernação, colchoaria, sapataria e outras.

Na primeira imprime-se a revista Archivos Brasileiros.

Dois pavilhões de isolamento, com galeria, para tuberculosos.

Pavilhão-necroterio. Atelier photographico. Pavilhão isolado, com um leproso. Grande horta, tratada por doentes. Enfermaria, isolada, de doentes immundos.

Annexa á secção de mulheres, está a Escóla Barineville, com a frequencia, em Maio de 1908, de 54 creanças dos dois sexos, que aprendem a escrever com lettras de metal. A média geral de recolhidos, dos dois sexos, é de 1:200, annualmente.

A frontaria do edificio central tem 200 metros de comprimento e a area de todo o estabelecimento é de 140:000 metros. N'este manicomio funcciona uma Escóla de Enfermeiros, a unica do Brasil. Na ilha do Governador ha uma dependencia d'este Hospicio, com escóla agricola.

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Instituto Benjamin Constant—Na praia da Saudade, e a pequena distancia do monumento anteriormente descripto, eleva-se o grandioso edificio, por concluir, onde funcciona este Instituto, creado em 1857, com o titulo de Imperial Instituto de Meninos Cegos. Occupa uma area de 9:516 metros quadrados.

Os alumnos são divididos em gratuitos e contribuintes e teem aulas de instrucção primaria, secundaria e profissional. Encerra officinas de typographia, pelo systema de Braille; de encadernação; de empalhação de moveis; de afinação e concerto de pianos; de fabrico de objectos caseiros, como vassouras, espanadores, escovas; de artefactos de missanga e de lã, para bordar; e de fabricação de colchões. O Instituto admitte internados, cegos, de ambos os sexos e possúe banda de musica.

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Instituto dos Surdos Mudos—Foi fundado em 1857 e reorganisado em 1873. É só para o sexo masculino, sendo admittidos e favorecidos, pelo Governo, de preferencia, os orfãos de pae e mãe; os orfãos de pae e os filhos de funccionarios federaes, civis e militares.

O ensino, n'este estabelecimento, é litterario e profissional, comprehendendo este os officios de encadernador, dourador, sapateiro e exercicios gymnasticos, e aquelle linguagem escripta, articulada, leitura sobre os labios, mathematica, geographia, historia do Brasil, desenho e modelagem. Os alumnos pobres teem uma percentagem, geralmente de 30%, sobre os objectos por elles fabricados e sobre o preço do trabalho feito nas officinas, quando os objectos são para o Instituto.

Todo o calçado consumido no estabelecimento é fabricado na respectiva officina, subindo a 600 o numero de volumes encadernados mensalmente.

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Escóla Correccional 15 de Novembro—Esta instituição, fundada em 1890, está sob a dependencia e administração da Chefia de Policia, para a internação de menores vagabundos, orfãos ou abandonados pelos paes, sendo-lhes ministrada conveniente educação physica, moral e profissional.

Os menores delinquentes e os precocemente viciados, são separados d'aquelles que apenas foram abandonados pela penuria dos paes.

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Assistencia Judiciaria—A radical transformação de instituições politicas, no Brasil, iniciada em 15 de Novembro de 1889, entre outras e beneficas consequencias, trouxe a da fundação da Assistencia Judiciaria, instituição destinada a proporcionar defeza e amparo aos miseraveis attingidos pela garra adunca das leis repressivas. O Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros confeccionou o Regulamento da Assistencia, indicado pelo artigo n.º 176 do Decreto n.º 1:030, do Governo Provisorio, publicado em 14 de Novembro de 1890, e determinado pelo Decreto Federal, n.º 2:457, de 8 de Fevereiro de 1897. É esta uma das mais sympathicas instituições dos serviços de assistencia publica do Rio de Janeiro.

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Assistencia Policial—É da immediata direcção do Chefe de Policia, que contracta com uma ou mais emprezas particulares o serviço da conducção de enfermos domiciliados ou caídos na via publica, ebrios, alienados, feridos e de cadaveres, nas zonas urbana e suburbana do Districto Federal.

Ha cinco estações principaes, com o material sufficiente, álem de numerosos postos de soccorros. Em uns e outros, ha medicos permanentes, para os casos urgentes. Este serviço, porém, ainda ultimamente não estava devidamente aperfeiçoado, nem mesmo regularisado, devido a attrictos profissionaes e burocraticos entre os facultativos municipaes e os policiaes.

O Soccorro Immediato ás Victimas de Accidentes no Mar e o Deposito de Menores, são duas novissimas creações da Chefatura de Policia do Districto Federal.

O primeiro serviço consiste em uma lancha-enfermaria, a vapor, com pessoal competente e material apropriado. O Deposito de Menores, é subdividido para os dois sexos, e destina-se a asylar, provisoriamente, as creanças até á sua entrega ao Juiz dos Orfãos. Em 1907, a secção do sexo masculino recolheu 177 creanças, das quaes 117 foram desligadas em virtude de requisição judicial. A Chefia de Policia mantem estes serviços pela verba Diligencias Policiaes, por não haver ainda o Congresso Nacional votado os recursos indispensaveis ao seu funccionamento.

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Hospital de S. Sebastião—Está situado na Ponta do Cajú, e consta de um edificio central e de varios pavilhões isolados, com installações especiaes e para isolamento de enfermos contagiosos. Foi inaugurado em 1889 e substitue os extinctos hospitaes da Jurujuba e de Santa Barbara, aquelle para doentes de febre amarella e este para variolosos. Encerra 300 leitos e está a cargo da directoria Geral de Saúde Publica.

No edificio central estão installadas a Secretaria, a Bibliotheca, a sala do Director, a Rouparia, o Consultorio Medico, a Sala de Operações, admiravelmente provida, a Pharmacia, os laboratorios, os refeitorios e a cosinha. Nos pavilhões estão o almoxarifado, a lavanderia a vapor, as estufas de desinfecção, o deposito das roupas dos doentes, os aposentos dos internos e os quartos particulares para contribuintes. Ha pavilhões especiaes para as enfermarias geraes, a 60 leitos cada uma. O magnifico laboratorio bacteriologico d'este estabelecimento funcciona em edificio proprio, no parque.

Ha tres medicos internos, cinco externos e grande numero de enfermeiros e serventes. Como vão rareando os doentes de febre amarella, em consequencia da transformação da cidade e das rigorosas medidas hygienicas adoptadas pela Directoria Geral de Saúde Publica, o maior numero de internados é, actualmente, de variolosos.

É a melhor possivel a situação topographica d'este estabelecimento hospitalar, que recebe doentes por mar e por terra.

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Hospital Central do Exercito—Este estabelecimento, que apenas começa a funccionar, depois de concluido será, no genero, um dos primeiros do mundo.

Foi inaugurado em 20 de Junho de 1902, na rua Jockey Club, suburbio de S. Francisco Xavier, em um terreno que mede 280 metros de frente por 282 de fundo. Consta de um corpo central e de oito pavilhões, contendo 25 enfermarias. Occupa actualmente quatorze medicos, cujo Director tem a patente de tenente-coronel, cinco pharmaceuticos, um enfermeiro-mór, 14 irmãs de caridade, 20 ajudantes de enfermeiro e 60 serventes. É profusamente illuminado a luz electrica e abundantemente provido de agua.

Pavilhão Central. Hydrotherapia electrica. Banho de luz intensiva. Apparelho especial para luz azul. Sala de radiographia, com os mais modernos apparelhos. Gabinete de massagem. Sala das machinas extacticas. Gabinete de bacteriologia. Sala geral de operações, com numeroso e aperfeiçoado instrumental. Pavilhão de Cirurgia. Sala de esterelisação. Sala de operações, com gabinetes annexos. Salas de curativos. Sala do arsenal cirurgico. O custo de cada um d'estes pavilhões é de 200 contos. Mais tarde serão ligados por galerias, entre si e ao corpo central. A distancia d'este Hospital á cidade é de 70 minutos de tramway electrico.

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Hospital da Ilha das Cobras—É destinado a abrigar e curar os doentes da Armada Nacional. Foi inaugurado em 3 de Março de 1834. Tem uma succursal na praia da Copacabana, para tratamento de marinheiros atacados de beriberi.

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Asylo dos Invalidos da Patria—Funcciona desde 29 de Julho de 1868, na Ilha do Bom Jesus. Em 31 de Dezembro de 1907, abrigava 144 invalidos, mas o numero de asylados é de 800, achando-se os 650 restantes licenciados no territorio nacional. Abriga ainda muitos heroes da guerra do Paraguay.

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Instituto Oswaldo Cruz—Desde 19 de Março de 1908, é que tem esta designação official, em homenagem ao dr. Oswaldo Cruz, actual Director Geral da Saúde Publica, que tem prestado relevantissimos serviços á causa da salubridade da capital da Republica.

Anteriormente chamava-se Instituto de Manguinhos. É uma escóla de medicina experimental, especialmente destinada a auxiliar os serviços de prophylaxia e de policia sanitaria da Repartição Geral de Saúde Publica. Possúe laboratorios onde são preparadas as vaccinas, os sôros e outros productos applicados no tratamento e na prevenção de molestias contagiosas.

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Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica—Terminada a rapida descripção das instituições e dos estabelecimentos de assistencia publica do Rio de Janeiro, a cargo do governo federal, ou da União, daremos, a seguir, conta das principaes casas de caridade sob a administração e custeio da municipalidade fluminense e subordinadas á Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica.

Esta repartição foi organisada em 1893, para tratar dos serviços de soccorros medicos e gratuitos á população carioca, nas ruas e nos domicilios, em virtude de molestias ou de accidentes. Antes d'aquella data a assistencia publica estava unicamente a cargo das auctoridades federaes. Infelizmente, ainda não estão bem discriminados os serviços que incumbem á Directoria Geral de Saúde Publica, federal, e á Directoria Geral de Hygiene e Assistencia Publica, municipal, e d'ahi frequentes conflictos entre os representantes officiaes das duas entidades sanitarias, com o que soffre consideravelmente o serviço geral de assistencia publica.

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Institutos Profissionaes—São dois, um para cada sexo. Se bem que a cargo da Directoria Geral da Instrucção Publica, estas duas instituições são caracteristicamente da assistencia publica-municipal. O instituto masculino é organisado militarmente e possúe banda de musica. O ensino ministrado n'este estabelecimento comprehende o triplice curso de sciencias, artes e officios. Este ramo abrange a electricidade (ensino pratico), composição typographica, impressão e stereotypia, encadernação, carpintaria, marcenaria, torneiro, entalhador e ferreiro. O curso de sciencia consta de instrucção primaria, francez pratico, mathematica elementar, machinas, escripturação mercantil, electricidade e dactylographia. A secção artistica comprehende desenho geographico e elementar, de ornato e de machinas, esculptura, musica vocal e instrumental, gymnastica, agronomia e exercicios militares. Este instituto é o antigo Asylo dos Meninos Desvalidos, fundado em 1874. Tambem admitte semi-internos contribuintes, para o estudo de machinas e de electricidade.

O Instituto Profissional Feminino foi fundado em 1898, e é destinado a fornecer, a meninas, educação physica, moral, intellectual e pratica, esta em todos os ramos domesticos.

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Asylo de S. Francisco de Assis—Está situada esta instituição municipal, em edificio proprio, na rua do Visconde de Itaúna. Foi inaugurada em 10 de Julho de 1879, e recolhe os mendigos, dos dois sexos, encontrados na via publica, verificando-se que não podem prover á propria subsistencia. No fim de 1907 era de 228 o numero dos asylados.

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Casa de S. José—Recebe menores do sexo masculino, de 6 a 12 annos, que por abandono ou absoluta indigencia, careçam da protecção official. Fundou-o o conselheiro Ferreira Vianna, quando ministro do Imperio, e por subscripção publica. Os asylados recebem ensino de artes e officios, instrucção primaria, vestuario, alimentação e são obrigados a exercicios gymnasticos e militares.

Completos os 12 annos o asylado é restituido á sua familia, e se a não tem é internado no Instituto Profissional, ou entregue ao Pretor, para dar-lhe destino.

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Instituto Vaccinico-Municipal—Foi creado por Decreto de 5 de Setembro de 1894, e cabe-lhe, por contracto, a cultura, o preparo e a inoculação da vaccina animal. Importa e vende, com auctorisação superior, o sôro anti-diphetherico de Roux. Vaccina gratuitamente, não só a população indigente da capital, como os alumnos das escólas federaes e municipaes, as praças do Exercito, da Armada, do Corpo de Bombeiros, os funccionarios federaes e municipaes, fornecendo o sôro a qualquer dos Estados que o sollicite. Em 1904 este Instituto utilisou-se de 420 vitellos, distribuiu, na capital, 184:474 tubos vaccinicos, remetteu 171:461 tubos para os Estados e vaccinou 21:174 individuos. Está situado na rua Silveira Martins.

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Corpo de Bombeiros—Poderoso instrumento de assistencia publica, esta corporação tem prestado assignalados serviços á população fluminense. Existe desde 12 de Julho de 1856, tendo o primitivo titulo de Corpo Provisorio de Bombeiros da Côrte. A primeira bomba a vapor foi adquirida em 1865, e até 1870 todo o material era puxado á mão, passando a sêl-o a muares. Em 1881, foi creada uma caixa de beneficencia, e a cidade dividida em cinco districtos, para regularidade do serviço, e em cada um estabelecido um posto de soccorros. Actualmente, o Corpo de Bombeiros, tem 626 praças, divididas em 5 companhias, um estado maior e um estado menor de officiaes.

O material consta de 20 bombas a vapor, 2 fluctuantes, 16 bombas de cisterna, 22 de mão, 2 bombas chimicas, 1 de pressão hydraulica, 1 com dynamo, 5 abafadeiras chimicas, 6 meias-cabeças, 29 carros de transporte de pessoal e utensilios, 3 carros com escadas, 10 caminhões, 11 carroças com pipas para agua, 1 ambulancia, 19 carrinhos para mangueiras, 1 lancha a vapor com bomba para incendio a bordo, 78 escadas de assalto, 16 ditas de 1 e 2 ganchos, 52 apparelhos de salvação e 2 para-quedas. É de 100 a média de sinistros annuaes. No magnifico quartel d'esta corporação, ha uma enfermaria para as praças.

Na falda do morro de Santo Antonio, e a pouca distancia do respectivo quartel, está installado o hospital privativo da Força Policial.

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Hospital dos Lazaros—Está situado no vértice de uma collina, em face da bahia e no extremo da praia do Cajú, que ahi tem o nome do hospital.

O seu fundador foi o governador Conde de Bobadella, em umas pequenas casas que alugou em S. Christovão. O Conde da Cunha creou um lazareto nas proximidades d'aquellas propriedades, que funccionou até 1817, anno em que os leprosos foram removidos para a ilha das Enxadas, e em 1823 para a ilha do Bom Jesus. Restaurado o primitivo hospital, os doentes para elle voltaram em 18 de Fevereiro de 1833.

É em dois pavimentos e tem 2 capellas e um campanario que se avista logo á entrada da barra. É estabelecimento modelar, no genero.

Beneficencia Particular

O logar de honra n'esta especie de revista á assistencia particular da metropole fluminense, pertence, de direito, á Irmandade da Misericordia, benemerita instituição que nasceu com a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, e cuja historia é um preciosissimo escrinio de immenso e immortal amôr pela grande familia humana, divinal sacrario da verdadeira religião, a unica agradavel a Deus e ás sublimidades da nossa alma.

Eis o relatorio official do Provedor da Irmandade da Santa Casa da Misericordia do Rio de Janeiro, referente ao anno de 1907:

Secretaria—Centro do movimento administrativo de Instituição, canal por onde passam para terem execução as ordens e deliberações da Mesa e do Provedor, é de maxima importancia a sua acção, felizmente confiada a funccionarios, cuja actividade, intelligencia, zelo e prudencia constituem-no primeiro auxiliar n'esta parte dos nossos multiplos serviços.

Não foi possível reorganizal-a ainda este anno, não tanto porque disso resultasse consideravel encargo pecuniario, mas porque se torna preciso preparar um regulamento que attenda á conveniente distribuição de serviços novos, á melhoria dos já existentes, á adopção de processos rapidos sem prejuizo das garantias de fiscalisação; e para fazer reforma proveitosa não houve absolutamente tempo.

Repartição particular, é o seu movimento surprehendente, superior ao de muitas repartições officiaes, e para que bem se julgue bastará assignalar que por ella processaram-se 575 documentos, transitaram, sendo estudadas e informadas, 3:676 petições, fez-se o registro de 15:339 obitos, foram dadas 5:575 quitações, recebidos 1:218 officios e expedidos 4:671, sendo em diversos estabelecimentos da Santa Casa 4:355, dos quaes aos cemiterios publicos 3:835, aos Poderes Publicos da Republica 164 e a diversos 142, tiveram processo e expedição 5:670 ordens de pagamento, expediram-se 6:210 guias para recebimento, sendo 2:768 para arrecadação da renda dos cemiterios, com registros correspondentes em numero de 1:889, extrahiram-se 2:892 recibos para pagamentos de esmolas e pensões, passaram-se 3:506 certidões de obitos, e não me referirei aos papeis que entram ou sahem ás dezenas e centenas, taes como os titulos de perpetuidade de carneiros o jazigos, ordens aos cemiterios, portarias dando instrucções, nomeações, avisos, apostillas, cartas, e quanto póde calcular quem conhece quaes são os serviços e relações ligados á Santa Casa.

Accresce a escripturação dos livros de receita e despeza dos diversos estabelecimentos, o serviço do importante patrimonio predial, o da secção da Empreza Funeraria, que começa ás 8 horas da manhã e termina ás 6 horas da tarde, a organisação de quadros e mappas, a collaboração nos orçamentos, balanços e relatorios.

E tudo isso tem sido feito com inteira regularidade e sem reclamações.

De accôrdo com o que expuz á Mesa e Junta e com a sua auctorisação, mandei desde logo copiar as actas referentes ao seculo findo, achando-se promptas as dos annos compromissaes de 1800-1801 a 1809-1810 e de 1838-1839 a 1851-1852 (24), sem prejuizo do serviço ordinario e sem augmento de despeza. Para que se comece a impressão falta só authentical-as o presado Irmão Escrivão, cuja formalidade espero será brevemente preenchida.

Ao Sr. Dr. Vieira Fazenda dei a incumbencia de organisar a relação de todos os Provedores até á Provedoria do Sr. Conselheiro Barros Barreto, com succinta noticia de seus serviços, de modo a que não sejam esquecidos uns e outros no correr dos tempos.

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Hospital Geral—Esta secção tem de ser tratada sob os pontos de vista da distribuição de soccorros, dos melhoramentos no hospital, das condições dos haveres patrimoniaes, e da situação geral da Instituição.

Tratar desenvolvidamente de qualquer d'elles corresponderia a horas de leitura, o que a Sessão de Posse não comporta, por maior que seja a longanimidade dos presentes, e apenas haverá um esboço onde se poderia fazer longa memoria.

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O estudo comparativo dos soccorros prestados este anno com os do anterior mostra que as necessidades cresceram, o que importa na elevação dos encargos e no augmento do trabalho. Restrinjamo-nos ao que foi recentemente feito.

Recolheram-se 12:171 enfermos, restabeleceram-se 8:605, succumbiram 2:436, dos quaes 303 nas primeiras 24 horas, 165 nas segundas 24 horas e 116 as terceiras 24 horas.

A percentagem sobre a mortalidade geral foi de 2:002 e abatidos os fallecidos nas primeiras 24 horas temos 1:752.

Passaram para o corrente anno 1:130.

Entre os enfermos recolhidos figuram 672 menores de 1 a 17 annos, dos quaes 219 remettidos por auctoridades policiaes, 158 por delegados de hygiene, 9 pelos juizes de orfãos; sendo 613 nacionaes, 50 estrangeiros, do sexo masculino 437 e do feminino 235.

As enfermarias são em numero de 28 e mais o Isolamento, das quaes nove estão a cargo dos professores da Faculdade de Medicina, e as restantes a outros tantos clinicos, todos de grande competencia profissional e maior dedicação pelos enfermos, auxiliados por distinctos adjuntos gratuitos e numeroso corpo de internos saídos dos estudantes de medicina.

Ha tambem seis medicos internos, e tres adjuntos encarregados do serviço de admissão, revesando-se na portaria de modo que sem interrupção de um minuto, de dia e de noite, ha sempre de promptidão um clinico para attender ás necessidades do serviço hospitalar.

Os consultorios, ou a Sala do Banco, como popularmente se diz, foram procurados por 134:597 consultantes ou mais 3:927 que o anno passado, para os quaes se aviaram 156:497 receitas, ou mais 8:958.

São encarregados d'esse consideravel trabalho diario 10 medicos effectivos e 10 adjuntos, nas secções de allepathia, homœopathia, pequena cirurgia, hydrotherapia, electricidade e diversas especialidades.

É este um bom serviço realmente proveitoso para os necessitados.

O gabinete odontologico aos cuidados de um cirurgião dentista, de dois adjuntos e seis internos, effectuou 1:897 curativos e 8:993 extracções.

A pharmacia, sob a responsabilidade do Director e de dous pharmaceuticos avia, álem das receitas para a Sala do Banco, as das enfermarias, em uma média diaria de 800 (representando assim um total de 444:497 no anno).

Os medicamentos vêm da Europa por compra directamente feita aos mais afamados fabricantes, bem como os instrumentos cirurgicos e apparelhos. Com elles despendemos 67:205$810, inclusive despachos.

As dietas são preparadas com generos de primeira qualidade, comprados por concorrencia publica realizada de quatro em quatro mezes, em sua maior parte, e na mesma conformidade se procede para os que são consumidos pelo pessoal valido.

Tudo isso representa o abastecimento de uma pequena cidade, tendo sido a despeza de 332:245$400 réis no anno findo, sem computar a do ultimo mez (Junho), ainda não liquidada.

Para que se avalie das quantidades consummidas apontarei algumas: 1.866:000 pães de 75 grammas cada um; 103:000 litros de leite; 170:000 kilos de carne verde; 5:000 de carneiro; 26:220 kilos de arroz; 15:600 de farinha; 30:000 gallinhas; 9:080 frangos; 111:600 ovos; 10:000 kilos de café; 53:300 ditos de assucar; 250 barris de vinho branco; 100 de tinto e 70 do Porto, devendo notar que d'estas quantidades de vinho sahe o que é preciso nos outros hospitaes e asylos, e é preparada com medicamentos para ser distribuido por todos os consultorios da Casa.

Este colossal serviço é desempenhado de modo inexcedivel por 58 Irmãs de S. Vicente de Paulo, 8 das quaes se occupam exclusivamente do movimento da pharmacia.

São auxiliadas por 30 enfermeiros e enfermeiras, e por 175 serventes, moços de cosinha, copa, porteiros, guardas, etc. Cabe aqui consignar que vão dando excellentes resultados as aulas praticas dos enfermeiros; seis obtiveram premios no fim do anno, com a distincção de lhes haverem sido entregues pelo Sr. Presidente da Republica, de quem ouviram palavras summamente agradaveis.

A enorme responsabilidade pelo bom desempenho de tão variados e delicados serviços cabe inteira sobre o zeloso, activo e intelligente Dr. Director do Serviço Sanitario, e o devotamento, pratica e economia da respeitavel Irmã Superiora.

Ao pessoal da administração tambem cabe quinhão consideravel no serviço da escripta de entrada e saída de enfermos e outros encargos de não pequena importancia.

Na parte material o hospital nada ou pouco deixa a desejar, tão consideravel foi a reforma com que o beneficiou n'estes ultimos seis annos a inexcedivel dedicação e comprovada competencia do nosso presado Irmão Dr. José Carlos Rodrigues, seu ex-mordomo com tanto pesar de todos nós e particular saudade minha.

Á sua iniciativa exclusiva cabem todos os melhoramentos realisados, que elevaram esta obra de caridade até o ponto de não receiar confronto com qualquer outra do mundo civilisado, transformando-a completamente com proveito para os enfermos, gloria para a Santa Casa e honra para a nossa nação.

N'este anno foram installados o gabinete da analyses e pesquizas na enfermaria n.º 10, sob a direcção do Dr. Azevedo Sodré; o pavilhão para as prelecções de clinica-medica e a sala de autopsias.

Nas enfermarias de mulheres tambem foram installados quatro banheiros de agua fria e quente, bem como privadas em compartimento adequado, e igualmente installadas outras nas enfermarias n.ᵒˢ 20, 21 e 24 da Maternidade da Faculdade, sendo aproveitado para o serviço de cópa o espaço que ficou.

A passagem para o hospital velho e assim a do Necroterio, entre a 3.ª e 4.ª alas do hospital, foi toda cimentada, o que facilita o asseio e hygiene.

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Finanças—Nossa situação financeira se não é tão farta para augmentar como desejamos os soccorros que actualmente distribuimos, é sufficiente para mantel-os como estão constituidos e permittir a creação de mais alguns, o que é motivo para darmos graças a Deus.

Os haveres em titulos foram accrescidos de sete apolices da divida publica, valor de 1:000$ réis, e 10 de 100$ réis, juros de 4 por cento, do Estado do Rio de Janeiro, legadas por diversos, como consta da relação annexa, e estão representadas por 1:511 apolices, uniformisadas, algumas com determinada applicação da renda, de varios valores, sommando 1:506:000$ réis; possuimos mais as do emprestimo municipal, valor de 200$ réis, juros de 6 por cento, papel, 803; e de £20, ouro, juros de 5 por cento, 2:689, que, tomado para base o cambio de 15, figuram pelo valor de 1:023:080$ réis; e 42 apolices do Estado do Rio, no valor nominal de 17:000$000 réis.

Tambem temos 1:870 acções da Companhia Luz Stearica no valor de 200$ réis, ou sejam 374:000$ réis, 18 de 100 dollars da The Light and Power, e 22 do Banco Rural e Hypothecario, e mais 22 com 10 por cento do capital realisado.

É evidente que a renda d'esta parte patrimonial fracamente concorre para attender á despeza.

A fonte principal dos nossos recursos vem da renda predial e d'ahi merecer todo o cuidado a gestão d'essa parte do patrimonio.

Por motivo de força maior não puderam tomar conta dos quinhões, em que foram divididos os predios, segundo a disposição compromissal que se devia executar, dois dos mordomos eleitos, pelo que ficaram provisoriamente com o primeiro e terceiro aquellas secções, e ao seu zelo, digno de todo o louvor, se deve não ter tido consequencias desastrosas para a renda a crise que está atravessando, ha cêrca de quatro annos, o patrimonio predial, em sua maior parte velho, e sujeito, sem injustiça maior, a successivas condemnações e a diarias notificações para serem realisados reparos consideraveis.

Pela divisão feita, com a collaboração competente do 1.º mordomo, couberam a este 99 predios; 57 ao 2.º; 50 ao 3.º; 39 ao 4.º; mais tarde accrescido com 12 do patrimonio Souza Souto, então por concluir, e 67 ao 5.º

A cada um abri o credito de 5:000$ réis para attenderem desde logo aos pequenos concertos, como permitte o Compromisso.

Estes concertos absorveram 54:016$220 réis da respectiva verba orçamentaria.

A Mesa e Junta, previdente e acertadamente, deliberou que os saldos orçamentarios e o producto das vendas de predios fossem applicados a construcções e a reconstrucções dando auctorisação para levantar 160:000$ réis por emprestimo ao saldo existente no cofre dos dotes; e é com taes recursos que temos attendido á restauração do antigo patrimonio, correndo por conta separada a construcção dos predios do patrimonio Souza Souto.

Para o anno findo veio o saldo de 693:539$210 réis, elevado de 60:000$ réis, por me ter utilizado da referida auctorisação na parte sobre que ainda podia sacar: de réis 54:000$ em virtude do credito especial que fui auctorisado a abrir para construcção dos predios na rua Maranguape e Avenida Mem de Sá, e de 120:000$ réis, producto da venda do predio n.º 24 da rua dos Arcos, o que tudo representa a respeitavel somma de 927:539$210 réis.

D'ella despendemos 780:404$610, e com a sobra, réis 147:134$600, mais o saldo orçamentario que o balanço apurar, é que terei de liquidar os pagamentos oriundos dos contractos do anno que findou e importam em 152:172$ réis e de enfrentar novas reconstrucções, cabendo-me recorrer á Mesa e Junta conforme o apuro em que me veja. Desde já, porém, me ennuncio no sentido de que mesmo á custa de sacrificios devemos continuar a reconstruir, dando preferencia aos predios que se acham na zona commercial.

Foram-nos entregues no correr do anno os 22 predios da rua do Tunnel Novo, construidos em terrenos do Asylo Santa Maria, para inicio do Patrimonio Souza Souto, achando-se alugados quasi todos, e os 32 reconstruidos na quadra legada pelo bemfeitor Capitão-Mór José da Motta Pereira, em maioria já alugados, tendo-se dado baixa na fiança de 50:000$ réis em apolices a favor dos constructores Lavagnino & Betim.

Tambem recebemos 57 predios reconstruidos, conforme se vê do respectivo annexo, do qual constam as importancias gastas e a renda de cada um.

Dos predios ainda em obras, devemos receber dentro de 15 dias os da rua Maranguape n.º 57, Avenida Mem de Sá n.º 26, rua Marechal Floriano n.º 124 e rua da Conceição n.º 91, outros devem entrar dentro de dous mezes, e no de quatro os que restarem.

Foram addicionados ao patrimonio 18 predios legados pelo bemfeitor Antonio Augusto Teixeira, alguns dos quaes necessitam reparos; sua renda, porém, dá para attendel-os e para pagamento das pensões.

A synthese da nossa situação predial é a seguinte:

Possuimos 350 predios—2/3 3/4 Não teem achado inquilinos. 24 " Em obras ou condemnados. 32 "

Os alugueis recebidos no ultimo mez importaram em 85:326$846 réis.

Nos seis annos que acabam de correr quasi duplicámos o patrimonio, constituido em titulos: restaurámos e melhorámos consideravel parte do predial, elevando de modo apreciavel a sua renda: está intacta no Banco do Brasil a quantia de 350:000$ réis, recebida do Governo para auxiliar a construcção do Hospital de Tuberculosos; temos mais 147:000$ réis para fundo de reconstrucções, e presumo que o balanço nos demonstre saldo superior a réis 200:000$, que irá reforçal-o.

Os orçamentos para o anno que se inicia apresentam uma previsão lisonjeira; pois, álem de pequeno saldo, consignam verbas consideraveis, que não são de natureza permanente, taes como a de 166:000$ réis para a liquidação da divida com a Casa dos Expostos e 120:000$ réis para o Hospital dos Tuberculosos.

Merecem ser trazidos ao vosso conhecimento alguns factos que, comquanto de natureza differente dos que venho de tratar, não podem deixar de interessar, tão de perto se ligam á marcha da instituição.

A creação de mais uma Mordomia na nossa administração assignalará nos fastos da Misericordia o anno findo como um dos mais fecundos, pois foi n'elle que se ultimou o Dispensario para as crianças, dependencia de seu futuro hospital, cargo para que foi proposto e acceite o presado Irmão Dr. José Carlos Rodrigues, doador do valioso edificio, de custo superior a 300:000$ réis e cuja inauguração apenas depende da installação dos apparelhos recemvindos da Europa. Mais uma vez exprimo o reconhecimento da Instituição, não só pelo generoso donativo, como pelo proveitoso encaminhamento que ahi vae ser dado, por sua forte acção e sua carinhosa predilecção pela infancia necessitada, a uma boa distribuição de soccorros.

Rigorosa interpretação das leis fiscaes, tendo negado dispensa de impostos para o material importado da Europa com destino ao edificio dado por um particular em proveito das crianças pobres, nos levou a requerer ao Poder Legislativo a concessão do favor, que aliás sempre nos fôra concedido não só para o caso vertente, como para identicos, pois temos pendentes as construcções dos edificios para a Casa dos Expostos, Hospital dos Tuberculosos e outros.

Tratando da concessão de favores, não posso esquecer que o Conselho Municipal, em dezembro do anno passado, resolveu dispensar-nos do pagamento do imposto predial pelos predios que tivessemos adquirido até o anno de 1905, com perda da subvenção correspondente. Sem invejar os que na mesma occasião foram favorecidos com mais largueza, pois lhe deram isenção, até a data da lei, não deixarei de lastimar que esta Instituição menos merecesse, quando, entretanto, nenhuma como ella soccorre, por multiplas fórmas, aos desfavorecidos de todas as classes, idades, estados, sexos, nacionalidades e religiões, ha mais de tres seculos.

Outro favor de que já gosavamos, foi-nos retirado, depois novamente concedido, e por ultimo mais uma vez negado: é o da dispensa de emolumentos e mais despezas decorrentes das licenças para a construcção, concertos e reparações dos hospitaes e asylos. Na proxima sessão ordinaria do Conselho terei de promover a renovação do antigo favor. Nem outra attitude posso ter, desde que me cabe a inestimavel honra de representar aquelles que se interessam por tantos infelizes e desprotegidos.

Aguardando final deliberação do Ex,ᵐᵒ Sr. General Prefeito está o plano de extincção da valla commum, medida que que ha muito constitue uma aspiração da Santa Casa e para cuja realisação deseja ella contribuir, mesmo com sacrificio.

N'esses e em outros assumptos relativos a direitos do Hospital, de muita valia me teem sido os conselhos do nosso advogado.

Os estabelecimentos enviaram seus relatorios, mappas e inventarios dos bens existentes em cada um d'elles.

Adiantar-me mais n'este capitulo destinado ao Hospital, quando prometti concisão em começo, e não pouco resta a referir, seria desmerecer da confiança dos presados irmãos, abusando da sua paciencia; e isso me justifica de, sem estar esgotada a materia, passar a tratar de cada um dos outros estabelecimentos.

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Hospital de Nossa Senhora das Dôres (para tuberculosos)—Sito em Cascadura, foi o primeiro hospital destinado a tuberculosos n'esta cidade, e vae ser reconstruido para o mesmo fim, de accôrdo com as regras mais geralmente adoptadas em edificios congeneres: para o que ouvi o conselho do Dr. Oswaldo Cruz, benemerito Director da Saúde Publica, e conto com a efficaz cooperação do presado irmão Dr. Lauro Muller.

Enquanto se apuram as condições que definitivamente devem ser adoptadas no corpo principal, o que espero vêr resolvido em curto prazo, e tendo-se de fazer a total demolição do velho edificio, julguei prudente não consentir em novas admissões e transferencias de enfermas, salvo casos muito especiaes, afim de diminuir os embaraços que terão de ser encontrados para collocar alhures as hospitalisadas quando começarem as obras.

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Hospital de Crianças—Da benemerencia do presado irmão Dr. José Carlos Rodrigues houvemos o terreno ás ruas Miguel de Frias e S. Christovão, onde já está construida, a secção do Dispensario, importando a doação em mais de 300:000$000.

Brevemente terá logar a inauguração d'esse serviço de grande valia para a infancia, do bairro de S. Christovão.

O custeio do novo estabelecimento, na parte já levada a effeito, será por conta da verba orçamentaria que a Mesa e Junta votaram este anno e o auxilio da renda dos predios doados á Santa Casa pelo bemfeitor Alberto Barth, com destino a esse Instituto, na importancia annual de 9:600$000 réis.

A despeza ordinaria só será realmente conhecida e classificada depois do irmão Mordomo, que é o proprio doador, apresentar-me o plano de organisação dos serviços, tabella dos vencimentos do pessoal, e o mais que fôr necessario.

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Hospicio de Nossa Senhora da Saúde—Existente no bairro da Gambôa ha mais de 40 annos, são extraordinarios os serviços que desde então presta ás classes desfavorecidas d'essa circumscripção.

Dispõe de 340 leitos, inclusivé 16 dos quartos particulares, aos quaes foram recolhidos no anno findo 3:157 doentes. Saíram restabelecidos 2:709 e falleceram 486, em cujo numero estão 231 victimas da tuberculose, sob variadas fórmas, tratadas em enfermarias separadas das demais.

Em seu consultorio foram medicados 25:562 enfermos e preparadas 31:300 fórmulas.

O fornecimento de generos importou em 69:792$760 réis, sendo o abastecimento feito nas mesmas condições do Hospital.

Entre os enfermos tratados gratuitamente estão quatro meninos procedentes da Escola Correccional e 33 da Casa de S. José, aquella mantida pela Policia e esta pela Prefeitura Municipal; todos elles se restabeleceram.

Foi fartamente abastecido de lençóes, roupas, utensilios, etc.

A lavagem da roupa passou a ser feita por tres machinas com motor a gaz, abollindo-se o serviço manual até então executado pelas asyladas. Com este importante melhoramento, a construcção de um pequeno pavilhão para uso particular das irmãs, reparos no serviço de distribuição de agua e concertos nas dependencias se dispendeu 15:781$200 réis.

Por deliberação da Mesa e Junta, de 18 de Junho findo, foi reformado o antigo regulamento e consideravelmente melhorado o serviço clinico pela elevação do numero de medicos que de 6 passou a 11, creação de um logar de cirurgião, permanencia de um medico durante toda a noite, instituição de aulas praticas para os enfermeiros, augmento d'estes e dos serventes.

O serviço da noite será inaugurado logo que se conclúa a construcção do pequeno commodo destinado ao medico, o que terá logar em breve, attento o zelo com que d'isso está tratando o solicito irmão Mordomo.

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Taes melhoramentos crearam um encargo ordinario annual de 17:210$, do maior proveito, porém, para os enfermos sempre merecedores de nossos desvelos.

O serviço clinico é dirigido por profissional que ha mais de 43 annos trabalha n'esta Santa Casa, o que importa dizer que nada deixou a desejar, e na mesma fórma se executou o da pharmacia sob as vistas do pharmaceutico, auxiliado pela Superiora e por tres Irmãs.

A parte economica e a do tratamento de enfermos, em seu maior numero portadores dos mais dolorosos e repugnantes males, está confiada a 16 filhas de S. Vicente, a cuja frente se acha uma das mais dedicadas Superioras.

O edificio ainda carece de modificações, sobretudo na parte central, que devem ser realisadas logo que o permittam nossas circumstancias, e de uma sala de operações afim de que sob todos os pontos de vista tenhamos n'este o segundo hospital d'esta cidade.

O Capellão, que tem residencia effectiva, o Administrador e seus dous auxiliares cumpriram seus deveres.

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Hospicio de Nossa Senhora do Soccorro—Recentemente reconstruido apenas necessita o edificio de conservação, com o que no exercicio se despendeu 2:283$420 réis, e de melhor installação para a lavanderia, o que espero realisar este anno.

Sua lotação é de 100 leitos, 20 dos quaes para mulheres.

Os infelizes tuberculosos teem enfermarias proprias.

A despeza com a manutenção em pouco excedeu a orçada, correndo o augmento por conta de ter havido maior frequencia de enfermos, e alguma elevação nos preços dos generos de consumo, affastado como se acha do centro commercial.

A respeitavel Irmã Superiora pediu-me reforço de fazenda para lençóes, roupas para os enfermos, aventaes, fronhas, que deverá chegar no anno que começa e importa em cêrca de 6:000$ réis, como consta da respectiva verba no orçamento.

As Irmãs de S. Vicente de Paulo, que teem a seu cargo o serviço hospitalar e o do preparo das fórmulas para os doentes internos e os do consultorio, são em numero de 7, bem pouco para o muito que ha a fazer. O serviço religioso tem um capellão domiciliado fóra do Hospicio.

Só ha um funccionario administrativo—o Administrador—merecedor de apreço por seu constante zêlo.

O Irmão Mordomo foi o reconstructor desvelado do pequeno hospital, dotando-o com condições especiaes de hygiene, recursos para pequena cirurgia e tratamento hydrotherapico: d'ahi a continuação do verdadeiro carinho com que o conserva.

Não são insignificantes os soccorros prestados no anno findo. Foram tratados nas enfermarias 1:042 pobres, sendo 895 do sexo masculino e 147 do feminino.

As altas foram 852, os obitos 106, dos quaes 51 por tuberculose, passando para o novo anno 84 enfermos.

Entre os tratados gratuitamente estão tres enviados do Asylo de Menores Abandonados.

O consultorio funccionou em 279 dias uteis: n'elle fôram feitas 27 dilatações de pequenos abcessos e attendidos 14:065 consultantes, sendo preparadas 21:597 receitas. Seu movimento foi superior ao do anno precedente, em 2:659 consultantes e 5:408 fórmulas executadas na pharmacia pelas boas Irmãs incumbidas d'essa ardua tarefa, e mais das receitas para os doentes internados.

Tal foi o auxilio que no anno findo se prestou aos necessitados do Cajú e S. Christovão.

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Hospicio de S. João Baptista—Collocado na freguezia da Lagôa, bairro do Botafogo, póde á primeira vista parecer que os serviços prestados por este Hospicio serão muito inferiores ao de Nossa Senhora do Soccorro, sito n'uma zona populosa e de modestos recursos como S. Christovão. Entretanto, assim não succede; equilibram-se.

Os doentes recebidos chegaram a 989, todos do sexo masculino, sendo nacionaes 540 e estrangeiros 449, passando para este anno 802.

As altas foram em numero de 774 e os obitos no de 133, comprehendidos 53 casos de tuberculose. Os que soffrem d'este terrivel mal têm enfermaria separada.

O consultorio attendeu a 15:709 necessitados, aviando-se, sob as vistas do pharmaceutico formado e execução das irmãs, 18:216 receitas.

Á dedicação de uma respeitavel Superiora e de mais seis irmãs de S. Vicente de Paulo está confiada a guarda e tratamento dos enfermos e a direcção de toda a economia interna.

O edificio é de um só pavimento, assobradado, de apparencia modesta, na rua da Passagem, com lotação de cem leitos, e em muito razoavel estado de conservação. Ha quatro annos passou por importante reforma, na qual se despendeu perto de 30:000$ réis, melhorando-se-lhe sensivelmente as condições hygienicas.

Uma conservação attenta será sufficiente para, durante bastantes annos, com reduzida despeza, manter-se a actual situação.

O presado irmão mordomo, que acaba de ser escolhido para mais trabalhoso cargo, assim sempre o entendeu e bastante me auxiliou, mandando fazer convenientes reparos que apenas importaram em 1:149$390 réis, e determinando outros que terão de ser pagos este anno com pouco mais de 600$ réis. A necessidade de impermeabilizar o sólo de todo o porão, não podia ser addiada; promovi a execução d'este melhoramento, que importou em 7:714$560.

A despeza ordinaria esteve dentro das verbas destinadas no orçamento para o seu serviço.

A cargo d'este estabelecimento estão 431 abandonados, sendo 241 em criação interna e 190 na externa, entregues, a criadeiras em maioria residentes no municipio de Maricá, Estado do Rio de Janeiro, mediante a retribuição mensal de 20$ réis até 18 mezes e de 15$ réis d'essa idade até 7 annos, quanto aos meninos e até 8 annos quanto ás meninas.

O movimento foi de 179 entradas na casa central, sendo 44 enviados pelo hospital, por não comportar o grave estado das mães a prestação de cuidados aos filhos e d'elles não haver quem se encarregue, succedendo que quando ellas fallecem ficam as crianças definitivamente na casa; 112 entrados pela roda e 17 enviados por auctoridades policiaes, sendo 5 do sexo masculino e 12 do sexo feminino.

Foram desligados 59 por terem attingido a maioridade e collocados em casas de familia; 9 restituidos aos paes que os reclamaram; do Hospital Geral deram entrada para serem entregues ás mães restabelecidas, 44. Para o Collegio Salesiano foram remettidos 15 meninos de 10 a 13 annos, afim de fazerem sua educação profissional, conforme o contracto que temos com esse collegio: para a criação externa foram dados 74, sendo 44 meninos e 30 meninas.

Falleceram em criação interna e externa, nos primeiros oito dias de entrada, 6, e em subsequentes, 15.

Por trabalho estatistico recentemente elaborado se verificou que nos ultimos 20 annos entraram 2:750 expostos, dos quaes 258 succumbiram nos primeiros oito dias e 824 nos seguintes, ou 1:082, correspondente á percentagem de 40,49, extremamente agradavel comparada com a que se encontra em identicos estabelecimentos na Europa; e muito melhorada com a que se obteve este anno, que é de 15%.

A criação e educação interna nada deixam a desejar e a externa é toleravel.

Afim de reunir sob nossas vistas e zelosamente cuidar de todos esses desprotegidos é que foi suggerida, pela dedicada administração a cujo serviço se acha o inexcedivel zelo do presado irmão Escrivão dos Expostos, e acceita pela Mesa e Junta, a ideia de ser de vastas proporções o edificio onde se tem de ficar definitivamente, na rua Marquez de Abrantes; em consequencia da desapropriação dos predios de residencia dos expostos na rua Evaristo da Veiga, que nos obrigou a tomar de aluguel os da rua Senador Vergueiro e praia do Flamengo, onde mal se accomodam.

Fastidioso seria relatar as occorrencias que só agora consentem se poder organisar as bases do contracto com o constructor Rebecchi, para a edificação do grandioso edificio, pelo preço de 410:000$, álem do material que a casa fornecerá e está orçado em 130:000$ réis, se se obtiver dispensa do pagamento de impostos sobre o que fôr importado do estrangeiro.

A construcção ficará prompta em metade, permittindo desde logo a mudança de parte dos expostos, o que será um grande beneficio, ao cabo de seis mezes, contados da data da licença da Prefeitura, e de todo concluida ao fim de 10 mezes. Teremos, pois, nunca menos de 12 mezes para apurar os recursos com que devemos acudir a tão consideravel despeza.

No cofre existiam, em 30 de Junho, 214:870$406, em conta a prazo e de movimento; a receber desde já do Hospital pelas quotas dos bemfeitores, 25:848$000: do mesmo, no correr do anno, por liquidação do seu debito, 166:600$000: saldo muito provavel entre a receita e a despeza, no fim do corrente anno, 40:000$000.

Necessita preencher-se um claro de 100:000$000, e para isso poder-se-ha recorrer aos cofres dos outros estabelecimentos, por emprestimo, conforme os recursos de cada um permittir, e segundo a Mesa e Junta no momento julgar melhor.

Deus nos ha de ajudar na realização de tão elevado commettimento em favor de seres que só têm a Misericordia para amparal-os.

O patrimonio dos Expostos é dos que se acham em melhores condições.

Tem 563 titulos da divida publica, no valor de réis 562:200$000: 29 apolices de 200$000 (papel) da divida municipal, ou 5:800$000; 1:322 de 20 libras, da mesma divida que, ao cambio de 15, representam 423:040$000 réis.

Seus predios são em numero de 33, quasi todos em excellente estado; bem localizados e vantajosamente alugados.

No anno findo ainda se gastou em concertos e reparos a quantia de 81:694$440, não incluida a despeza da construcção dos alicerces do edificio da rua Marquez de Abrantes, n.º 20 (paredões e córte do morro).

N'aquelle numero não está comprehendido o da travessa do Ouvidor n.º 27, que, sujeito a obras consideraveis, a Mesa e Junta julgou preferivel ser vendido por 50:000$000, como tambem pensava a Administração dos Expostos.

Se é motivo de grande satisfação verificarmos a existencia de tão solido e valioso patrimonio, muito maior contentamento nos vem de termos apurado que do anno compromissal de 1829-1830 ao de 1906-1907 se despendeu 10.391:000$000.

É exactamente por assim satisfazermos os intuitos dos fundadores e bemfeitores da Casa, que Deus nos recompensa dando-nos a prosperidade.

A despeza com cada um exposto interno fica em réis 400$000 por anno, a do externo até 18 mezes, por 240$000, e d'essa idade em diante por 180$000.

Pagamos quatro dotes de 600$000 a expostas que se casaram, já desligadas pela maioridade, depois do inquerito que sempre se faz para conhecer as condições do pretendente e habilitar o Provedor a consentir no enlace, e a proposito devo dizer que alterei a pratica de dar menores em casamento aos que vinham pedil-as á Casa, sem de vista conhecel-as. Ninguem cria filhas para dal-as ao primeiro que as quer, e as expostas são nossas filhas. Demais, sempre considerei o matrimonio materia de tanta relevancia, deliberação tão cheia de responsabilidades, que não me julgo com forças para ser n'ellas solidario, intervindo como elemento preponderante, e muito menos decisivo, mesmo no proprio lar.

Um clinico retribuido e um adjunto gratuito cuidam da saúde dos internos, e por occasião de se pagar ás criadeiras são apresentados os externos e recolhidos os encontrados em más condições.

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Recolhimento das Orfãs e das Desvalidas de Santa Thereza—O numero de orfãs é de 170, saíram 9, falleceram 3 e entraram 10.

As desvalidas são 20, existiam 10, saíram 2 e entraram 6.

É superior a educação dada a essas meninas; nada fica devendo á dos mais reputados collegios da Capital. Entretanto é de 400$000 em média a despeza annual com cada uma das 190 educandas.

O patrimonio das orfãs é constituido por 468 apolices da divida publica de diversos valores, representando réis 461:600$000 e de 322 municipaes de libras 20 que, ao cambio de 15, correspondem a 103:040$000: por 11 predios cuja renda está orçada em 61:200$000, alguns construidos de novo, outros reconstruidos, com cujo serviço se gastou 71:059$525 este anno, e apenas necessitando um, em Nictheroy, de reconstrucção inteira e outro n'esta Capital, de serios reparos. Tambem existe em cofre a quantia de 400:000$, que será applicada ás necessidades do patrimonio predial, conforme deliberação da Mesa e Junta, determinando que para tal fim fôssem vendidas 50 apolices de 1:000$000, ao portador, resultantes do preço dos predios da rua Visconde de Inhaúma, desapropriados para alargamento da via publica.

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Cofre dos dotes—Seu patrimonio é de 671 apolices da divida publica no valor de 661:700$000; de 73 municipaes de libras 20, que ao cambio de 15 representam réis 23:360$000, e de um predio recentemente reconstruido, tendo-se pago ao empreiteiro este anno 7:600$000 pela ultima prestação, do preço de 34:593$440, sito á rua Marechal Floriano n.º 67, cuja renda annual é de 7:200$000.

Ao encerrar-se o anno, o balanço d'este cofre apresenta no Banco Commercial, em conta corrente de movimento, o saldo de 17:770$344, e em caixa 4:715$485.

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Asylo da Misericordia—Na ordem de importancia dos patrimonios e do numero de amparadas vem este asylo.

Seu regulamento foi reformado na sessão de Mesa e Junta, de 18 de Junho proximo passado, dando mais amplitude ás condições da admissão, elevando desde já com tres logares o numero de 162, que era o maximo, e estabelecendo um nivel de ensino mais proveitoso.

O movimento annual consistiu na transferencia de seis meninas para o Asylo de S. Cornelio, na retirada de 12 e no fallecimento de uma, tendo sido desde logo preenchidas todas as vagas, e ficando á espera de opportunidade mais de 50 pretendentes.

As asyladas prestam ao Hospital Geral o importante adjutorio de cortar e costurar uma grande parte da roupa de uso dos enfermos, assim compensando a quota annual com que elle contribue para cobrir o deficit, pois a renda do patrimonio é insufficiente para attender á despeza.

Este auxilio importou em 36:025$750, no anno concluido

E não é possivel haver mais economia desde que a despeza de cada asylada importou, nos doze mezes, em 253$000 algarismo redondo, a mais reduzida dos nossos estabelecimentos, e certamente sem competencia nas de outras instituições, desde que sejam mantidos nas condições em que temos o nosso.

Nada falta a uma boa alimentação, o vestuario é modesto, mas sufficiente, as condições de hygiene excellentes, a instrucção, que já era regular, vae ser mais completa, e os trabalhos de costura, bordados e de confecções de flôres artificiaes não ficam muito áquem dos outros estabelecimentos.

O predio onde se acha installado, á rua de S. Clemente, acha-se em magnifica situação, perfeitamente conservado, e satisfazendo ás actuaes necessidades; apenas preciza que seja completado o lavatorio da secção das menores, o que se fará no anno corrente.

Álem d'este possúe mais o Asylo o de n.º 168, na mesma rua, alugado por 220$, e 236 apolices da divida publica, de varios valores, no total de 232:300$000.

Foi orçada a receita para este anno em 50:804$750, incluida a quota do Hospital, na importancia de 36:025$750 e a despeza em 50:804$750.

Recebeu um donativo de 490$ applicado á compra de uma apolice federal de 500$, entrando o Hospital com o excedente; pelo cofre respectivo foi satisfeito o dote de 300$ a uma asylada, já maior, que contrahiu casamento, com licença.

O mordomo, que de ha annos presta reaes serviços ao asylo, frequentando-o assiduamente e angariando donativos em dinheiro e objectos proveitosos, a activa superiora e suas oito companheiras, dignas filhas de S. Vicente de Paulo, merecem nosso reconhecimento.

O capellão, o medico e a dentista cumpriram suas obrigações com interesse.

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Asylo de S. Cornelio—O numero de suas asyladas é de 34 e ao findar o anno existiam 33.

No periodo compromissal foi removida uma para o Asylo de Santa Maria e retiraram-se 7; estas vagas e as provindas do anno anterior foram preenchidas com 7 meninas transferidas do Asylo da Misericordia, 1 do Asylo Provisorio do Hospital Geral e 1 de procedencia externa.

Não houve fallecimento.

Casaram-se 3 ex-asyladas, devidamente licenciadas, recebendo cada uma o dote de 300$000.

A administração interna está entregue a quatro irmãs de caridade de S. Vicente de Paulo, uma das quaes é a superiora, todas bem cuidando do desempenho de seu voluntario encargo.

O prezado irmão mordomo, álem do zêlo que emprega no desempenho de suas funcções, ha annos presta com ininterrupta dedicação, e gratuitamente, os seus serviços de distincto clinico, o que basta dizer para que se possa avaliar da extensão da nossa divida.

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Asylo Provisorio do Hospital Geral—Talvez pareça extranho que se mantenham asylos nos hospitaes, mas a lei da necessidade a isso nos obriga.

O que se ha de fazer das crianças cujas mães succumbem nas enfermarias, não tendo ninguem que se encarregue dos infelizes orfãos, e das que são abandonadas propositalmente na Sala do Banco? Guardamol-as.

Se são de tenra idade ficam na Casa dos Expostos; de 4 annos em diante permanecem no hospital em commodos especiaes, recebendo instrucção primaria, até attingirem idade que permitta ás meninas irem para algum dos asylos e aos meninos para o Collegio Salesiano, em Santa Rosa, mediante retribuição, afim de se prepararem em artes mechanicas.

A manutenção, vestuario e quanto é preciso nos asylados correm por conta da despeza geral do hospital, inclusive os enxovaes dos que são entregues aos Salesianos.

Existe matricula com todos os esclarecimentos que se póde obter, afim de em qualquer tempo ser reconhecida sua identidade.

No anno findo existiam, em seu começo, 35 meninos, no seu decurso entraram 3 e foram enviados 5 para o Collegio Salesiano; não houve obito, restando-nos assim 33.

Com relação ás meninas o movimento foi este no mesmo periodo: existiam 25, entraram 4, foi enviada uma para o Asylo de S. Cornelio, nem uma falleceu, e actualmente existem 28. Temos ao todo 61.

Quando contrahem casamento, mesmo desligadas por terem feito 21 annos, recebem 300$ de dote, tanto mais que são ellas dos 8 aos 12 annos, as que fazem o serviço do sorteio dos numeros nas loterias, fonte do peculio d'onde sahem os dotes.

Assignalarei a circumstancia de, apezar da tenra idade, das más condições em que se acham quando nos são legados, e de viverem n'um hospital, não haver fallecido nem um d'esses seres frageis, o que mostra o interesse e carinho que merecem das irmãs de caridade, a cujo cargo estão.

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Asylo Provisorio do Hospicio da Saúde—No periodo compromissal de que estou dando contas começámos com 36 asyladas, entraram tres, falleceram duas, saíram cinco e restam-nos 32.

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Peculio das Asyladas—Sob esta rubrica figurava no orçamento a importancia de 52:825$122, destinada ao pagamento de dotes de 300$, a todas as orfãs e asyladas dos estabelecimentos da Santa Casa, que não dispõem de cofre privativo, como o Recolhimento das Orfãs, ou de recursos proprios como a Casa dos Expostos.

Para a sua constituição concorreram e ainda concorrem, álem de outros donativos que lhe foram applicados, os que recebem as asyladas do Hospital Geral pelo serviço que prestam, ha bastantes annos, em tirarem as espheras dos numeros e premios nos sorteios lotericos.

Durante o anno compromissal, de que estou dando contas, foram pagos cinco dotes, sendo as contempladas uma ex-asylada do Asylo da Misericordia, tres ex-asyladas do Asylo de S. Cornelio e uma ex-asylada do Asylo Provisorio do Hospicio de Nossa Senhora da Saúde.

O patrimonio, em 30 de Junho, feita a conta dos respectivos juros, é de 60:770$783.

Por conta dos dotes—Prudente de Moraes—nem um se pagou, sendo o saldo, na mesma data, de 10:486$690, com os respectivos juros.

Os dotes já distribuidos, por esta conta, são em numero de 18.

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Cemiterio de S. Francisco Xavier—Essa vasta necropole, em cujo centro se acha o Campo Santo da nossa Irmandade, está sendo, e ainda por muitos annos será, em consequencia de suas vastas proporções, e dos colossaes melhoramentos que lhe são indispensaveis, o longo e largo canal por onde se escoará consideravel parte da renda da Empreza Funeraria.

Basta assignalar que ha cêrca de seis annos, sem interrupção, se faz o aterro do mangue que ainda existe n'uma de suas faces, n'isto se despendendo até agora um pouco mais de 500:000$000.

Mui poucas de suas longas e extensas ruas estão calçadas, e ha grande numero de quadros de carneiros que precisam de ter cimentados os corredores que lhes dão accesso.

Sua arborização é deficiente, apezar de iniciada ha dous annos. Longo seria indicar quanto se deve fazer; limitar-me-hei a affirmar que, dentro dos recursos orçamentarios, se trabalha continuamente, attendendo ao que é inadiavel, e a informar o que se executou no anno passado.

Serviço da maior importancia foi iniciado ha cêrca de tres mezes, espero vêl-o concluido dentro de dous ou tres annos; é a revisão da numeração das sepulturas rasas, em numero superior a 40:000, não incluidas as sepulturas communs.

Esse trabalho está sendo feito com o maximo cuidado, examinados os assentamentos um a um, substituídas as condemnadas chapas de ferro por marcos de cimento, e depois de só assim preparado e rectificado o quadro, far-se-ha n'elle novo enterramento.

Ao presado Irmão Mordomo cabe boa somma do que se tem levado a cabo, e do pessoal da administração apenas cinco empregados, em particular de seu chefe, que é um d'elles, me tem vindo valioso auxilio para a boa execução das reformas em andamento.

Os enterramentos no anno de que trato, foram de 519 em carneiros, 7:282 em sepulturas rasas e 3:923 em sepulturas communs, ou um total de 11:726.

Cemiterio de S. João Baptista—De menores proporções, sempre merecendo cuidados, é este cemiterio hoje um dos bons attestados do zêlo da Santa Casa e póde competir com os que em melhor conta sejam tidos.

Muito pouco ha a fazer n'elle, álem da conservação do que se tem executado, e um ou outro melhoramento.

Ainda este anno findo foi dotado de um forno para incineração de lixo, cuja construcção importou em 7:500$. macadamisaram-se e alcatroaram-se algumas das suas ruas; a substituição das chapas de ferro e a numeração das sepulturas rasas foi terminada; e apenas restam dous ou tres quadros de carneiros ou jazigos para terem as ruas internas cimentadas.

A arborisação está terminada.

Póde começar a descançar o presado Irmão Mordomo, que ha cerca de cinco annos se esforça para conseguir o bello resultado que todos applaudem.

Tres são os empregados da administração, que bem cumprem seus deveres, salientando-se um a que faz justa referencia o zeloso Mordomo.

Foram inhumados 3:299 cadaveres, dos quaes 492 em carneiros, 2:468 em sepulturas rasas de contribuição, e 339 em gratuitas, facultadas aos indigentes; pois n'esse cemiterio ha muito que foi exctincta a sepultura commum.

Dos nichos perpetuos do collumbario, exclusivamente feitos para os que não têm recursos que permittam a acquisição de jazigos perpetuos, foram vendidos 64.

Espero em breve vêr concluida a planta cadastral iniciada no anno findo.

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Recapitulação—Não fôsse a conveniencia, direi melhor, a proveitosa obrigação de, em obediencia ao Compromisso, explanar o modo porque a administração da Santa Casa se houve durante um anno no desempenho de seus delicados deveres, afim de que a Mesa, todos os presados Irmãos, os Poderes Publicos, a população d'esta Capital, possam julgar de sua gestão e continuar a dar-lhe o amparo e confiança tão necessarios á acção que se vae desenvolver no anno corrente, e bastaria apresentar de um lado a commemoração dos serviços prestados pela Instituição no alludido periodo, de outro, os recursos disponiveis para acudir no novo anno ás grandes necessidades que como sempre se hão-de apresentar para serem remediadas.

Em poucas linhas seria dito bastante para patentear a grandeza da obra da Misericordia.

N'uma synthese rapida, mas eloquentemente expressiva, mostrar-se-hia, quanto aos soccorros, que em um anno foram recolhidos aos hospitaes 19:440 enfermos, attendidos nos consultorios 236:511, preparadas 258:686 fórmulas, dispensados nos gabinetes de especialidades 27:828 soccorros, agasalhadas nos diversos estabelecimentos cêrca de mil orfãs, expostos e asyladas, distribuidos a viuvas, 20:272$, e inhumados caridosamente 4:264 indigentes.

Com relação aos recursos com que se vae encetar o anno, sujeitos ao balanço addicional e a destinos especiaes, encontramos no cofre do Hospital Geral, 701:293$600, no da Casa dos Expostos, 214:870$406, no do Recolhimento das Orfãs, 43:620$782, no das Desvalidas de Santa Thereza, 22:594$520, no dos Dotes, 23:070$520, no da Empreza Funeraria, 112:105$128.

E o meu relatorio estaria feito.

Apenas accrescentar-lhe-hia, com tristeza, que quanto temos para applicar em obras de misericordia não basta.

No cumprimento de meu dever, como quem mais de perto lida com a pobreza da Capital, e em justificação da attitude apparentemente pouco caritativa que me vejo obrigado a manter, conhecedor da estreiteza relativa dos nossos recursos, confessaremos ao Poder Publico, ás almas piedosas que, não ás vezes, sim quotidianamente, recusamos enfermos por não haver mais logar no chão dos hospitaes onde estender um colchão, não acolhemos dezenas de orfãos solicitando admissão nos asylos por não haver collocação, deixamos sem esmolas a velhas viuvas por estarem esgotadas as verbas.

Não será, pois, com o meu silencio que se desculpará a indifferença dos poderosos e, ainda menos, a deliberalidade dos opulentos.

Quanto a nós, desempenhemo-nos dos nossos encargos com a inteireza e fidelidade que exige o serviço da Santa Casa, como determina o Compromisso, e teremos na tranquillidade de nossas consciencias elevada recompensa ao trabalho que nos rodear.

E d'isso dando exemplo, em falta de mais valioso titulo, venho satisfazer um dever apresentando-vos meu relatorio.

DR. MIGUEL JOAQUIM RIBEIRO DE CARVALHO.

Este substancioso documento, melhor do que qualquer descripção especial, dá bem a ideia da beneficencia, ou assistencia particular no Rio de Janeiro, assumpto que continuaremos a tratar nos sub-capitulos que vão seguir-se.

O relatorio acima transcripto não refere, porém, que a limpeza do Hospital Geral, deixa muito a desejar, sentindo-se em todas as suas dependencias o cheiro forte e caracteristico d'estas casas de caridade, quando a hygiene não é sufficientemente observada. Este immenso edificio, em 2 quadrilateros a 3 pavimentos e 4 torreões a 3 andares, faceia a praia de Santa Luzia e foi construido com o producto de loterias, tendo sido a primeira de 110 contos, concedida por D. João VI. Os pavimentos encerram 28 enfermarias geraes, com nomenclatura de santos. O Necroterio, adjunto ao Hospital, é indigno da instituição.

A irmandade da Misericordia, do Rio de Janeiro, data de 1545, e o hospital foi fundado nos primeiros annos do seculo XVII, ignorando-se exactamente a data, occupando varios immoveis, antes da construcção do actual edificio.

Como consta do Relatorio acima transcripto, a Santa Casa da Misericordia do Rio de Janeiro, tem as seguintes organisações subsidiarias, ou complementares:

Asylo da Misericordia, em S. Clemente, inaugurado em 27 de Julho de 1890, com 162 asylados, no fim de 1907;

Asylo de Santa Maria, funccionando desde 29 de Abril de 1877, e que encerra, actualmente, 52 orfãos;

Asylo das Velhas, inaugurado em 1 de Maio de 1884, com 43 invalidas;

Casa dos Expostos, ao principio, isto é, em 14 de Janeiro de 1738, data da sua fundação, intitulada Roda dos Expostos. Abriga 260 creanças dos dois sexos, além de cêrca de 200 dadas a criar fóra do estabelecimento.

Até ao fim de 1900, tinha esta instituição recolhido 43:038 creanças.

Recolhimento das Orfãs, fundado em 15 de Outubro de 1739, em Botafogo. Em fins de 1907, tinha 170 internadas, ás quaes é ministrada educação elementar, além da alimentação, até á puberdade.

Asylo de S. Cornelio, no Cattete, inaugurado em 1 de Setembro de 1900. 34 asylados.

Asylo de N. S. da Saúde, annexo ao hospital da mesma denominação. Foi inaugurado em 1853 e abriga 340 orfãos.

Asylo Provisorio do Hospital Geral, especialmente destinado a recolher orfãos deixados sem abrigo por enfermos fallecidos nos hospitaes da Santa Casa.

Asylo de N. S. das Dôres, em Cascadura, para asyladas tuberculosas, ou extraordinariamente debeis, mandadas a melhores ares pelos varios estabelecimentos que a Santa Casa mantem na cidade.

Hospital de S. João Baptista da Lagôa, em Botafogo, com 100 leitos e 5 enfermarias, para homens. Consultorio externo e distribuição gratuita de remedios.

Hospital de N. S. do Soccorro, em S. Christovão, com 50 leitos.

Hospital de N. S. da Saúde, na Gambôa, com 300 leitos. Tambem abriga meninas desvalidas, não reclamadas pelos interessados.

Consultorio gratuito para a indigencia.

Instituto Pasteur. Inaugurado em 1888. Assistencia preventiva de pessôas mordidas por animaes hydrophobos.

Não obstante o numero e a variedade de estabelecimentos beneficentes, a Santa Casa resente-se, especialmente no grandioso Hospital Geral, da accumulação de enfermos invalidos, convalescentes e em tratamento de molestias incuraveis, sendo insufficientes as enfermarias existentes e de urgentissima necessidade a creação de novas instituições destinadas a recolher o excesso da população hospitalar.

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Asylo Gonçalves de Araujo—Antonio Gonçalves de Araujo, negociante portuguez fallecido no Rio de Janeiro, em 21 de Setembro de 1889, legou mil e quinhentos contos de réis á Irmandade de N. S. da Candelaria, para a fundação e custeio de um asylo destinado a abrigar menores dos dois sexos.

O edificio, com tres pavimentos, occupa na praça Marechal Deodoro, uma area de 12:000 metros.

No 1.º pavimento estão as salas da Administração, o almoxarifado, a despensa, as officinas, o lavabo e as banheiras; no 2.º andar, a bibliotheca, a residencia do Director e das regentes, as aulas, os refeitorios e a cosinha; no terceiro pavimento, o salão de honra, os dormitorios, as enfermarias e a rouparia. Em fins de 1907 havia 92 asylados, sendo 67 do sexo feminino. A condição de admissão é a extrema pobreza, dos 7 aos 18 annos. Ensina-se costura, bordado, fabríco de flôres, lavagem, engommado, arte culinaria, além do curso primario, completo.

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Dispensario Azevedo Lima—Esta altruistica instituição foi, em principio, denominada—Dispensario da Liga Brasileira contra a Tuberculose—por ser creado por esta collectividade, mas o Presidente da Republica, dr. Affonso Pena, ao inaugural-o, em 25 de Maio de 1907, escreveu no auto de inauguração—Dispensario Azevedo Lima—em homenagem ao seu fundador e Presidente da Liga, o eminente e benemerito facultativo, dr. José Jeronymo de Azevedo Lima.

O governo cedeu o terreno, junto da Avenida Central, e a Liga levantou o predio, que custou 120 contos de réis. Fica isolado, por tres das suas faces, dos predios visinhos, e ergue-se entre jardins. O Estado subsidia o Dispensario com a annuidade de 24 contos. Os clinicos são beneficentes e effectivos.

No vestibulo ha duas salas de espera; um gabinete de exame, com balança de pesagem e apparelhos para desinfecção; uma sala para exame especial de laringe, com o material competente; um laboratorio bacteriologico e uma dependencia com estufa para encineração de residuos. Primeiro pavimento. Gabinete da Directoria. Sala das sessões, com o busto da Caridade, em bronze, por Teixeira Lopes. Bibliotheca da especialidade. Esta secção continua no 2.º andar, onde tambem ha um terraço com a admiravel perspectiva da Avenida Central e de parte da cidade e da bahia.

A Liga resolveu fundar novos sanatorios em varios bairros da capital e no interior do paiz, assim como um sanatorio para creanças tuberculosas, com o nome da rainha D. Amelia, de Portugal. A commissão da colonia portugueza que promovia grandiosos festejos para a recepção de D. Carlos I, resolveu entregar á Liga, para o fim acima exposto, as sommas arrecadadas. Para avaliar-se da necessidade d'esta philantropica instituição, bastará considerar-se que, em 1906, morreram, na cidade do Rio de Janeiro, 2:782 tuberculosos, em um total de 13:957 defuncções. Antes do actual a Liga já possuira um Dispensario na rua Gonçalves Dias, em 1902. Em 1906 a Liga deu 621 consultas, fez 77 visitas domiciliarias, aviou 883 receitas, fez 160 exames microscopicos e 87 laryngoscopicos. Além d'isso distribuiu 131 porções de oleo de figado de bacalhau, 2:150 de carne, 2:150 de leite e 353 escarradores.

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Hospital da Real Sociedade Portugueza de Beneficencia—A ideia da fundação, no Rio de janeiro, de uma Sociedade Portugueza de Beneficencia, pertence ao então ministro de Portugal, no Brasil, Joaquim Cesar Figaniére Mourão, que, em 1839, a suggeriu ao consul, dr. José Marcellino da Rocha Cabral. Tomou a iniciativa da fundação a Directoria do Gabinete Portuguez de Leitura, que organisou os estatutos. Quanto ao hospital, foi seu iniciador o socio João Nunes de Andrade, que apresentou a proposta em sessão de 20 de Fevereiro de 1848. Começou-se pela fundação, em 1849, de uma enfermaria denominada de S. Vicente de Paulo, para os portuguezes atacados de febre amarella.

A compra do terreno para edificação do actual hospital, fez-se em 1851 e importou em 9:280$000 réis, na rua de Santo Amaro e nas dimensões de 26 braças e 4 palmos.

Muito concorreu para a fundação d'este estabelecimento, o presidente da Sociedade, Hermenegildo Antonio Pinto. Em 19 de Dezembro de 1853, foi lançada a 1.ª pedra do edificio, e a inauguração realisou-se em 16 de Setembro de 1858. Á entrada ha duplo lance de escadaria de granito, dividido por tres grupos estatuarios, representando a Caridade, depois de transposto o triplice portão de ferro, encimado pelas estatuas de D. Affonso Henriques e de Pedro Alvares Cabral.

O vestibulo é decorado pelos bustos, em marmore, de D. Carlos I, e dos condes de Agrolongo, de Mattosinhos, de Avellar e de S. Mamede. Gabinete da administração, com os retratos de D. Pedro V, de D. Estephania e do conde de Santa Marinha. Seguem-se, no mesmo pavimento vestibular, a secretaria, a rouparia, o gabinete das consultas externas, 2 dos curativos e a sala de operações. Na ala fronteira, uma enfermaria cirurgica, 3 mistas de medicina e cirurgia, refeitorios, installação hydrotherapica e cosinha geral. A pharmacia e o laboratorio funccionam em pavilhão separado. Pavilhão de isolamento de molestias contagiosas. Enfermaria de tuberculosos. Necroterio, na cêrca, em pavilhão isolado. Novissimo pavilhão com 2 salas de operações. Quartos particulares para contribuintes. Vestibulo da 2.ª ala geral do edificio, decorado por um grupo, em marmore, representando a Caridade, e pelos bustos de D. Pedro V, do conde de S. Cosme do Valle, de Julio Alberto da Costa, por Teixeira Lopes, e de Alexandre Herculano, este em ferro prateado e aquelles de marmore branco. Sala da Bibliotheca, com 3:000 volumes. Primeiro pavimento. Sala das sessões, guarnecida a retratos de bemfeitores do hospital. Retratos a oleo de D. Pedro V, D. Luiz I e D. Maria Pia. Quartos particulares e de internos (doutorandos). Consultorio homópathico e pharmacia. Enfermaria S. José (homópatha) composta de quartos a 2 camas. Enfermaria de Santa Luzia, (ophtalmologica). Sala de operações, quartos e camara escura. Enfermaria de invalidos. Passagem sobre terraço e ao ar livre, para o 1.º pavimento da 1.ª ala. Enfermaria de S. Joaquim, para medicina, composta de quartos a 2 leitos; e de S. Jeronymo, para medicina. Mais quartos para contribuintes. Linda e vasta capella, decorada por Bernardelli.

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Hospital da Penitencia—É o mais importante dos hospitaes particulares do Rio de Janeiro. Pertence á Veneravel Ordem Terceira da Penitencia, a mais rica da capital da Republica. Occupava, outr'ora, um vastissimo edificio do largo da Carioca, que foi demolido para embellezamento da cidade, e o hospital provisoriamente removido para dois grandes predios da rua do Conde de Baependy, até que fique concluido o grandioso edificio que, nas proximidades, está a construir a mencionada Ordem, a mais antiga do Rio de Janeiro. Sustenta uma escóla para menores, no bairro da Saúde, e soccorre os irmãos nos domicilios.

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Hospital do Carmo—Pertence á Ordem de N. S. do Monte do Carmo, que tambem soccorre com dinheiro, pensões e visitas domiciliarias, os seus irmãos enfermos e invalidos.

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Hospital de S. Francisco de Paula—É mantido pela Irmandade de S. Francisco de Paula, em vasto predio, na rua Duque de Saxe. Tem sala para consultas externas, cemiterio, em Catumby, e um asylo para meninas orfãs.

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Recolhimento de N. S. da Piedade—Mantido pela Irmandade da Candelaria, e fundado em substituição do Recolhimento de Santa Ritta de Cassia, mandado fechar pela municipalidade, que o subvencionava, em consequencia de uma campanha sustentada n'O Paiz, por Francisco Ferreira da Rosa, um dos seus redactores, que descobrira, em minuciosa visita, ser este estabelecimento um antro de immoralidade.

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Asylos da Caridade, do Bom Pastor e de Santo Antonio—Estes tres estabelecimentos philantropicos são mantidos pela Ordem da Immaculada Conceição. O 2.º é para regeneração de mulheres transviadas e o ultimo abriga umas 60 orfãs, e está situado no delicioso arrabalde do Rio Comprido.

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Policlinica Geral do Rio de Janeiro—Funcciona officialmente, esta prestante collectividade, desde 17 de Junho de 1882. Foi fundada por medicos e empregou o seu patrimonio, de trezentos contos de réis, na construcção de um edificio para sua séde, na Avenida Central. É destinada a prestar soccorros medicos a enfermos pobres e possúe laboratorios para varias especialidades clinicas.

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Maternidade das Larangeiras—Funcciona, desde 3 de Março de 1904, em um predio do bairro das Larangeiras, e em 31 de Dezembro de 1907, tinha em tratamento 19 parturientes. É subsidiada pelo governo.

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Stranger's Hospital—Está situado no bello e aristocratico bairro de Botafogo. Foi fundado em 21 de Janeiro de 1892, para realisar a assistencia hospitalar aos estrangeiros domiciliados no Rio de Janeiro. Dirige-o uma associação de beneficencia.

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Instituto de Protecção e Assistencia á Infancia—Foi fundado em 24 de Março de 1889 e funcciona desde 14 de Julho de 1901. Sustenta um Dispensario, na rua do Visconde do Rio Branco, que soccorre, por todas as fórmas, as creanças indigentes. Além de medicos e medicamentos gratuitos, essa caridosa instituição fornece leite esterilisado, calçado e vestuario. Tambem examina amas mercenarias e soccorre as creanças victimas de accidentes na via publica. É subvencionado pela municipalidade e pelo governo federal. Este benemerito Instituto foi fundado pelo dr. Moncorvo Filho, e publica mensalmente os seus Archivos.

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Policlinica de Botafogo—Em 10 de Junho de 1900, começou esta instituição a funccionar na rua Bambina, n.º 45, em Botafogo, na séde da Sociedade Propagadora da Instrucção ás Classes Operarias da Freguezia da Lagôa. São relevantissimos os serviços prestados por esta philantropica e benemerita collectividade á sociedade fluminense, em geral, e muito especialmente ao populoso bairro de Botafogo. Fundou-a um corpo clinico, a cuja frente está a figura sympathica e prestigiosa do dr. Luiz Barbosa, tão eminente facultativo como primoroso cavalheiro e diamantino caracter, que exerce a medicina como verdadeiro sacerdocio da religião da humanidade, e sublima o seu espirito ao exercicio da caridade, a mais divina de todas as virtudes e a unica a immaterialisar a nossa natureza e a irradiar a nossa alma aos esplendôres eternos.

Até 31 de Dezembro de 1907, a Policlinica tinha dado 427:217 consultas, feito 30:716 applicações electricas e 9:049 operações diversas. Recentemente inaugurou esta altruistica instituição um pavilhão de cirurgia, que consta de sala de operações, sala de consultas e curativos cirurgicos e genecologicos, enfermaria, gabinete do interno, rouparia, quarto de banho, pequena sala de recepção dos medicos e gabinete para os serviços complementares de assistencia aos enfermos. No antigo edificio funccionam as secções de clinica medica, pediatria, dermatologia e syphilis, occulistica, de otologia e rhinologia, homópathia e odontologia, com material e mobiliario apropriados, notando-se em todas as installações o maximo cuidado e aceio. Trata-se da fundação de um Archivo Medico, especie de bibliotheca da especialidade.

A Policlinica de Botafogo, além dos soccorros prestados na sua séde, faz numerosas visitas a domicilios e, com material rolante e dos mais aperfeiçoados, acóde aos accidentes da via publica, na area da sua benefica acção.

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Dispensario Central—Funcciona na rua do Acre, n.º 17, e foi fundado pelo gremio protestante Missão Central. Presta, na séde ou nos domicilios, serviços medicos e de odontologia e fornece medicamentos aos seus assignantes, que são admittidos até á idade de 65 annos, pagando a mensalidade de 1$000 réis.

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Asylo da Velhice Desamparada—Tambem conhecido pelo nome de Asylo de S. Luiz. Eleva-se em um comoro da rua Tavares Guerra, desde 1820, anno em que o fundou o Commendador, mais tarde Visconde de Ferreira de Almeida.

É um grandioso edificio de tres pavimentos, no centro de jardins e bosques e com esplendoroso panorama geral. Abriga, alimenta, veste e fornece assistencia medica e hygienica a homens e mulheres idosas, invalidas e indigentes de qualquer nacionalidade.

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Outras Instituições—Além das já mencionadas, outras e numerosas associações beneficentes elevam bem alto, ás sublimidades da civilisação universal, o espirito philantropico dos brasileiros da capital da Republica. Citaremos as seguintes, que avultam d'entre as 185 collectividades beneficentes que existem, actualmente, no Rio de Janeiro:

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Associação dos Empregados no Commercio do Rio de Janeiro—Soccorre os seus associados com medico, medicamentos, dinheiro, e foi a primeira aggremiação que na Capital Federal estabeleceu o serviço de soccorros na via publica, para o que possúe material apropriado. Está installada em um esplendido palacio proprio, na Avenida Central, e organisa uma bibliotheca. Foi fundada em 1880 e possúe um patrimonio de réis 2:340:000$.

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Sociedade Amante da Instrucção—É, ao mesmo tempo, uma associação propagadora do ensino e um centro de assistencia, com patrimonio, do qual mantem um asylo de orfãs, que são alimentadas, vestidas, e educadas até aos 19 annos.

O património é de 576 contos e tem 4:400 socios remidos.

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Associação das Senhoras da Egreja Evangelica Brasileira—Sustenta um posto medico destinado ás suas associadas. Funcciona no Campo de Marte, á rua de S. Leopoldo, n.º 185.

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Associação das Senhoras de Caridade de S. Vicente de Paulo—Fornece roupa, medico, dieta e medicamento ás irmãs necessitadas. Tem onze annos de existencia e bifurca-se por varios bairros da cidade.

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Convem citar ainda a Maçonaria Brasileira, a Federação Spirita, a Veneravel Ordem Terceira de N. S. da Conceição e Boa Morte, a Assistencia Pia dos Pobres de Santo Antonio, a Devoção da Piedade, as irmandades de S. Pedro, da Lapa dos Mercadores, da Lapa do Desterro, a Ordem do Bom Jesus do Calvario, o Dispensario de S. Vicente de Paulo, a Irmandade de Santa Cruz dos Militares, a Société Philantropique Suisse, entre as collectividades civis e religiosas que praticam a caridade, em maior ou menor escála, segundo as suas posses e a amplitude dos seus estatutos.

Batalha de Confetti

Ha dez annos passados, não se podia realisar, no Rio de Janeiro, batalhas de flôres, nem de confetti, nenhuma d'essas elegantes diversões que imprimem o tom e constituem a suprema elegancia das grandes capitaes civilisadas. Faltava local apropriado. Hoje, além do Parque da Republica, ha as magnificas avenidas que, pela beira-mar, prolongam-se ao extremo-sul da praia de Botafogo. Ellas constituem excellentes corsos, amplos, arborisados, limpos e floridos.

Por uma bellissima e deliciosa tarde de Abril de 1908, centenares de vehiculos, alguns enfeitados com requintado gosto, deslisavam em quadrupla fila, pelas duas principaes alamedas que marginam a formosa enseada de Botafogo. Com flôres iam, muitos d'elles guarnecidos, mas apesar das bellas hortensias e das perfumadas rosas que os realçavam, o observador ficava indeciso no que mais admirar, se ellas ou as lindissimas senhoras, flôres tambem, que disputavam-lhes a primazia na propria belleza e no encanto e enlevo dos nossos olhos.

Nos passeios lateraes o transito era difficil, quasi impossivel, pela quantidade das gentilissimas passeiantes, que os cavalheiros procuravam não magoar.

A formosura dos rostos dizia bem com o primôr e a elegancia do vestuario das senhoras, como as garridas côres dos trajes realçavam a variedade dos typos, escuros e claros, das simples filhas do povo. Fraternisava-se, e se não com o enthusiasmo das festas carnavalescas, as mais populares da capital fluminense, ao menos em um ambiente mais calmo e perfumado, no apogeu de uma festa eminentemente civilisadora e digna dos centros mais luxuosos do globo. E que supremo gôso espiritual, o d'aquella extraordinaria animação humana, sob a celestial abobada, infinitamente azulada, e em pleno esplendôr d'essa uberrima e pujante natureza, que cingia aquelle grandioso campo de batalha de uma radiante aureola de belleza e de primôres! O mesmo sol, tão ardente, horas antes, affastava-se gentil e deslumbrantemente, illuminando, com suavidade e brilho, a arena e os batalhadores, a superficie das aguas, as encostas e os cimos das montanhas circumvizinhas, e incendiando de formosura e de desejos os olhares das moças cariocas, em um deslumbramento de apotheose.

Mulheres bonitas e olhares de fogo podem vêr-se em todos os povos, porém a brasileira seduz pela dupla e ineffavel expressão de candura e de meiguice com que nos acaricia e anima, como se Deus e a natureza por ella irradiassem o gôso inconcebivel da suprema belleza e do infinito amôr.

Instrucção Publica

Ao municipio fluminense, como a todos os da União Brasileira, compete subvencionar e desenvolver a diffusão da instrucção, pelas classes populares.

Na cidade do Rio de Janeiro, a instrucção primaria é dada em tres cathegorias de escólas officiaes do municipio—as primarias, as escólas modêlo e as escólas elementares.

Pelos onze districtos escolares urbanos e pelos quatro suburbanos estão distribuidas 193 escólas primarias, regidas por professores cathedraticos, diplomados pela Escóla Normal do Districto Federal.

N'essas escólas estavam, em 31 de Dezembro de 1907, matriculados 25:891 alumnos. Ellas são para os dois sexos, umas em separado e outras mistas. O programma d'essas escólas, dividido em curso elementar, médio e complementar, comprehende as seguintes materias:—Leitura, escripta e theoria da linguagem; arithmetica pratica até á regra de tres; elementos de geometria; systema metrico; elementos de geographia e historia, principalmente do Brasil; lição de coisas e noções concretas de sciencias physicas e de historia natural; instrucção moral e civica; desenho; gymnastica; trabalhos manuaes e trabalhos de agulha.

A segunda cathegoria, as escólas modêlo, são apenas cinco, onde os candidatos ao professorado fazem a pratica escolar, sob a direcção dos cathedraticos.

Quanto ás escólas elementares, são casas particulares de ensino da zona rural, ou suburbana, situadas a mais de um kilometro de distancia das escólas publicas-primarias, subvencionadas pela municipalidade, desde que admittam um numero estipulado de alumnos gratuitos e subordinem-se ao programma official de ensino. Existem cêrca de oitenta escólas particulares, com a matricula, approximada, de 5:500 alumnos dos dois sexos. Os professores d'estes estabelecimentos de ensino são diplomados, como os das escólas primarias.

A instrucção profissional, além da Escóla Normal, é dada nos Institutos Profissionaes, um para cada sexo, dos quaes já tratamos no capitulo—Estabelecimentos Scientificos.

Os Institutos Profissionaes, a Escóla Normal, o Pedagogium e as escólas-modêlo, funccionam em edificios proprios, municipaes. Tambem já alguns predios onde é ministrada a instrucção primaria-official, pertencem á municipalidade. Em 1907, o total de professores officiaes, isto é, diplomados pelo municipio, era de 952, para todas as escólas. Estas são divididas em 15 districtos escolares, comprehendendo todas as escólas primarias e elementares, sob a fiscalisação de outros tantos inspectores, subordinados á Directoria Geral de Instrucção Publica.

As cinco escólas-modêlo e os estabelecimentos de instrucção normal e profissional, são directamente fiscalisados pelo Director Geral de Instrucção. Para a solução de assumptos difficeis, nas questões technicas e pedagogicas, reune-se o Conselho Superior de Instrucção Publica, composto de trinta membros, pertencentes ao corpo docente municipal e presididos pelo Director Geral.

O Governo Federal sustenta, na capital da Republica, os seguintes estabelecimentos de instrucção secundaria, technica e superior:

Escóla Nacional de Bellas Artes.

Faculdade de Medicina, que habilita medicos, cirurgiões, pharmaceuticos, dentistas e parteiras.

Escóla Polytechnica.

Gymnasio Nacional (internato e externato).

Instituto Nacional de Musica.

Escóla Militar.

Escóla Naval.

Instituto Benjamim Constant (instrucção aos cegos).

Instituto dos Surdos-Mudos.

Escóla Preparatoria e de Tactica.

Ha duas escólas de sciencias juridicas, que conferem o diploma de bacharel nas mesmas sciencias. Nos capitulos—Estabelecimentos Scientificos e Museus, já descrevemos quasi todas as instituições de ensino acima citadas.

Pelo recenseamento official, realisado em 20 de Setembro de 1906, dos 811:443 habitantes do Districto Federal, 361:501 eram analphabetos, dos quaes 185:873 homens e 175:628 mulheres.

Os melhores edificios escolares que existem no Rio de Janeiro, foram construidos em 1904, a expensas da Prefeitura, e são a Escóla Tiradentes, na rua do Visconde do Rio Branco e no local onde foi suppliciado o proto-martyr da independencia do Brasil; a Escóla Prudente de Moraes, no delicioso arrabalde chamado Fabrica das Chitas; e a Escóla Rodrigues Alves, ao lado do palacio da Presidencia da Republica, na rua do Cattete.

O orçamento geral dos serviços municipaes de instrucção publica, que em 1904 foi de réis 4:155:353$000, é, actualmente, superior a cinco mil contos de réis.

Calculando-se que, ao Governo Federal, custe, pelo menos, somma egual a manutenção dos estabelecimentos de instrucção, já referidos, temos a quantia, approximada, de dez mil contos, despendida, annualmente, com a instrucção publica, no Rio de Janeiro.

Cada professor das escólas-modêlo, vence réis 6:000$000, por anno; um professor cathedratico, 4:000$000; um adjunto effectivo, 3:000$000 réis; um dito estagiario, 1:000$000; cada professor elementar, 4:800$000 réis; um adjunto 2:400$000 réis. Dos 1.ᵒˢ ha 6, no quadro, dos 2.ᵒˢ 193, dos 3.ᵒˢ 300, dos 4.ᵒˢ, 200; 7 professores elementares e 72 substitutos. Ao todo 778 educadores de instrucção primaria, municipal.

Ao quadro da instrucção normal-pedagogica, pertencem 25 professores de sciencias, com o vencimento annual de 5:400$000 réis; 12 professores de artes a 4:000$000 réis annuaes; 5 professores contractados, a 1:800$000 réis; e 2 preparadores e 1 conservador, a 3:600$000 réis.

Á instrucção profissional pertencem 7 professores de sciencias, a 5:000$000 réis; 10 ditos de artes, a 4:000$000 réis; 11 adjuntos e auxiliares de ensino, a 3:000$000; 16 mestres de officinas, a 3:000$000, e 8 contra-mestres, a réis 1:200$000, annuaes. Os professores primarios que não habitam os predios das respectivas escólas, percebem uma gratificação supplementar de 1:800$000 réis, annualmente, a titulo de auxilio de aluguel de casa, e todos os educadores diplomados, de todas as cathegorias, teem direito á gratificação addicional, correspondente aos periodos de tempo de bons serviços.

O seguinte quadro demonstra o numero de escólas municipaes do Districto Federal, das tres cathegorias, bem como as dos ensinos normal e profissional, dos dois sexos, assim como a respectiva frequencia de alumnos, segundo o ultimo recenseamento official:

Escólas elementares 79 Numero de alumnos matriculados 5:136 Escólas primarias 193 Numero de alumnos matriculados 24:151 Escólas-modêlo 5 Numero de alumnos matriculados 2:299

Escóla Normal.

Numero de alumnas matriculadas 431 " " exames effectuados 1:436 " " alumnas diplomadas 50

Pedagogium.

Numero de alumnos matriculados 194 " " exames effectuados 171

Instituto Profissional Masculino.

Numero de alumnos matriculados 300 " " officinas 9

Instituto Profissional Feminino.

Numero de alumnas matriculadas 120 " " officinas 3

Total de individuos frequentando as escólas municipaes 32:631

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Abrangendo os tres gráus de instrucção primaria, secundaria e superior ha, no Districto Federal, constituido pela cidade do Rio de Janeiro, os arrabaldes e os suburbios, numerosos estabelecimentos particulares de ensino. Infelizmente, não existe estatistica official das escólas primarias, particulares, calculando-se a sua frequencia em 12:000 alumnos dos dois sexos.

Computa-se em 6:000 o numero de alumnos que frequentam os numerosos collegios de instrucção secundaria, espalhados pela capital e seus contornos.

Corcovado

Ascende-se a esta grandiosa e bella montanha, distante dez kilometros do Caes Pharoux e alta de 711 metros, por uma estrada de ferro em cremalheira, inaugurada em 9 de Outubro de 1884, na extensão de 3:790 metros. Delineou-a, requereu a sua concessão e presidiu á construcção o dr. Francisco Pereira Passos, auxiliado pelo seu collega, o engenheiro João Francisco Soares. Foi um arrojo esta magnifica obra de engenharia, e o começo da celebridade do homem eminente que, mais tarde, deveria aureolar a sua gloriosa carreira publica com a brilhantissima administração de Prefeito do Districto Federal, e de iniciador e executor dos assombrosos melhoramentos que transformaram, por completo, a cidade do Rio de Janeiro.

A estação inicial da Estrada de Ferro do Corcovado é nas Larangeiras, rua do Senador Octaviano, n.º 51. O carro, impellido por minuscula machina, dirige-se á estação das Paineiras, transpondo varios viaductos, o mais importante dos quaes é o do Silvestre. São tantos e tão maravilhosos os encantos visuaes e espirituaes, quantas as sinuosidades e curvas da linha, que nos patenteiam, infelizmente por curtissimo espaço de tempo, os primôres de um panorama que não tem rival em parte alguma do globo terraqueo.

Todos os arrabaldes e suburbios do Rio de Janeiro são pujantissimos de vegetação e de belleza; porém a Tijuca e o Corcovado constituem os vértices, a magnificencia e o deslumbramento d'essa apotheose da natureza, que sublima a capital fluminense á cúspide maxima de primeira entre as metropoles do mundo. Visitar uma e outra, embrenhar-se nas suas florestas e concentrar o espirito nos seus primôres visuaes, é conversar com Deus, é enlevar-se a creatura humana a páramos celestes e, por instantes, despir-se do involucro material para immortalisar-se e ascender aos esplendores divinos e eternos.

As Paineiras são o ponto das excursões pela floresta. D'ahi partem estradas e atalhos que ora seguem o velho e solido aqueducto da Carioca, ora embrenham-se na matta, subdividindo-se e ramificando-se em estreitissimos caminhos, apenas transitaveis por peões. Em tres horas de bom caminhar alcança-se a Tijuca, passando-se a Ponte do Inferno, suspensa sobre um abysmo, entre rochedos.

As Paineiras estão a 465 metros acima do nivel do mar.

O trajecto, que até ahi tinha sido feito em 28 minutos de comboio, prolonga-se por mais 12 minutos até ao alto do Corcovado, em um declive assustador, por sobre insondaveis e vestidos abysmos, e antevendo o passageiro, por duas vezes, trechos do mar, da cidade e de montanhas distantes. Do ponto final da linha ferrea ao Chapéu de Sol, pavilhão de ferro e vidro construido no cimo da montanha, gasta-se 5 minutos a subir por alva e novissima escadaria de granito.

Uma vez attingido o cume, que além do pavilhão contem ainda duas varandas de pedra, é deixar que a alma extasie-se na sublimidade do Bello, e concentrar o pensamento nos mysterios da natureza e de Deus. A immensidade oceanica, que a perder de vista acaricia e suavisa a terra, beijando-a docemente; cadeias de montanhas e montes gigantescos que áquem, além e nos extremos do horisonte, agasalham as nuvens e roubam-nos pequenos trechos do panorama geral; a cidade, os seus extensissimos arrabaldes e suburbios a espreguiçarem-se por entre a opulencia vegetativa; as ilhas que enfeitam a immensa bahia e defendem a entrada do porto; a formosura incomparavel do céo, da terra e das aguas; esse conjuncto ineffavel, esplendoroso e magnifico, constitúe o mais bello e grandioso hymno da excelsa natureza ao seu Creador, a apotheose esthetica e deslumbrantissima do nosso planeta, e a essencia de tudo quanto o genio assombrosamente inconcebivel de Deus creou de sublime e primoroso em todas as maravilhas da amplidão etherea.

Governo Municipal

No periodo colonial, a cidade do Rio de Janeiro foi administrada pelo Senado da Camara, instituição importada da metropole e que findou em 1830, para dar logar á Camara Municipal. Em 7 de Dezembro de 1889, a Republica substituiu-a pelo Conselho da Intendencia Municipal, que por lei de 20 de Setembro de 1892, foi transformado em Conselho Deliberativo. Esta collectividade, que póde ser convocada, extraordinariamente, pela Prefeitura e pelo Governo, compõem-se de dez intendentes, dos quaes o Presidente é eleito pelos seus collegas. Reune-se, em sessões ordinarias, duas vezes por anno, de 2 de Abril a 31 de Maio e de 1 de Setembro a 31 de Outubro, em um edificio da praça Ferreira Vianna, de construcção municipal e que fôra destinado para escóla publica de instrucção primaria. Outr'ora funccionava o Conselho no edificio da Prefeitura, na praça da Acclamação, hoje da Republica, separando-se em 1896.

O Districto Federal é directamente governado pelo Prefeito Municipal, que exerce o poder executivo, e é nomeado por decreto do Presidente da Republica.

O Conselho Deliberativo vota as leis municipaes, o Prefeito sancciona-as e estão encarregados da sua execução vinte e cinco Districtos Munipaes, cada um composto de um agente, um escrivão e variavel numero de guardas. Os funccionarios municipaes, de todas as cathegorias, são cêrca de 3:200, que vencem, annualmente, quantia approximada a 10.500:000$000 réis.

No seu governo e administração o Prefeito tem as seguintes repartições auxiliares:

Directoria de Hygiene e Assistencia Publica.—Compete-lhe a organisação de serviços de assistencia medica; a fiscalisação do abastecimento de viveres; a superintendencia dos hospitaes municipaes; a regulamentação dos cemiterios; a fiscalisação dos serviços dos asylos municipaes; o saneamento geral da cidade; a adopção e execução das providencias de policia sanitaria e a creação de condições mesologicas favoraveis ao desenvolvimento normal da população.

Directoria de Instrucção.—Tem a seu cargo o ensino publico municipal; a organisação e regulamentação dos estabelecimentos officiaes de ensino primario e profissional; o provimento de professores e de material para as escólas e o desenvolvimento dos meios de instrucção popular.

Directoria de Obras e Viação.—Trata do embellezamento da cidade; da superintendencia em todas as obras municipaes; da construcção, reconstrucção, accrescimos e reparos de predios por sua conta e de particulares, em edificações de qualquer especie, provisorias e definitivas. Trata tambem da viação urbana, em geral, e da carta cadastral.

Directoria do Patrimonio.—Compete-lhe o arrendamento, aluguel, fôro, compra e venda dos bens municipaes, moveis e immoveis; as doações, legados, heranças e fidei-commissos; o tombamento e cadastro do territorio e bens do Districto Federal; o processo de aforamento de terrenos devolutos; o de acquisição de terrenos baldios: o processo para desapropriação por utilidade municipal e a avaliação e medição de todos os bens municipaes.

Directoria da Fazenda.—Tem a seu cargo a contabilidade geral da receita e despeza do Municipio; o pagamento das despezas legalmente auctorisadas pelo Prefeito; a direcção, fiscalisação e arrecadação dos impostos e rendas municipaes e, finalmente, os serviços da fazenda municipal, em todas as suas ramificações.

Directoria de Policia Administrativa, Archivo e Estatistica.—Superintende o serviço de policia municipal administrativa, exercida pelos agentes da Prefeitura, pelos fiscaes de inflammaveis e pelos guardas municipaes; organisa a estatistica geral do Districto Federal, investigando todos os factos sociaes, politicos e administrativos de caracter local ou municipal; informa as questões relativas á legislação e policia, assim como as de natureza contencioso-administrativa; conserva, devidamente classificados, todos os documentos relativos á historia e á administração do Municipio e trata de todos os serviços da Prefeitura, que não estejam distribuidos ás outras repartições.

Superintendencia da Limpeza Publica e Particular—Compete-lhe, especialmente, o asseio das ruas e praças publicas, a limpeza e conservação das vallas e dos rios; a collecta e remoção do lixo das habitações particulares, dos quarteis e das repartições publicas.

Inspectoria de Mattas, Jardins, Arborisação, Caça e Pesca—Trata da superintendencia dos serviços que constam da sua nomenclatura.

A receita geral da municipalidade fluminense foi, pelo Conselho Deliberativo, orçada em réis 26.427:215$000, para 1909, com uma despeza equivalente, tendo sido a receita, cinco annos antes, em 1904, de 22.252:645$735 réis, e a despeza de 22.852:874$313 réis.

Copacabana, Leme e Ipanema

Do centro da cidade e pela praia de Botafogo o tramway electrico entra na rua da Passagem, e por ella dirige-se ao tunnel do Leme, que fura um dos contrafortes da serra do Corcovado, ou da Tijuca. Transposta a galeria subterranea, encontra-se duas linhas; a da direita, que segue á praia de Ipanema, e a da frente, que termina na extremidade occidental da praia do Leme. Esta linha é a mais curta, e em poucos minutos attinge-se o obstaculo natural formado pela mesma serra que o tunnel vence e por um gigantesco blóco de pedra, o Pão de Assucar, a desafiar a furia das vagas que, impotentes, desfazem-se, espumantes, de encontro á sua formidavel estructura. Ahi, n'esse encantador final de praia, ha um botequim-restaurante, e organisam-se algumas diversões, no intuito de attraír a concorrencia dos cariocas a sitio tão pittoresco.

Todo o conjuncto, que prolonga-se do extremo da praia do Leme, ao da de Ipanema, visinha da Gavea, tem a denominação generica de Copacabana, cujo ponto principal, além dos já citados, é a Egrejinha, logar elevado e reintrante que divide a praia do Leme da de Ipanema. Um santuario, branco e anti-artistico, occupa o vértice d'aquella elevação, proporcionadora de um dos mais deliciosos encantos que ao nosso espirito possamos offerecer na ephemera passagem pelos esplendores terrestres. O verde glauco das ondas, quebrando-se a nossos pés, em furia tremenda, e projectando-se, em nivea espuma, aos atomos ethereos; a enseada immensa da Copacabana, bordada de casaria, que emerge de tufos de verdura; a verdejante cadeia de montanhas que fecha o horizonte; á nossa direita, a immensidade oceanica, á esquerda as fortalezas que defendem a barra; em face o pharol da Ilha Rasa e os cumes de serras distantes, aureolados por um poente maravilhoso; eis o panorama que sublima a alma a regiões sonhadas pelo que existe, em nós, de immortal e de divino.

O ministerio da guerra tomou conta da Egrejinha, que é tambem um excellente ponto estrategico, outr'ora aproveitado, e trata de fortifical-o.

Ipanema é uma praia tão vasta e bella, dotada de taes condições topographicas e climatericas, que é um crime não preparal-a a ser frequentada e habitada pelos fluminenses, que costumam ir muito mais longe procurar o que possúem ao pé de casa, como nenhum outro povo do mundo.

Aqui não é o oceano a debater-se contra formidaveis gigantes de pedra; as ondas espraiam-se suave e encantadoramente, estendendo niveos e formosos mantos, que as projecções solares bordam de myriades de scintillações deslumbradoras. Já existem muitas habitações em quasi toda a extensão da Copacabana, algumas elegantes; porém o sólo, extremamente arenoso, não está convenientemente preparado; não ha conforto nem distracções.

Só a natureza, nos esplendôres do céo e da terra, gorgeia alli, perennemente, um hymno de triumpho, de belleza e de amôr ao Supremo Creador das celestes espheras.

Salubridade

A Bombaim sul-americana, como era classificada, na Europa, a cidade do Rio de Janeiro, desappareceu sob a alavanca demolidora do dr. Pereira Passos, ex-Prefeito Municipal, a competencia scientifica do dr. Oswaldo Cruz, Director Geral de Hygiene, e a collaboração de muitos elementos officiaes e particulares, que congregaram-se para dar batalha de exterminio á febre amarella e a outras molestias endemicas e epidemicas que afugentavam os immigrantes e os forasteiros, da perola das cidades mundiaes.

Só a febre amarella dizimára, á sua conta, em 1896, 2:929 habitantes da Capital Federal; dez annos depois, em 1906, os seus estragos reduziram-se a 42 vidas!

Hoje, póde affirmar-se que essa terrivel epidemia passou á historia sanitaria do Rio de Janeiro. A transformação da cidade pela abertura de grandes avenidas e pelo alargamento das velhas ruas coloniaes e, principalmente, as providencias energicas adoptadas pelo governo federal e pela municipalidade, isolando os enfermos, destruindo, pelo fogo, as habitações empestadas e dando caça implacavel ás larvas e aos mosquitos conductores e transmissores dos microbios febris, libertaram a formosa metropole brasileira da fama de necroterio universal e transformaram-na em uma das mais salubres capitaes do nosso globo.

Já em 1906 era a seguinte a estatistica comparativa da mortalidade nas principaes capitaes da Europa, da Asia e da America:

Athenas 30,9 S. Petersburgo 30,5 Madrid 28,0 Lisbôa 23,1 Roma 20,8 Rio de Janeiro 20,7 Vienna d'Austria 19,3 Tokio 18,9 New-Iork 18,3 Paris 17,6 Berlim 17,1 Londres 15,6

Actualmente, o Rio de Janeiro é, pelo menos, tão salubre como New-Iork e Paris.

Este assombroso resultado é uma das glorias mais refulgentes e impereciveis da administração republicana do Brasil.

A ultima estatistica official indica a mortalidade, no Districto Federal, de 16 por 1:000 habitantes, annualmente.

Para manter esta proporção consoladôra e acima de toda a espectativa, muito contribúe o abastecimento de aguas á capital da Republica, hoje consideravelmente augmentado e aperfeiçoado.

A distribuição do precioso liquido está a cargo da Inspectoria Geral de Obras Publicas, subordinada ao ministerio da Industria e Viação, e faz-se por 26 reservatorios, caixas, açudes e reprezas, que occupam situações elevadas dos seis districtos em que, para o effeito da distribuição, está dividido o Districto Federal. O primeiro reservatorio construido foi o do Pedregulho, em 1876, celebre pelas suas fendas, que custaram milhares de contos ao Thesouro. Só no anno de 1905 gastou o governo da União a somma de 20:000 contos para augmento do abastecimento de agua á cidade do Rio de Janeiro, arrabaldes e suburbios.

Actualmente é o Districto Federal abastecido, diariamente, da seguinte fórma:

—Rio Maracanã e affluentes 17 milhões de litros —Rio Macaco 6 " " " —Rio Cabeça 1,500 mil litros —Rios Carioca e Paineiras 3 milhões de litros —Aguas do Silvestre e morro do Inglez 300 mil litros —Rio Trapicheiro 2,500 mil litros —Rio Tres Rios 4 milhões de litros —Rios Mendanha, Piraquara e Covanca 3,700 mil litros —Serras Tinguá e Commercio 122 milhões de litros Augmento de 1905 50 milhões de litros — 210:000:000 " " "

Eis o quadro da mortalidade geral, no Rio de Janeiro, em 1906:

Tuberculose pulmonar 2:647 Outras tuberculoses 135 Molestias do apparelho respiratorio 1:327 Molestias do apparelho digestivo 2:398 Molestias do apparelho circulatorio 2:242 Molestias do systema nervoso 1:331 Mortes violentas (excepto suicidios) 507 Molestias do apparelho urinario 473 Grippe 453 Molestias de primeira edade e vicios de conformação 437 Cancros e outros tumores malignos 291 Debilidade senil 219 Paludismo agudo 149 Outras molestias geraes 145 Injecção purulenta septicemia (excepto a puerperal) 140 Paludismo chronico 118 Peste 111 Molestias ignoradas ou mal definidas 98 Syphilis 71 Suicidios 71 Beriberi 69 Febre typhoide 65 Dysenteria 60 Molestias da pelle e do tecido cellular 56 Outros accidentes purperaes 55 Febre amarella 42 Septicemia puerperal 42 Diphteria e crup 41 Coqueluche 39 Erysipela 36 Lepra 22 Sarampo 18 Diversos tumores 14 Molestias dos orgãos genitaes 10 Molestias dos orgãos da locomoção 9 Variola 9 Hydrophobia 4 Outras molestias epidemicas 1 — Total 13:957

A mortalidade infantil é na proporção, média, de 150 por mil adultos.

Viação Urbana

A Estrada de Ferro Central do Brasil, a mais extensa e poderosa da União, ao partir da sua estação central, na praça da Republica, serve as zonas urbana e suburbana do Rio de Janeiro, pertencentes ao Districto Federal, até á estação de D. Clara.

N'esse perimetro, foi o seguinte o movimento geral, no 1.º trimestre de 1908:

1.ª classe:

1:487:884 viajantes Réis 379:838:860

2.ª classe:

3:523:405 viajantes Réis 583:641:700

Total—5:011:359 viajantes, cujas — passagens custaram 953:480:560

São 19 as estações d'esta Estrada, situadas no territorio do Districto Federal, 8 das quaes são tambem servidas por bondes, ou tramways electricos e a tracção animal.

A Estrada de Ferro Central do Brasil, que já tem em trafego 1:360:000 kilometros, liga a capital da Republica aos Estados do Rio de Janeiro, S. Paulo e Minas Geraes, e será prolongada aos Estados de Goyaz e da Bahia, a este pelo fertilissimo valle do grande rio S. Francisco.

Da estação de S. Francisco Xavier, suburbio fluminense, começa o trafego da Leopoldina Railway Company, que atravessa a zona federal de Irajá e dirige-se á cidade de Petropolis.

Da Ponta do Cajú, arrabalde do Rio de Janeiro, parte o material da Estrada de Ferro do Rio do Ouro, especialmente construida para o serviço de abastecimento de agua á colossal metropole, mas tambem transporta passageiros e carga, no percurso total de 60 kilometros e 247 metros, com 24 estações, até ao Rio S. Pedro, na serra do Tinguá.

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A outr'ora Botanical Garden Rail Road Company, e desde 1882, Companhia Ferro Carril do Jardim Botanico, é a mais poderosa empreza de viação urbana da capital brasileira. O seu serviço publico teve inicio em Outubro de 1868, cinco annos antes de ser inaugurada, em Paris, a primeira linha de identico systema de viação, da Praça da Concordia a Sévres. A tracção da Jardim Botanico, foi mudada de animal para electrica em 1891. A sua estação inicial é na Avenida Central, e a principal é no extremo do Cattete; praça Duque de Caxias. Aqui bifurca-se ás Larangeiras e por Botafogo até á Gávea, seu ponto terminal, a 11:880 metros da Avenida Central. A bitola d'esta linha é larga de 1,ᵐ44. A extensão total das linhas d'esta Companhia, é de 79:000 metros.

A velocidade média é de 150 metros por minuto. É tambem esta empreza que serve os habitantes e visitantes das praias do Leme, Copacabana e Ipanema.

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A Companhia Ferro Carril da Villa Izabel, serve os arrabaldes do Andarahy, Villa Izabel e Engenho Novo, communicando-os, por tracção electrica, com o centro commercial da cidade. A bitola é de 1,ᵐ44, partindo os seus carros da praça Tiradentes, para um percurso total de 49:000 metros. A mais extensa das suas linhas, a do Engenho Novo, attinge 11:650 metros de comprimento.

Esta empreza tambem serve os povoados suburbanos de Jacaré, Bocca do Matto, e Cachamby, ligando-os com as estações de Engenho Novo, Meyer e Todos os Santos, da Estrada de Ferro Central, em um percurso total de 10:000 metros e com a bitola de 1 metro, a tracção animal.

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A Companhia Ferro Carril de S. Christovão, outr'ora Rail Street Company, mantem ainda a tracção animal e é a que possúe maior numero de linhas, que são as seguintes:

Do Largo de S. Francisco á Tijuca 10:630ᵐˢ. " " " " ao Jockey Club 10:134 " " " " á Ponta do Cajú 9:036 " " " " " Praça Marechal Deodoro 7:194 " Do Largo de ao Rio Comprido 5:845 " " " de a Itapagipe 5:469 " " " de " Itapirú 4:964 " " " de " Estacio de Sá 4:203 " " " de " Catumby 4:000 " — Total 61:435ᵐˢ.

As linhas do Uruguay, S. Januario, Fabrica das Chitas, Santa Alexandrina, Bispo, S. Francisco Xavier e Alegria, são intermediarias das anteriores.

A bitola é de 1,ᵐ35. A média do transporte annual é de 20:000:000 de passageiros, em 850:000 viagens.

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A mais carioca, todavia, das emprezas de viação urbana do Rio de Janeiro, a que não transpõem os limites da cidade, é a Companhia Carris Urbanos, de tracção animal e bitola estreita, que deslisa o seu material por 15 linhas differentes.

Quatro partem do Boulevard Carceler, ou rua Primeiro de Março, em direcção ás praças da Carioca, Tiradentes e da Republica, terminando o seu trafego na praça Onze de Junho e nos extremos das ruas do Visconde de Sapucahy, Sant'Anna, Riachuelo e largo da Lapa.

Seis linhas teem o seu inicio na Praça Quinze de Novembro, junto da estação das barcas de Nictheroy, e seguem até á Saúde, Gambôa, Estrada de Ferro e Canal do Mangue.

Cinco linhas cruzam da Estrada de Ferro ao largo de S. Francisco de Paula, da Gambôa ao Arsenal de Marinha e do Largo da Lapa ao de S. Francisco. As linhas, estendidas, occupariam 70 kilometros, com a bitola de 0,ᵐ80. Regula transportar, annualmente, 34 milhões de passageiros.

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A Companhia Ferro Carril Carioca, a tracção electrica, tem a sua estação central no largo da Carioca, que communica com o morro de Santa Thereza, Paula Mattos e Silvestre. É a mais pittoresca das linhas fluminenses, cuja belleza foi descripta no capitulo—Da Carioca ao Somaré.

E mais surprehendente de formosura natural será ainda quando estivér concluido o prolongamento ao Alto da Bôa Vista, na Tijuca. O percurso actual é de cêrca de uma hora de viagem. Era 1904 os carros d'esta empreza transportaram 1:134:787 passageiros, em 76:860 viagens.

Da Estrada de Ferro do Corcovado já nos occupamos no capitulo—Corcovado.

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Além das já citadas, partem da Capital Federal as seguintes vias de communicação para o exterior:

—Barcas da Prainha a Mauá, isto é, do Rio de Janeiro a Petropolis.

—Barcas da Prainha a Sant'Anna de Maruhy, ou entre o Rio e Friburgo.

—Barcas da Prainha á Piedade, ou Therezopolis.

—Barcas da Companhia Cantareira e Viação Fluminense, serviço permanente e rapido entre a capital e a cidade fronteira de Nictheroy.

Ha uma dezena de companhias nacionaes e estrangeiras, de navegação, que communicam o Rio de Janeiro com os Estados maritimos da União e, directa e indirectamente, com todo o nosso planeta.

Imprensa

A primeira das potencias moraes que orientam as sociedades modernas, tem um dos seus principaes nucleos de expansão e influencia na grandiosa metropole brasileira. Se muitos e eminentissimos jornalistas que, no Rio de Janeiro, sublimaram a divina instituição da imprensa aos páramos da immortalidade, já desappareceram, materialmente, na frialdade dos sepulchros, a sua obra ficou e será uma das mais brilhantes fulgurações da gloria do Brasil.

Outros gigantes da penna e do pensamento os substituiram, e os rutilantes nomes de Ferreira de Araujo, Joaquim Serra, Machado de Assis, Arthur de Azevedo, Saldanha Marinho, Evaristo da Veiga, Ferreira de Menezes, José do Patrocinio e os de tantos outros sacerdotes da imprensa, reflectem-se em Ruy Barbosa, Quintino Bocayuva, Coelho Netto, Olavo Bilac, Ubaldino do Amaral, Nuno de Andrade, Sylvio Romero, Ferreira da Rosa, Edmundo Bettencourt, Eduardo Salamonde, Alcindo Guanabara, José Verissimo, Virgilio Varzea, Paulo Barreto e em outros muitos, para que sejam mantidas as gloriosas tradições do jornalismo fluminense.

O Jornal do Commercio, decano da imprensa fluminense; a Gazeta de Noticias; O Paiz; o Jornal do Brasil; a Noticia; A Imprensa; A Tribuna; o Correio da Manhã; o Diario do Commercio; O Seculo; O Correio da Noite e numerosos outros orgãos diarios, matinaes e vespertinos, e periodicos da opinião carioca, abrilhantam a intensa vida social da maravilhosa capital do Brasil e collaboram efficaz e incessantemente no movimento ascencional da nacionalidade brasileira para a meta dos seus gloriosos destinos.

O jornal é indispensavel ao fluminense, como parte integrante da sua propria natureza; elle o desdobra nas ruas, nos bondes, nos cafés, nas residencias e até durante as refeições; o que explica o extraordinario desenvolvimento de muitas emprezas jornalisticas do Rio de Janeiro que, além dos melhoramentos materiaes introduzidos nas suas officinas e patenteados nos seus periodicos, levantam soberbos palacios, para a propria séde, na Avenida Central e em outras das novas e grandiosas arterias da soberba metropole. D'entre elles destaca-se o do Jornal do Commercio, em via de conclusão, na Avenida Central, que brevemente substituirá o velho casarão onde, ha mais de meio seculo, está installado o primeiro jornal da America do Sul.

Dos semanarios illustrados, destacam-se o Fon-Fon, A Careta, A Semana Illustrada, O Degas, O Tico-Tico, para creanças, e O Malho, que é o de maior circulação.

A Leitura para Todos é uma revista mensal, propriedade da empreza d'A Tribuna, assim como o semanario Tico-Tico.

Dos orgãos vespertinos o mais lido é A Noticia, excellentemente redigido, como quasi todos os jornaes brasileiros. Os mais rendosos são o Jornal do Commercio, que tem feito fortunas, e o Jornal do Brasil.

Quintino Bocayuva, o principe dos jornalistas brasileiros, e talvez sul-americanos, está, infelizmente, arredado das pugnas da imprensa; mas o seu nome fulgirá, ainda por muitissimo tempo, como estrella de primeira grandeza.

Dos mortos, José do Patrocinio e Ferreira de Araujo eram organisações jornalisticas completas, e que fariam a gloria da imprensa dos mais adeantados paizes do globo.

Ha a citar ainda, O Diario Official, O Brasil Medico, Revista Medica, Revista de Engenharia, Kosmos, Os Annaes, A Rua do Ouvidor e Rio Nú. Diariamente apparecem e desapparecem publicações de varia indole.

Commercio e Industria

Ao findar o seculo XVIII, em 1799, a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, com 43:376 habitantes, possuia 97 estabelecimentos commerciaes, em todos os generos. Actualmente, com cêrca de 900:000 moradores, a capital do Brasil encerra um numero approximado de 22:000 casas de negocio, incluindo os arrabaldes e suburbios. Sóbe a 7:000 o numero de vendedores ambulantes de todas as especies de commercio. Os estabelecimentos commerciaes pagam, annualmente, á municipalidade, cêrca de 3:000 contos de alvará, ou licença, e os vendedores ambulantes, 500 contos.

Quanto a fabricas, funccionam cêrca de 250, de todas as industrias, a maior parte na zona suburbana. As mais numerosas são as de calçado, aguas gazozas, flôres, doces, gravatas, chapeus e de colletes para senhora.

Os estabelecimentos commerciaes mais numerosos, são os armazens de generos alimenticios, seguindo-se os açougues, as padarias, os hoteis e hospedarias, os botequins e bilhares, as casas de pasto, os barbeiros, as alfaiatarias, as pharmacias, os armarinhos, as lojas de calçado e as charutarias.

Em menor proporção figuram os armazens de fazenda e artigos de moda, as chapelarias, as drogarias, as typographias, as livrarias, os estabelecimentos de pianos, as luvarias, os joalheiros, as lithographias, as photographias e as lojas de chapéus para senhora.

O maior numero de officinas é de carpinteiro e marceneiro, vindo depois as colchoarias, serrarias, as officinas de encadernação, os marmoristas e os estaleiros, que eram 14 em 1906.

A Junta Commercial da Capital Federal, regulamentada por decreto de 1890, composta de sete deputados, commerciantes, de um secretario e de tres supplentes, estes tambem membros do commercio, tem as seguintes attribuições:—Matricular os commerciantes e sociedades commerciaes; os trapicheiros e administradores de armazens de deposito, assim como todas as pessôas idoneas que pretenderem estabelecer emprezas commerciaes.

—Nomear correctores de mercadorias e de navios; leiloeiros, interpretes e avaliadores commerciaes.

—Rubricar os livros dos commerciantes e sociedades de commercio, das companhias ou sociedades anonymas e dos trapicheiros.

—Admittir á assignatura do termo de fiel depositario o pretendente á concessão de entreposto particular.

—Registar as nomeações de guarda-livros, caixeiros e outros quaesquer propostos de casas commerciaes; as marcas de fabrica e de commercio, nacionaes e estrangeiras; as firmas e razões commerciaes e quaesquer documentos que, por lei, teem de constar de registro publico do Commercio.

—Archivar um exemplar dos contractos, suas prorogações, alterações e distractos de sociedades commerciaes; dos contractos ou estatutos das companhias ou sociedades anonymas, nacionaes e estrangeiras, e das sociedades em commandita por acções, com a lista nominativa dos subscriptores, e das marcas inscriptas no Registro Internacional.

—Representar, informar e consultar o Governo da União, sobre a necessidade de interpretar, modificar ou revogar alguma lei, regulamento ou instrucção, e de reprimir abusos de funccionarios publicos, ou de commerciantes e agentes auxiliares do Commercio, sobre os interesses do Commercio e da Industria.

—Processar administrativamente os funccionarios do Commercio que transgredirem as leis commerciaes, impondo-lhes a pena de multa, suspensão, destituição ou cassação de matricula.

Das decisões d'esta Junta, ha recurso para o ministro da Justiça e Negocios do Interior.

Os deputados e supplentes são eleitos pelo Collegio Commercial e pelo prazo de quatro annos. D'elles o ministro da Justiça escolhe o presidente e nomeia um secretario d'entre os cidadãos graduados em sciencias juridicas e sociaes.

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Em 1906, o commercio exterior do Brasil ascendeu á cifra de um milhão e quatrocentos mil contos, tres quartas partes do qual pertence á actividade dos portos do Rio de Janeiro e de Santos.

O movimento maritimo, annual, do porto da Capital Federal é, na média, comparando as estatisticas dos ultimos cincos annos, de 600 embarcações á véla e 2:400 a vapor, entradas e saídas, representando 3.000:000 de toneladas.

Porto do Rio de Janeiro

A incomparavel e formosissima bahia de Guanabara, ou do Rio de Janeiro, com 140 kilometros de circumferencia, 30 kilometros de comprimento e 28 de largura, era bem digna do auxilio dos seus possuidores na construcção de um porto commercial a aproveitar-lhe as riquezas naturaes e a facilitar o importantissimo commercio da capital da Republica.

Esta obra colossal, iniciada em 20 de Março de 1904, deve ficar concluida em 1910, e é de todos os grandes melhoramentos da metropole fluminense, o mais gigantesco e util ao seu futuro.

É devido á iniciativa do dr. Lauro Müller, quando ministro da Viação e Obras Publicas, na Presidencia do dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves. Para a sua realisação, foi levantado um emprestimo de 8:500:000 libras, tres vezes coberto na praça de Londres.

É constructora, por contracto, a firma J. C. Walcker & C.ª

Se o novo porto, propriamente dito, começa na Ponta do Cajú e termina na Avenida Central, na extensão de 7:200 metros, póde dizer-se que as obras demandadas pelo seu trafego e pelo aformoseamento das suas dependencias, teem o seu inicio na praça Onze de Junho, com a dupla, magestosa e novissima Avenida do Mangue, empolgante de belleza.

Ella substituiu uma série de pantanos immundos e prejudicialissimos á saúde publica e á segurança individual. Além da quadrupla fila de altas e elegantes palmeiras, que ladeiam o canal do Mangue, a Avenida, cujo centro é cortado por essa arteria liquida, ostenta, por sua vez, outras tantas fileiras do mesmo vegetal, que lhe seguem e aformoseiam a arrebatadora trajectoria.

No ponto em que as aguas do canal entram na amplissima bahia, a Avenida contorna, dos dois lados, os caes acostaveis, seguindo-os ás suas extremidades. O paredão, para encosto e descarga das grandes embarcações, terá a extensão total de 3:750 metros, estando já promptos uns 2:000 metros. É de fortissimo granito, tem a altura de 25 metros e enfrenta uma faixa liquida e livre de 250 metros de largura, cujos trabalhos de drenagem, pela abundancia de lama e de varios dectrictos, constituem um esforço assombroso do trabalho humano. De 30 em 30 metros, grossos pégões de ferro, fundidos no granito, offerecem sólida amarração aos transatlanticos, e uma galeria subterranea acompanha toda a extensão das muralhas, para a conducção dos varios encanamentos exigidos pelo serviço publico.

Vastissimos armazens erguem-se defronte dos caes acostaveis, e entre estes e aquelles passa um ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil.

A construcção d'este porto, trouxe tambem a vantagem da eliminação das velhas edificações, a desmoronarem-se e anti-hygienicas, dos bairros da Gambôa e da Saúde, lado do mar, e o desapparecimento dos ilheus Pombeba, Santa Barbara, Melões, Moças e Ferreiros que, pela proximidade da terra firme, serviam de depositos de immundicies e de refugios de malfeitores.

De hoje em deante, a carga e descarga de mercadorias, que era feita das grandes embarcações para as fragatas e vice-versa, com atrazo de semanas e de mezes, terá rapido despacho, como o exigem a importancia e grandeza do porto do Rio de Janeiro e as necessidades do seu commercio de importação e exportação. Concluidas todas as obras e adoptadas as medidas de largo alcance administrativo e economico, tendentes ao desenvolvimento da riqueza nacional, este porto será não só o primeiro da America do Sul, mas tambem um dos mais importantes do mundo.

A commissão de engenheiros, encarregada de estudar o projecto das obras do porto, orçamentou a sua construcção em 86:000 contos de réis, além das desapropriações já feitas no seu trajecto.

Recenseamento

O ultimo recenseamento official e o mais regular e completo que se tem feito no Rio de Janeiro, é datado de 20 de Setembro de 1906, e dá as cifras de 463:453 homens e 347:990 mulheres, sommando um total de 811:443 habitantes. Conhecida a reluctancia popular para o recenseamento, especialmente nas classes incultas, com receio do augmento de impostos e do serviço militar; attendendo á transformação, recentissima, da cidade e á era de paz, de trabalho e de desenvolvimento que o Brasil actualmente desfructa, não é exaggero calcular-se a população da sua capital em 900:000 habitantes, numero redondo, incluindo os arrabaldes e suburbios.

O penultimo recenseamento data de 1890, accusando uma população fluminense de 522:651 individuos.

Eis a divisão dos habitantes pelos 25 actuaes districtos municipaes do Districto Federal, ou seja da cidade do Rio de Janeiro, arrabaldes e suburbios:

Candelaria 4:454 Santa Rita 45:929 Sacramento 24:612 S. José 42:980 Santo Antonio 38:996 Santa Thereza 7:971 Gloria 57:477 Lagôa 47:992 Gavea 12:570 Sant'Anna 37:266 Gambôa 42:049 Espirito Santo 57:682 S. Christovão 45:098 Engenho Velho 37:695 Andarahy 48:556 Tijuca 7:708 Engenho Novo 28:422 Meyer 34:476 Inhaúma 67:478 Irajá 27:406 Jacarépaguá 14:980 Campo Grande 31:248 Guaratiba 17:928 Santa Cruz 15:380 Ilhas 8:982 — População terrestre 805:335 " maritima 6:108 — 811:443

Quadro de instrucção da população do Rio de Janeiro:

Edade Sabem lêr Não sabem lêr Total

6 a 15 annos 71:041 78:405 149:446 7 " " " 68:829 63:769 132:598 8 " " " 64:392 50:993 115:385 9 " " " 58:253 40:329 98:582 10 " " " 50:740 31:978 82:718 11 " " " 41:291 23:728 65:019 12 " " " 32:488 17:876 50:364 13 " " " 21:181 10:679 31:860 14 " " " 107:083 5:293 112:376

Menores de 6 annos havia, pelo ultimo recenseamento official, o de 20 de Setembro de 1906, 106:853 analphabetos, sendo 57:606 do sexo masculino e 49:247 do feminino, e 1035 que já sabiam lêr e escrever, 515 do sexo masculino e 520 do feminino. Maiores, de 15 annos, eram analphabetos 103:803 homens e 101:310 mulheres, sabendo lêr e escrever, 221:404 homens e 117:592 mulheres.

A area total do Rio de Janeiro é de 1:116:593:000 metros quadrados, da qual a setima parte, ou sejam 158:316:000 metros, constitue a zona urbana, com a densidade de 3:928 habitantes por kilometro quadrado.

Na zona suburbana, a densidade é de 191.

O numero de predios, no Districto Federal era, em 1906, de 84:375, e o de domicilios, de 83:686.

Sexualmente considerada, a população fluminense, em cada milhar de creaturas, dá 571 homens e 429 mulheres.

Quadro da população, por edades e sexos:

Edade Homens Mulheres Total

1 anno 9:653 8:487 18:140 2 annos 8:890 7:560 16:450 3 " 10:740 9:145 19:885 4 " 10:081 8:471 18:552 5 " 9:485 8:219 17:704 6 " 9:272 7:885 17:157 7 " 9:060 7:788 16:848 8 " 9:175 8:038 17:213 9 " 9:178 7:625 16:803 10 " 8:558 7:306 15:864 11 " 9:618 8:081 17:699 12 " 7:731 6:924 14:655 13 " 10:039 8:465 18:504 14 " 8:203 7:581 15:784 15 " 8:563 7:513 16:076 20 " 42:794 37:299 80:093 25 " 55:439 35:898 91:337 30 " 51:270 31:962 83:232 35 " 40:576 25:502 66:078 40 " 35:165 23:360 58:525 45 " 29:650 19:150 48:904 50 " 20:965 14:303 35:268 55 " 15:883 15:338 31:221 60 " 9:221 7:121 16:342 65 " 6:888 6:737 13:625 70 " 3:463 3:407 6:870 75 " 2:082 2:538 4:620 80 " 1:019 1:279 2:298 85 " 598 941 1:539 90 " 164 292 456 95 " 74 244 318 100 " 46 88 134 Maiores de 100 50 128 178 — — — 463:453 347:990 811:443

Eram solteiros 270:444, sendo 176:146 homens e 94:298 mulheres; casados 214:730; d'estes 124:904 homens e 89:826 mulheres; viuvos 52:704, 14:227 do sexo masculino e 38:477 do sexo feminino. Ignorava-se o estado civil de 9:860 homens e 6:311 mulheres. Dos casados 61 eram menores de 15 annos, dos quaes 56 mulheres e 5 homens.

Quadro da população fluminense, por profissões e sexos:

Profissão Homens Mulheres Total

Agricultura horticultura e floricultura 18:605 2:806 21:411 Creação 846 11 857 Caça e pesca 2:410 4 2:414 Pedreiras 890 1 891 Salinas — — Outras 2 2 Textis 1:924 1:010 2:934 Couros 59 4 63 Madeiras 1:240 1 1:241 Metalurgia 7:140 4 7:144 Ceramica 666 666 Productos chimicos 172 172 Alimentação 3:297 288 3:585 Vestuario 13:523 18:187 31:710 Mobiliario 755 1 756 Edificação 31:785 15 31:800 Construcção de apparelhos de transporte 669 669 Producção de forças physicas 5:301 5:301 Industrias de luxo 3:680 39 3:719 " não classificadas 23:292 2:727 26:019 Transporte maritimo 6:639 9 6:648 Transporte terrestre 14:276 11 14:287 Correios, telegraphos e telephones 1:787 85 1:872 Bancos 76 76 Casas de commissões 634 3 637 Commercio 61:022 1:040 62:062 Exercito 7:133 7:133 Armada 4:639 4:639 Policia 4:059 4:059 Bombeiros 653 653 Municipio 1:232 57 1:289 União 10:965 28 10:993 Estudos (serviços) 63 2 65 Administrações annexas 90 90 Profissões religiosas 346 280 626 " judiciarias 1:804 6 1:810 " sanitarias 3:476 308 3:784 Magisterio 883 1:959 2:842 Sciencias, lettras e artes 2:846 146 2:988 Pessôas que vivem dos seus rendimentos 2:183 1:339 3:522 Serviço domestico 23:174 94:730 117:904 Trabalhadores braçaes 29:514 419 29:933 Profissões mal classificadas 6:289 306 6:595 Classes improductivas 20:549 7:339 27:888 Profissões desconhecidas 25:780 39:712 65:492

Sem profissão declarada:

Menores de 15 annos 91:666 90:980 182:646 Maiores " " " 25:423 84:183 109:556 — — — 463:453 347:990 811:443

Pelo mesmo recenseamento havia, no Rio de Janeiro, em 1906, 312:573 brasileiros, do sexo masculino e 288:355 do feminino; 101:777 portuguezes e 31:616 portuguezas, 17:148 italianos e 8:409 italianas; 14:110 hespanhoes e 6:589 hespanholas; 1:522 allemães e 1:053 allemãs; 1:173 inglezes e 498 inglezas; 1:678 francezes e 1:796 francezas; 1:417 estrangeiros de outras nacionalidades, do sexo masculino, e 2:364 do sexo feminino, na seguinte totalidade:

Brasileiros 600:928 Portuguezes 133:393 Italianos 25:557 Hespanhoes 20:699 Allemães 2:565 Inglezes 1:671 Francezes 3:474 De outras nacionalidades 3:781

Segurança Publica

A população fluminense dorme sob a guarda de cinco differentes collectividades, tres civis e duas militares, 4 das quaes tambem fazem o policiamento da cidade durante o dia. As corporações puramente militares são a Brigada Policial e as forças do exercito que fazem parte da guarnição do Rio de Janeiro. Estas fornecem os contingentes para as guardas dos edificios e monumentos publicos e auxiliam, em caso de necessidade, as outras corporações na manutenção da ordem publica. É muito variavel o numero de unidades do exercito que estacionam na Capital Federal, por causa das exigencias do serviço, podendo, todavia, calcular-se em 7:000 as praças das tres armas, infantaria, cavallaria e artilharia, que habitualmente guarnecem a capital da Republica.

A Brigada Policial consta de 4:500 homens, dos quaes 2:700 de infantaria e 1:800 de cavallaria, sob o commando em chefe de um general, e subordinados, directamente, ao ministro da Justiça. Estaciona em dois quarteis, o de infantaria, na rua Evaristo da Veiga, e o de cavallaria, na rua Frei Caneca.

As tres corporações civis são a Guarda Nocturna, a Guarda Civil e o Corpo de Agentes de Segurança Publica. Estes, os buffos de toda a parte do mundo, indispensaveis á policia para o serviço de espionagem e de pesquizas, são apenas 50, e immediatamente dependentes do Chefe de Policia.

A Guarda Civil é composta de 1:500 homens, e tem a seu cargo o policiamento das circumscripções urbanas. Á noite, esta Guarda é auxiliada por patrulhas de cavalleiros da Brigada Policial.

Os guardas-nocturnos estão organisados em 14 das 25 zonas municipaes da cidade, e são pagos pelos moradores das respectivas parochias. São quatrocentos homens, approximadamente.

* * * * *

Quinze pretores, quinze juizes de direito, dois tribunaes do Jury e uma Côrte de Appellação, constituem a justiça civil e penal do Districto Federal.

O Pretor, que é tambem o juiz dos casamentos, tem attribuições limitadas no Civel, no Commercial e no Crime.

Em cada Pretoria, além do juiz-pretor, ha tres supplentes, nomeados para o substituirem no caso de falta.

No Civel e no Commercial, o Pretor processa e julga, em 1.ª instancia, as causas cujo valôr não exceda 5:000$000 réis. No Crime processa as causas destinadas a julgamento no Tribunal do Jury, e aquellas em que lhe cabe lavrar sentença.

Obedecendo á antiga divisão ecclesiastica da cidade, ainda hoje aproveitada, para os effeitos civis, em muitos casos, a 1.ª Pretoria comprehende a circumscripção da Candelaria e a ilha de Paquetá; a segunda a de Santa Rita e a ilha do Governador; a 3.ª actúa na circumscripção do Sacramento; a 4.ª na de S. José; a 5.ª na de Santo Antonio; a 6.ª na da Gloria; a 7.ª Lagôa e Gavea; a 8.ª Sant'Anna; a 9.ª Espirito Santo; a 11.ª Engenho Velho; a 12.ª Engenho Novo; a 13.ª Inhaúma e Irajá; a 14.ª Jacarépaguá e Guaratiba; e a 15.ª Pretoria comprehende as circumscripções de Campo Grande e Santa Cruz.

Em cada Pretoria funcciona o Registro Civil da circumscripção.

Ha tres juizes de direito do Civel; tres do Commercial; dois de Orfãos e Ausentes; um da Provedoria e Residuos; um dos Feitos da Fazenda Municipal e cinco do Crime. Estes processam e julgam todas as causas não pertencentes á alçada do Pretor e á do Tribunal do Jury.

Os juizes de direito do Civel e do Commercial, julgam qualquer causa que exceda o valor de 5:000$000 réis.

O juiz da Provedoria e Residuos, processa e julga todos os inventarios com testamento, em que não haja menores interessados.

Havendo-os, as causas são da alçada dos juizes de Orfãos e Ausentes.

O juiz dos Feitos da Fazenda Nacional, processa e julga todas as questões em que a Fazenda Municipal fôr interessada, como auctora ou ré.

O Tribunal do Jury é composto de doze juizes de facto, ou jurados, sorteados entre cidadãos brasileiros e eleitores, de 21 a 60 annos de edade. Este tribunal julga os crimes que não são submettidos a outra qualquer jurisdicção. A presidencia é exercida, alternada e mensalmente, pelos juizes do Crime.

A Côrte de Appellação é dividida em primeira e segunda camara, e tem jurisdicção em todo o Districto Federal.

É composta de 15 juizes-desembargadores, que elegem, annualmente, o seu Presidente, não podendo reelegel-o sem que passe o periodo de tres annos.

A Côrte de Appellação é o tribunal de segunda instancia, e julga todas as causas que sobem dos tribunaes dos juizes de direito, que são os de 1.ª instancia.

A terceira e ultima instancia é constituida pelo Presidente da Côrte de Appellação e pelos presidentes da primeira e da segunda camara da mesma Côrte, que formam o Conselho Superior, o qual tambem resolve os conflictos de jurisdicção das auctoridades judiciaes do Districto Federal, bem como a suspeição opposta aos desembargadores, juizes de direito e ao Procurador Geral.

O Ministerio Publico compõem-se de um Procurador Geral, cinco promotores publicos, seis adjuntos de Promotor, um Curador de Orfãos, um Curador de Massas Fallidas, um Curador de Ausentes e de Evento, e de um Curador de Residuos. É o Presidente da Republica quem nomeia todos os juizes e os membros do Ministerio Publico.

Funcciona um escrivão privativo em cada uma das pretorias e das varas de direito, havendo tres nas orphanologicas e dois escrivães na Provedoria e Residuos.

Os escrivães das pretorias suburbanas exercem as funcções de tabellião. A Côrte de Appellação tem dois escrivães, um para cada camara, e um secretario geral. Cada um dos dois tribunaes do jury, é servido por dois escrivães privativos.

* * * * *

A Chefia de Policia superintende nas seguintes repartições de serviço de segurança publica:

—Inspectoria de Policia do Porto.

—Inspectoria de Vehiculos.

—Casa de Detenção.

—Escóla Correccional.

—Colonia Correccional.

—Gabinete de Identificação e Estatistica.

A 1.ª fiscaliza o serviço de embarque e desembarque de passageiros, assim como o movimento das embarcações mercantes. A 2.ª faz a matricula dos cocheiros e carroceiros, depois de submettêl-os a um exame profissional, e regularisa o transito de carros e outros vehiculos, de accôrdo com as posturas municipaes e sob as ordens do 1.º Delegado de Policia.

A Escóla Correccional é, tambem, uma instituição de beneficencia, visto que dá educação physica, profissional e moral aos menores, agarrados na via publica, como vadios e gatunos, dos nove aos quatorze annos. Occupa um predio da rua de S. Christovão.

A Colonia Correccional está installada na ilha Grande, fóra da barra, e é destinada á rehabilitação de adultos viciosos, por meio do trabalho. É uma grande fazenda agricola e possúe varias officinas e escólas, trabalhadas e frequentadas pela escumalha criminosa da população carioca, ebrios, falsos mendigos, proxenetas, desordeiros e ladrões recalcitrantes.

O Gabinete de Identificação e de Estatistica tira o cadastro de todos os presos; trata da identificação de cadaveres desconhecidos e organisa os serviços de estatistica policial e criminal. Tambem photographa os locaes de delicto.

A Casa de Detenção abriga, provisoriamente, os presos cujos processos correm os trâmites legaes.

Nictheroy

A capital do Estado do Rio de Janeiro, mal restabelecida ainda dos grandes estragos que soffreu com a revolta da armada, estende-se, com os seus arrabaldes, da ponta de Gragoatá á da Armação, ambas fortificadas.

A travessia, do Rio de Janeiro, faz-se em vinte minutos, nas excellentes barcas, a vapor, da Companhia Cantareira e Viação Fluminense.

A cidade não encerra palacios, nem monumento algum digno de nota, porém é agradavel á vista, pelas symetricas e impeccaveis linhas dos seus longos e largos arruados, pelo aceio mantido em todo o perimetro civico, pelas manifestações progressivas que patenteia aos olhos dos visitantes e pela belleza dos seus contornos. D'estes, o mais pittoresco é a praia do Icarahy, que as ondas docemente acariciam, bordada de lindas vivendas ao centro de formosos jardins.

Santa Rosa, arrabalde onde os salesianos teem um collegio, é dominado pelo monumento de Nossa Senhora Auxiliadora, estatua dourada sobre uma torre de granito.

Do lado da Armação está o gigantesco edificio do Laboratorio Pyrotechnico. É digno de menção o novo predio da Companhia Cantareira, para a estação das barcas.

A matriz de S. João Baptista e as egrejas da Conceição, de S. Domingos e de S. Lourenço, elevam as suas torres em limpida e diaphana atmosphera, dominando um feerico panorama, em que a surprehendente bahia de Guanabara, com todos os seus thesouros naturaes, e a paisagem terrestre, assombrosamente arrebatadora, disputam a primazia na formosura e no encanto do conjuncto. Nictheroy e as suas dependencias são servidas por extensas linhas de tramways electricos. Nos arredores ha algumas fabricas, que occupam centenas de operarios.

A cidade possúe Escóla Normal, um hospital publico e o Asylo de Santa Leopoldina, para meninas, instituição de caracter particular. Nictheroy é a séde do Governador e de todas as repartições officiaes do Estado do Rio de Janeiro, bem como a residencia predilecta de parte da população que moireja na grande metropole fronteira.

Petropolis

A ex-cidade imperial, que continúa a ser, de verão, a residencia do Chefe da Nação, do mundo official e do corpo diplomatico, está em lamentavel estado de decadencia, quasi de ruina.

O trajecto é um encanto, e muito mais apreciavel por barca e caminho de ferro, a galgar as encostas e contrafortes da Serra dos Orgãos, do que só por terra. No percurso de uma hora, em barca, o observador tem occasião de extasiar-se perante as bellezas naturaes da amplissima Guanabara, salpicada de encantadoras ilhas e ilhotas e circumdada de montanhas ridentes, onde as projecções solares aureolam deslumbrantes panoramas.

Desde o portosinho de Mauá que a paisagem muda, por completo, e então o comboio, como uma fita cinematographica, deslisa por entre vegetação luxuriante, realçada por gigantescos e formosos ramalhetes de flôres, que corôam os cimos do arvoredo, e por onde lindos colibris, reflectindo todas as côres da nuance universal, adejam a formosura da natureza e os esplendôres divinos.

O trem pára na estação da Raiz da Serra, muda-se de machina e entra-se n'aquella biblica região de primôres e de delicias que os nossos primeiros paes trocaram por uma simples e saborosa maçã.

A opulencia vegetativa passa a segundo plano. É a téla que sublima a belleza do céo e o deslumbramento do sol e que além, nos esplendorosos limites do horizonte, põe termo ao assombro da nossa retina e ao supremo encanto da nossa alma.

Descrever os innumeros e maravilhosos panoramas que a subida da Serra proporciona ao nosso espirito, é sublimidade que, por sobrehumana, só aos arroubos do genio é permittido attingir.

Percorrem-se, na cidade, as avenidas ladeadas de bellas vivendas no meio de formosos jardins e suavisadas pelo deslisar de limpidas aguas; vae-se á Cascatinha, sitio encantador e votado ao mais criminoso olvido; contempla-se e admira-se o ineffavel amplexo da excelsa natureza a povoação tão amimada de primôres; e como se de páramos celestes caissemos em infectado pantano, o nosso espirito divaga da grandeza divina ás miserias humanas.

Os buracos das ruas e a lama que os occultam, o capim que começa a invadir os proprios passeios abandonados pela incuria official; frontarias sujas; edificações que se não completam e outras que ameaçam ruina; tudo isso revela, ao forasteiro, quão monstruosa é a inepcia e vergonhoso o desleixo de quem assim trata uma localidade que é um primôr de situação topographica e a residencia dos representantes dos povos nossos irmãos e collaboradores na evolução ascencional para o Progresso e para a Luz.

O brio, a dignidade nacional, o simples criterio e bom senso exigem a conservação e o aperfeiçoamento material de Petropolis.

Conviver, no meio de um charco, com as summidades diplomaticas que, no Brasil, representam as nações civilisadas de todo o mundo, é provar-lhes que a nação prefere a economia de alguns vintens á subida honra de dignamente fraternisar com os povos que a distinguem com a sua presença e amisade. E um charco será Petropolis, em poucos annos, se continuar a incuria e o abandono das auctoridades brasileiras.

Não é acceitavel o argumento de que a municipalidade não dispõem de recursos financeiros.

Este é um dos casos excepcionaes em que o governo federal póde e deve intervir por dignidade propria e do paiz que representa.

É preciso, porém, regressar e a paisagem, a natureza, Deus, o conjuncto de perfeições que paira por sobre a Terra, na immensidade dos céos, e que a humanidade jámais conseguirá corromper, enlevam-nos, pelos vôos do pensamento e pelos effluvios da alma, até onde a creatura divinisa-se pelo esquecimento eterno e pelo infinito amôr.

Apreciação Geral

Passando periodica e triumphalmente por todos os numerosos e variados aspectos de povoação colonial, de metropole de um paiz livre e de centro grandioso e bello da actividade humana, em todas as suas brilhantes manifestações, Rio de Janeiro, como desde o berço, terá sempre a aureolar-lhe o vértice glorioso dos destinos, a sua famigerada belleza natural que, sob este especialissimo ponto de vista, a sublima á apotheose de primeira cidade do mundo.

A sua esplendorosa situação geographica e topographica foi, genialmente, escolhida para capital de primeira grandeza.

Porto de entrada admiravelmente defensavel e tão vasto que, com superabundancia, abrigaria todas as esquadras mercantes e bellicas do nosso planeta; maravilhoso scenario de cordilheiras, serras e montanhas, corôadas de picos gigantescos, caprichosos e como que desenhados e vestidos para enfeite e realce da colossal metropole; valles amenissimos, encostas verdejantes e cabeços que desapparecem no seio das nuvens, onde haurem a frescura e a seiva que alimentam e suavisam a grandiosa cidade; todo esse conjuncto de primôres mantem a capital brasileira em um deslumbramento natural, que é o enlêvo e o supremo encanto dos seus moradores e visitantes. Mas, se tal é o seu aspecto geral, quanto á natureza e á situação geographica, vejamos o que é Rio de Janeiro como cidade, analysando-a detalhadamente, em todas as suas curiosidades.

Esse mesmo amplexo, tão apertado quão assombrosamente bello, das preciosidades naturaes que a envolvem, prejudicam a localidade na sua expansão material e civica, difficultando-lhe o desenvolvimento. No centro, como nas extremidades, a povoação esbarra em morros, collinas e outeiros, uns que galgou, cobrindo-os de casaria, outros que procura derrubar, para expandir-se, e ainda alguns, cuja estructura é tão formidavel, que se torna forçoso contornar ou acceitar como limite da cidade.

A soberba Avenida Central, algumas ruas largas que a cortam e outras que lhe são parallelas; a magestosa Avenida Beira-Mar; o aformoseamento de largos e praças; a erecção de monumentos publicos e a substituição de velhas edificações, transformaram, em grande parte, o Rio colonial, do Imperio e dos primeiros annos da Republica. A reedificação continúa a par da construcção gigantesca e utilissima do novo porto; novissimas avenidas e outros melhoramentos estão iniciados ou projectados, de modo que, no espaço de um decénnio, a capital brasileira será não só o primeiro centro civico e commercial da America do Sul, mas um dos melhores do globo, como já é o primeiro na incomparavel formosura dos seus contornos.

Na execução do extensissimo plano de melhoramentos materiaes não se nota, porém, o criterio que seria para desejar em assumpto de tal magnitude e importancia.

É assim que no aproveitamento de velhos arruamentos que ainda servem a povoação, taes como: Ouvidor, Rosario, Hospicio, S. Pedro, General Camara, Theophilo Ottoni e outros que communicam com a Avenida Central, para alargamento d'esses arruados, ou para construcção de novas avenidas, o que terá, impreterivelmente, de realisar-se em futuro mais ou menos proximo, serão sacrificados os grandiosos e artisticos edificios que, na Avenida Central, fazem esquinas com as ruas citadas.

Tal não se daria se houvesse o bom senso de não consentir em novas construcções nas proximidades d'esses arruamentos, edificações que, pela sua grandeza, quasi fazem desapparecer, á vista, a já exigua largura d'aquelles.

Outro gravissimo erro do governo federal e da municipalidade é a conservação, entre outros, dos morros do Castello e de Santo Antonio, cuja suppressão aproveitaria ás mesmas collectividades, pela acquisição de terreno edificavel; á salubridade e á hygiene publica pela circulação, mais livre, do ar e da luz, e á esthetica da cidade, que ficaria completa e aprimorada. Outros defeitos de menor importancia desapparecerão com o tempo e a boa vontade de dirigentes e dirigidos.

Especialmente notavel é a falta de um Jardim Zoologico, digno d'este nome, em um centro como Rio de Janeiro, capital de um dos mais ricos paizes do globo, em quasi todas as especies animaes. O que existe com este nome é deposito particular, vergonhoso e deprimente para o civismo de uma população das tradições da capital fluminense.

A burricada das companhias S. Christovão e Carris Urbanos, deve desapparecer, com brevidade, de um centro já abundantemente servido pela tracção electrica.

A população mista e bizarra da grande cidade carioca, sendo morigerada e primorosamente hospitaleira está, comtudo, longe de corresponder á grandeza material do Rio de Janeiro e ás proporções civicas, que os seus governantes, homens novos e progressistas, estão a imprimir-lhe. Ella ainda não se adaptou aos costumes dos grandes centros civilisados, onde cada qual trata da sua vida e do bem commum, sem importar-se, por educação e por falta de tempo, com o que faz o vizinho.

Nas cidades europeias e americanas, os moradores do mesmo predio não se conhecem, geralmente, limitando-se a cumprimentos de respeito quando, por acaso, encontram-se na escada. No Rio ainda impéra a bisbilhotice, e censuram constantemente os defeitos do proximo aquelles que não se conhecem. Muito ha ainda a fazer, a caminhar no sentido progressivo, n'este como sob outros pontos de vista.

Trata-se, todavia, de um paiz novo, insufficientemente preparado nos primôres da civilisação; mas cuja população é intelligente e dotada de energia e de civismo sufficientes para, dentro em poucos annos, ascender ao logar que lhe compete no convivio universal dos povos e das nações.

Possuidor de todos os elementos progressistas e civilisadores, de uma natureza uberrima, bellissima e fecunda, de homens eminentes pelas primorosas faculdades de espirito e qualidades moraes que formam os benemeritos da humanidade e da patria, o Brasil, que ainda recentemente impoz-se á consideração universal pelo genio de um dos seus filhos, continuará, ininterruptamente, a caminhar pela senda gloriosa dos seus destinos; e a sua capital, material e scientificamente aformoseada á altura da belleza natural que a sublima, brilhará, perante o mundo, como o vivo e deslumbrante testemunho do incommensuravel poder do genio da humanidade, fundido no cadinho immortal do trabalho, do talento, da justiça e do amôr.