Historias Brazileiras
CAPITULO I
Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho Alpha, sahindo da capital da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40 legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego d'aquella distante localidade.
Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio Piquiry até o Apa e o Paraná, n'esse tempo gozava a villa de fóros de importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno, nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul, havião podido lhe tirar.
Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de cidade, justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S. Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado, e Miranda do outro.
A villa tinha, além d'isso, tradições historicas que erão repetidas com desvanecimento.
Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro á influencia portugueza consolidada, no centro d'aquelles sertões, em Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que fluctuavão as quinas do dominio legal.
Entretanto, apezar d'esse passado tal ou qual illustre e das promessas do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes até, alguns dos mais antigos moradores.
Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e Nioac.
Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade, mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade. N'esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já aproveitado.
Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não fazia muitos mezes antes da chegada do Alpha, havião sido lançadas no lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de forte, as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem contestação uma obra notavel n'aquelles afastados termos e foi em 1866 vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem do districto para operar a sua concentração na fronteira.
Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, o apparecimento de um vapor causava immenso contentamento no seio da população de Miranda pelas consequencias que necessariamente havia de produzir aquella viagem de ensaio, prova cabal de que o rio, ainda na vazante, prestava-se á franca navegação muito além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até onde havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, este ultimo em 1860 no Jaurú, que é de calado não pequeno.
Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos o espirito muito inclinado para as transacções commerciaes e n'ellas desenvolvem o seu genio naturalmente activo, e tão atilado quão desconfiado.
Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos de negocio a Cuyabá e na previsão de lucros proveitosos entregavão-se á mais expansiva alegria.
Por toda a parte a agitação era grande.
Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; o sino da matriz com festivos repiques parecia querer rachar de contente e o povo, depois de se ter agglomerado nas duas ruas convergentes á praça da igreja, havia se encaminhado todo para a margem do rio, tomando a estrada que, com extensão de quasi meia legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o porto—e que não passa de uma rampa mal cavada na barranca.
No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta do Miranda desapparece, invadida pelas agoas que vêm então lamber o limiar das primeiras casas da villa, mas n'aquella occasião era uma larga avenida de chão um tanto lodoso e ensombrada por magnifico arvoredo.
Entre os grupos dos que conversavão animadamente a caminharem para o porto, circulava tambem a noticia da vinda de dous officiaes de engenheiros, incumbidos, pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que já n'esse tempo tinha soffrido senão insultos directos da parte dos nossos vizinhos paraguayos, pelo menos os effeitos de sua cada vez mais decidida altaneria.
Estava ainda recente a desagradavel impressão do modo insolente por que um commandante do forte Bella Vista, no Apa, tratára o piquete brazileiro que fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, e, na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem taes scenas e outras peiores, como em 1850—em que uma força estrangeira, sem respeito á linha divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia do mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir o sobr'olho a vizinhos tão carrancudos e desagradaveis.
N'essa época, já proxima da invasão que o dictador do Paraguay Lopez ideava, raros erão, comtudo, aquelles que, nos mais chegados lugares da fronteira, suppuzessem possivel uma guerra provocada pela republica confinante.
Sabia-se que o regimen d'aquelle paiz singular era despotico e que se achava militarisado com grande rigor de disciplina, mas ignoravão-se os innumeros recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis que accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo crença geral de que o seu affastamento systematico da communhão das nações era produzido pela politica tacanha e mal concebida dos directores de um povo, que, por habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, era feliz a seu modo, e queria viver em paz.
Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito publico com essas supposições quasi erigidas em certeza e com a convicção de que bastarião providencias de ordem secundaria para manter o Paraguay na orbita do respeito que nos era devido, intelligentes emissarios do dictador havião já percorrido de norte a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado com especialidade o territorio que mais de prompto teria de experimentar os effeitos do humor bellicoso e conquistador de Solano Lopez.
Em todo o caso, apezar do socego de que gozava o districto, é certo que a chegada de dous profissionaes com aquella commissão de caracter militar indicava que o governo central, fiando-se nas boas relações que entre as duas nações parecia não deverem de tão cedo soffrer québra, cuidava comtudo de attender para as suas fronteiras, cuja tranquillidade e segurança influião directamente no desenvolvimento agricola de toda aquella zona.
No Alpha viéra com effeito, não dous, mas um official de engenheiros, esse mesmo com incumbencia puramente civil, visto como só devia ir observar os progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho que liga aquella nascente colonia ao porto de Santa Rosalinda, no rio Brilhante, até onde já tinha subido um vapor partido de Itapúra, na provincia de S. Paulo. Quanto ao companheiro com que esse official viéra de Cuyabá, não tinha posição alguma militar, nem trouxera encargo que desempenhar.
Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por méra distracção. Homem no pleno vigor dos annos, e bastante rico para satisfazer os seus caprichos, emprehendera extensas viagens por simples distracção e pelo prazer do movimento, percorrendo paizes uns após outros como turista e á maneira de Victor Jacquemont, que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior da Asia.
O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda não era dos mais naturaes.
Achando-se n'um bello dia aborrecido do Rio de Janeiro, comprou passagem para Montevidéo, passou lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres, onde se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade pelo que dizião do Paraguay, subio até Assumpção, que, no fim de poucas horas, ficou peremptoriamente julgada e qualificada sem appellação de acanhada, monotona e estupida.
—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me a ir até Cuyabá.
E, firmando n'este argumento contestavel a necessidade de continuar a viagem fluvial, sulcou rio acima o Paraguay e, n'uma tarde de calor intenso, foi desembarcar na capital de Matto-Grosso.
Arrepender-se logo do que acabava de executar era sempre o primeiro movimento do nosso viajante; por isso a elle mesmo não causou espanto o desgosto que experimentou ao pôr pé em terra.
—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, vir ter a uma terra, onde nem sequer ha hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem ao Sr. capitão de engenheiros Freitas....
E procurando nos bolsos uma carta de recommendação de que se munira em Assumpção, sacou-a para lêr o sobrescripto e poder se orientar.
—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo da Mandioca n. 10.
Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta foi-lhe aberta por um sympathico moço, a propria pessoa a quem o recommendavão.
—Poucas relações tenho, disse o official correndo os olhos pela carta, com quem me escreve, mas sinceramente acolho quem me traz a apresentação com a maior satisfação e cordialidade.
—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo no rosto de Freitas a confirmação de suas palavras, me agrada sobremodo.
—Pois então entre, e trate-me desde já senão como amigo, pelo menos como camarada.... Onde estão as suas cargas?
—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem sou....
—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um cavalheiro....
—Pelo menos o meu nome é indispensavel....
—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais que a carta de recommendação nem sequer lembrou-se d'isso. É um cheque ao portador.... O senhor chama-se meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.
Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel era que Alberto não sentisse desvanecerem-se as primeiras impressões de máo humor. Tambem d'ahi a pouco conversavão os dous como se o conhecimento datasse dos dias de infancia.
Para o homem acostumado a viajar nada custa menos do que a immediata familiarisação. Qualquer com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre algum agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo companheiro muito estimado: outro com quem passe um dia inteiro é quasi um intimo, e se houver então uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se em amigo de data mui remota.
Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se inseparavel de Julio Freitas, o qual por seu lado fazia todos os esforços para tornar a estada do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.
—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações sobre Matto-Grosso, não é aborrecida, muito pelo contrario; mas é sempre uma cidade de provincia. O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem o espirito de quem chega e não conta deparar com povoação tão importante e, pode-se assim dizer sem exageração, tão civilisada no meio de immensos desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil, vive-se por demais debaixo da influencia da côrte. Ha bonitas mulheres, bem conversadas; dão-se brilhantes bailes; ha tal ou qual sociabilidade; o commercio tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia, nem de espirito, mas só se sente verdadeira vida quando chega a mala do Rio de Janeiro. É o sol benefico que mandou um raiosinho de luz e de calor para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento de abandono e de desterro é que me fez sempre desejar ardentemente sahir d'aqui, mas afianço-lhe que o meu contentamento pela volta, que está muito proxima, não é de todo isento de certo aperto de coração.... e entretanto nada me prende particularmente a Cuyabá....
—De modo que se houvesse algum liame, você não deixaria mais esta terra?
—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa por ser perigosa, e, como fallo a pessoa novata, recommendo-lhe que fuja das causas que o podem reter para sempre n'este canto do mundo.
—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.
—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente na meiguice das mulheres, nas cabeças de pacús e caudas de pirapitangas. Trate, pois, se não quer encalhar em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e de não provar das extremidades d'aquelles dous peixes senão com muita reserva e cautela.
Se houve e ha com effeito esse risco para quem se demora na capital de Matto-Grosso, Alberto soube tão bem resguardar-se, que quando, mez e meio depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque no vapor Alpha com destino á villa de Miranda e a sua digressão pelo districto, antes de seguir definitivamente para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para partir e muito satisfeito com tão breve retirada.
—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu passeio ás terras de Miranda e Nioac....
—Mas é cousa muito rapida e incommoda....
—Não importa....
—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa Rosalinda no Brilhante e voltar a Corumbá.
—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os indios e estar com elles. Vir a Matto-Grosso e não conviver algumas semanas com os seus amaveis aborigenes, é falta imperdoavel em viajante de meu quilate....
—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?
—Estes não me servem. Estão já modificados pelo nosso modo de viver; demais aportuguezados, já que não posso dizer abrazileirados. Em Miranda encontrarei o que desejo e, mettido em alguma aldêa, pilharei la nature chez elle.
—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar á anthropologia, não é? São estudos que agradão á muita gente, sem que por isso a sciencia adiante um passo....
Eis explicada a razão por que se achava Alberto Monteiro na villa de Miranda e fazia tambem seus preparativos para uma viagem ás terras altas.
Partirão os dous moços por uma fria madrugada, montados em bons animaes e acompanhados de tres soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso que devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos em bruacas ás costas de um valente burro de carga, redes, uma barraca de campanha, pequenas malas contendo alguma roupa, erão condições para com muita commodidade alcançar o povoado de Nioac, aliás pouco distante aos olhos de quem está acostumado a viajar por terra.
Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, cobertos, não raras vezes em vasta extensão, de piripiris, juncos que mergulhão as raizes n'agoa ou no lodo e morrem na época dos grandes calores. Entretanto, logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, já pela natureza da vegetação, já pelos córtes e margens elevadas em que correm os regatos, que o sólo vai gradualmente se levantando.
Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da povoação, a estrada alarga e parece um caminho macadamisado, tamanha é a quantidade de seixinhos rolados que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda estende-se vistoso o cerrado: ha muito umbú que embalsama os ares com a fragrancia de suas flôres, grande cópia de jatahys, de piquís, cujos fructos amarello-avermelhados são tão bonitos, e de mangabeiras que nos mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos saborosos e rubicundos pomos.
O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende como a lomba de uma serrania, cuja vertente d'esse lado é muito suave e estendida.
Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do cerrado e deixa que a vista ganhe espaço para a esquerda. Então dilata-se o horizonte, e vêem-se campos ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, uma linha tortuosa e escura de matta indica um grande rio, e no fundo, emmoldurando aquella bella paisagem, ergue-se altanada serra, corôada de pincaros escalvados e talhados de um modo tão sorprendedor, quão grandioso.
O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que serpêa a procurar o Mondego; a serra, a de Maracajú que em alguns pontos parece lavrada pela mão de caprichoso genio empenhado em imitar com proporções colossaes castellos, baluartes e outras construcções que tambem com pedra levantão os fracos mortaes.
Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, abatem-se as terras. Então, de um lado, para o Norte, melhor se accentuão os accidentes que esboçámos, e do outro, ao Sul, abrem-se campinas extensissimas sem outro córte mais na sua uniforme expansão do que um ou outro capão de matto em encontro pronunciado de declives, onde se mantenha com persistencia a humidade precisa para o desenvolvimento de vegetação mais vigorosa.
A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de continuo na pedra solta e roliça que forra o chão.
—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo as redeas ao animal para comtemplar com mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a pena vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... admiravel!
Depois do corrego de Eponadigo[1], o cerrado fica mais fechado, de modo que o viajante caminha em aléa encoberta dos raios de sol por grandes arvores, algumas das quaes até são madeiras de lei, como o jatahy e o vinhatico.
O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, escandescida que foi pela reverberação dos campos desabrigados de Camapuan.
Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se incommodado e no pouso teve febre bastante violenta.
—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o accesso, para quem, ha muitos annos, não tem tido molestia. O que porém me acontece agora é uma homenagem devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, pois.
Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, estava elle bem disposto de espirito, mas com o corpo alquebrado. Tomára uma beberagem de quina do campo que um dos soldados lhe havia preparado e transpirára muito.
Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, com muito mais intensidade d'essa vez.
Estavão então os dous viajantes no Agaxi[2], corrego que atravessa o aldeamento dos kinikináos, a meia legoa para lá da estrada, e procurarão a sombra de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.
Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar a rede que lhe havião promptamente armado. Á tarde, cahio em grande prostração e só se reanimou quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador que fizera durante todo o dia.
—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente continuar a viajar sem incorrer na pécha de imprudente, tanto menos justificavel quanto não ha dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa de indios para mais tarde e volte amanhã mesmo para a villa. Com duas dóses de sulfato de quinina desapparecerão com certeza estes accessos, e eu, dentro em poucas semanas, estou de volta a Miranda.
—Mas não ha, a pequena distancia d'aqui, um aldeamento?
—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. Se você estivesse de saude, eu lhe proporia uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha, é de prudencia regressar quanto antes.
Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou Alberto, que de manhã acompanhou Julio Freitas por um quarto de legoa na estrada de Nioac, e, lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso onde esperou tranquillo pela hora do accesso que, se foi pontual como um inglez, pelo menos não veio com a costumada violencia.
Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, uma robustez toda especial que lhe parecerão prenuncio certo de total restabelecimento.
—Não se fie n'isso, lhe disse Florindo, o soldado que Julio deixára ao amigo para camarada, ansim é que são as maleitas. Mas vossuncê não percisa para sarar ir até a cidade; fique uns pares de dias na aldêa e os ares de lá sacodem a maldade do seu corpo.
—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da experiencia.
Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com pouca distancia ao aldeamento dos indios.
O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi regulares, formando o que se chama potreiros, denominação muito popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d'essas abertas, maior em dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús.
Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e socegada.
—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida, exclamou Alberto.
E, voltando-se para o camarada:
—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa?
—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito meu conhecido e que é mandingueiro.
As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão n'uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle. Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de porta. Diante da mais espaçosa d'ellas, um bambú, ornado de comprido trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de importancia, capitão sem duvida ou então padre, que exerce as funcções de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador.
Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima, tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios guanás e kinikináos.
Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão a Florindo e saudou-o com provas até de respeito.
—Unatiti?[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca.
O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle companheiro era capitão[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de sezões.
—Quixauó! exclamou Morevi, carineti tchikiiti.[6]
Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute n'aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas de um homem branco e artista de coração.
A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça.
Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel.
Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço, então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito gesto comico, a lingoa n'uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em seu idioma, outras em portuguez estropeado.
—Este lavrado[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d'aqui a um nadinha estará batendo de volta.
Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para lá do corrego.
—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta!
E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de orgulho.
Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante. Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de Miranda na aldêa dos indios seus patricios.
Trazia todo o corpo embrulhado n'um panno alvissimo, a que chamão julata e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios, desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos idade da plenitude de mocidade e belleza n'aquellas localidades em que o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre apressado.
Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de cuidadosa attenção.
A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor.
O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe pairava na physionomia.
A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação, partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.
—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.
—Acó, respondeo Morevi, pae tchoronó-unó, filha tambem: mãe só koinukunó.[9]
—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.
O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.
—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.
Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na dextra e, abrindo-a, n'ella collocou a delicada mão da neta, ao passo que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.
Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se completamente indifferente.
Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.
CAPITULO II
A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro em que vivia.
De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.
A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia, que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.
Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi.
Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis procurava coordenar um ligeiro vocabulario.
Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.
Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.
Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia completamente estranho ao casal.
No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de, com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n'aquelle local.
Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão destinadas ao complacente Morevi.
Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por terminar e poder envergar aquella roupagem nova.
Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos hombros, repellida pela rebeldia dos seios.
Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita brandura, tristeza e alguma curiosidade.
A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior, a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo; depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou agradar ao seu espirito.
Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria, quando aquelle portuguez[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e sempre novos penteados?!
Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute subir da terra para os céos?!
N'essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse aos ares as plangentes notas da aspera garganta.
A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono prompto d'este ou d'aquelle habito menos conforme com o modo de viver civilisado.
Além d'isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas pontas e atado pelas outras ao pescoço.
O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante pennacho.
Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané, logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de Sylvana.
Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.
Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto, nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes, ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas, ora contava historias de sua tribu, n'um portuguez muito atravessado e custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso nunca visto de momices e caricias.
Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de chofre sobre elle com o fim de assultal-o.
Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito que não sente cuidados.
Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira larga.
Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor, irresistivel.
Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os prisioneiros.
Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo.
O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os olhos carregados de amor n'aquelle mancebo tão bondadoso para com todos os filhos da natureza.
Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve dar fim áquella ligação passageira.
O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas.
Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do mancebo lhe havia de denunciar.
As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo singular.
—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro.
—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.
—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das portuguezas tão alvas e bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda de bexigas.
Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d'agua; respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na mulher a posição do seu camarada.
—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta dona parece mesmo, com sua licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente.
Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava.
A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de areias prateadas.
Ahi era o banho de Ierecê.
Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas, presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e recuar, um couro sem pello estendido diante da porta.
Erão as conferencias do feiticeiro com o acauan, especie de gavião pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas podem os padres descortinar o futuro.
De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.
Ahi começavão as revelações.
Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser interrompido no melhor do somno.
Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não incommodar o portuguez.
Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas, mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?!
Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das cordas do coração.
Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor a quem o captivára.
* * * * *
Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e azulada.
A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas derrubadas por terra.
Ierecê preparára uma sorpresa.
Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para virem passar a noute no Hetagati.
Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com a tradicional julata que lhes deixava descobertos os seios pequenos e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais altivo, physionomia mais expressiva e intelligente.
Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro.
A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e medrosa, disse-lhe que d'ora avante se considerava vencida em formosura e cedia o seu lugar a quem mais o merecia.
A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a alegria de Ierecê.
Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto, palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora satisfazer a sofreguidão do appetite.
Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo ruido.
Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as companheiras ião executar.
Morevi deo o signal batendo n'um tambor de pelle de anta e entoou uma canção de andamento vivo.
Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n'essa disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d'ellas parava e unia a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas.
Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito quando a gente estivesse a dormir.
Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a funcção.
Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido.
Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco, cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar, tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi.
Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao relento.
De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas, agulhas, e os restos do banquete da vespera.
Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar até a aldêa.
No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava mostras de perceber isso.
—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos aqui?
—Talvez um mez, não é?
—Já lá vão dous, rectificou o soldado.
Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta.
—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!... Como é que não appareceo por cá?
—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo Lalima. Fazia V. S. na cidade e foi para lá em rumo certo.
—Então de Nioac ha outro caminho que não este?
—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais arriba. Ahi ha uma estrada que vai de parelha com o rio Miranda.
—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez....
No dia seguinte o projecto de partida não se realisou.
—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão, diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá. Se não, eu lá estarei n'estes dias proximos.
O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem.
—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n'aquelle mister.
—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a cidade.
A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a mesma resposta.
Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um presentimento doloroso agitava-lhe a alma.
Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que não lhe permittião quietação.
Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa.
Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.
—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n'este lindo retiro e os outros com cuidados de sua pessoinha!
Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.
—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m'as souberão dar.... Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos..... E as febres?
—Ha muito que já se forão....
—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas d'aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino? Ah! deixe lhe dar o conhecimento d'este amigo de Miranda. É um morador da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá.
Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno, physionomia amena e franca.
—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde contar.
Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a venustade da india.
—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto teve faro.
—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle fallava com perfeição.
—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os paratudos[13] já derão flôr cinco vezes.
Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava n'este mundo só, acima de tudo.
Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel, qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito.
—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso....
—Passei bem...
—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N'estes dias devemos todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito, trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não; está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo que a data não póde ser muito antiga.
Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe pelo rosto.
—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto abalado...
—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua presença é indispensavel e quanto antes...
—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir.
Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d'alma parecia-lhe que a sua hora de morrer vinha chegando.
Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos, em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem abandonal-a de chofre...
—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui anniquilado!... Fôra quasi um crime!...
—De certo, porém...
—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é máo...
—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois consolar-se-ha... é...
—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas.
Alberto nada replicou.
—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua subsistencia...
—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que elle se incumbirá de tudo...
—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu dispor para tudo quanto fôr do seu serviço....
—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda.
—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa. No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma occasião d'essas...
—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e no domingo estarei em Miranda.
—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.
—Infallivelmente...
—Veja se vai perder o vapor... depois não teria outro remedio senão descer em igarité para Corumbá... viagem vagarosa e massante....
—Não... eu partirei no Alpha, afiançou Alberto.
De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.
Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas novidades, mas, quando vio os visitantes partidos, olhou para Alberto com tamanha angustia, tanta expressão que este ficou todo perturbado.
—Que tem você? perguntou elle.
—Nada, respondeu a india...
—Você está doente?
—O corpo não está, mas isto está ficando...
E apontou para o coração, accrescentando.
—E para sempre.
Depois tornou-se silenciosa.
Á hora da refeição recusou comer e com a approximação da tarde tornou-se muito agitada. Ia e vinha do corrego para a choupana a passo lento e com o ar de completa distracção. Debalde Alberto procurou gracejar com ella: nem se quer um sorriso melancolico desdobrou-lhe os labios contrahidos. Tinha os olhos seccos e brilhantes.
A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais augmentou-lhe o desassocego: por vezes sahio para fóra da palhoça e respirou sofrega o ar frio da madrugada.
Havia um luar tristonho de mingoante: o valle estava frôxamente illuminado e ao longe ouvião-se os quero-queros que gritavão nas matas do Aquidauána.
O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A certeza de que uma grande desgraça estava imminente sobre a sua cabeça a acabrunhava.
Voltou para a choupana e parou perto da rede em que dormia Alberto.
Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou levemente no hombro do moço e acordou-o.
—Então, disse ella, unái[14] vai-se embóra?
Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio da noute, e entretanto quanto esforço assim mesmo lhe custára essa pergunta!
—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto sentando-se na rede.
—Forão aquelles homens máos que vierão buscar unái.
—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.
—E que será de Ierecê?
Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.
Estava vacillante.
—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se lembrar de mim. Deixo ordem a João Faustino para que o seu avô tenha dinheiro e roupa....
—E unái, perguntou ella, parando em cada palavra, nunca mais hade voltar?
—Volto....
Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.
De manhã a sua physionomia estava toda alterada. A mão pesada da dôr havia pousado sobre o seu rosto e, tirando-lhe o colorido das faces, traçára circulos rôxeados ao redor dos olhos.
Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e até ordens imperiosas de Alberto, ella nada comeu. Acocorada em um canto estava sombria. Parecia doente; teve um pouco de febre.
Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, decidio elle partir antes do dia em que pretendêra sahir do Hetagati.
Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte fazia-se de viagem.
O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: pelo contrario desejou-lhe toda a sorte de felicidades pelo regresso e cobrio-o de bençãos quando soube que tudo quanto continha o rancho ao lado viria a pertencer-lhe desde logo. Com a posse de duas redes, alguns cobertores, espingardas, polvora e chumbo, pelles, facões, um par de tamancos e varias notas de papel-moeda, julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de riquezas inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente o maior reconhecimento a quem se despedia por modo tão generoso.
Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, que Morevi deixou-o montar a cavallo.
Ierecê tinha se ausentado.
O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, disse com os olhos um adeos eterno áquelle recanto e fazendo um gesto amigavel ao velho, partio á hora em que o sol ia quasi chegando ao pino.
Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, quando n'uma das voltas vio Ierecê mais adiante sentada n'um tronco de arvore cahida e á sua espera.
Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, mas não poude e deixou que o cavalleiro se approximasse mais. Então chegou-se tremula e, encostando a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel apertando de encontro aos labios a mão do seu amado, ao passo que lentamente lhe descia pelas faces uma lagrima, uma unica, mas de fogo que devorava para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente de vulcão a abrir sulco fundo e devastador.
—Biónne[15], disse-lhe o moço sinceramente commovido.
—Pehehêvo[16], respondeo ella, pehehêvo!
Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta.... deserta....
Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas.
Alberto tocou o cavallo com energia. D'ahi a dous dias chegou á villa de Miranda.
CAPITULO III
Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor Alpha estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto dispensar outra qualquer demora.
—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino as instrucções relativas ao valle do Hetagati.
A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india, mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade.
Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na manhã seguinte o vapor levantava ferro.
Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa d'este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho, prostrados de fadiga.
Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza.
Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores que podessem o censurar.
O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no chão ao pé da porta.
Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção.
—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho n'aquella contingencia.
—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n'estes sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por transes d'esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo vexame. Além d'isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta! Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente com todas as suas ordens.
Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos aquelles dias passados.
A final chegou a hora da partida.
Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera concentrada para o navio que lhe roubava o amante.
Parecia, comtudo, calma.
Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de saltar na canoinha que o ia levar ao Alpha já sobre rodas no meio do rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e, retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi.
Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n'um paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n'uma contracção de agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de sahir d'aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos.
* * * * *
Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.
Era de João Faustino.
"Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas. Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe.
"Pouco tempo depois d'ella sahir d'aqui, tive necessidade de chegar ao Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao valle de Hetagati.
"Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d'aquella bella creatura. Quando assomei á porta do seu rancho[17], ella deo um grito de jubilo e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que estava deitada.
"Sua magreza era extrema.
"Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da villa, tranquilla e resignada.
"—Unái volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração.
"Julgei de caridade mentir.
"—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro.
"Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os seus olhos empanados ainda podérão fulgir.
"Depois não disse mais palavra.
"Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n'uma cova distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal.
"—O portuguez, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d'ella.
"Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.
"Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia querer sorrir.
"Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou, pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade conhecer.
"—Alber...to... Al...ber...to!
"Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração.
"Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d'aquella bella mulher na rede e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias antes pedira ao seu avô.
"Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.
"Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a vida amado muito."
* * * * *
Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração.
FIM DE IERECÊ A GUANÁ
DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA
PROVERBIO EM 1 ACTO
PERSONAGENS
Manoel Ribeiro, capitalista. D. Rita, mãe de Isabel. Antonio da Fonseca, tio de Miguel Faria. João de Siqueira. Alfredo Rocha, primo de Isabel. Ignacio Lemos, pae de Alberto Lemos. Um criado.
A scena passa-se no Rio de Janeiro.
Época—1871.
DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA
PROVERBIO
ACTO UNICO
SCENA I
Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao fundo.
MANOEL RIBEIRO, FONSECA.
RIBEIRO (passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está sentado junto á mesa).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se arranjar...
FONSECA.—Então não lhe desagrada a minha proposta?
RIBEIRO.—Sinceramente, não. Eu, além d'isso, já a esperava... Combinei certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma: previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha mulher...
FONSECA.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz.
RIBEIRO (com simplicidade affectada).—Sagacidade, não: alguma penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (parando diante de Fonseca que se levanta) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma cousa de grande n'este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim de contas?
FONSECA (com calor).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que se póde desejar mais?
RIBEIRO (levantando os hombros).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A gloria?
FONSECA (com sorpreza).—Que quer você com a gloria?
RIBEIRO (apressadamente).—Sim... ter um nome celebre, conhecido... ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas... vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado... Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora, n'este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha solemne para oitocentos e cincoenta professores (com muito fogo) hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu nascera:... entretanto...
FONSECA.—Entretanto?
RIBEIRO.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação... Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...
FONSECA.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...
RIBEIRO (com ar desabusado e puchando o beiço).—Eu poeta?... Aos cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima das fogueiras da inquisição ou espetado n'uma bayoneta, choramigador de desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado (parando de repente e com satisfação). Sinceramente agrada-me esta descripção... fui feliz devéras. (Mudando de tom) Se o poeta fôr velho então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as delicias da mocidade, que outr'ora lhe parecêra atroz, e desesperará da salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...
FONSECA.—De um Ribeiro... maganão!
RIBEIRO (sorrindo-se meio resignado).—Que quer você? Não tenho outro meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos do que muitos versos na cachola. (Rindo-se, approxima-se de Fonseca a piscar um olho) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não é? Diga com franqueza...
FONSECA.—De certo os encargos de familia...
RIBEIRO (abanando a cabeça com ar fino).—Não é só por isso!.. É tambem por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!
FONSECA (com repentino enthusiasmo).—Que actividade!
RIBEIRO.—Boa presença... bons cabellos...
FONSECA (encarecendo).—Dentes excellentes!
RIBEIRO.—É um moço que tem futuro...
FONSECA.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não diz uma palavra (faz com as mãos gesto de quem pesa) sem pesal-a cuidadosamente...
RIBEIRO (com certa hesitação).—Mas elle... me parece...
FONSECA (com algum receio).—O que?
RIBEIRO.—Prosaico de mais...
FONSECA (arrebatado).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados. Assustei-me... Então... (interrompe para assuar-se com estrondo).
RIBEIRO (com interesse).—Então?
FONSECA.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais...
RIBEIRO.—Ó homem, era arriscado.
FONSECA (com vivacidade e orgulho).—Não era? Pois bem, dous dias depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei bastante. (Com alguma ternura) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia...
RIBEIRO.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz...
FONSECA (influindo-se pouco a pouco).—Que duvida! Um noivo d'aquella força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos filhos... Comprehende?... Não ha tempo.
RIBEIRO.—E isso é mais conforme á poesia...
FONSECA.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna...
RIBEIRO.—É pena que o seu sobrinho não cultive (parando nas palavras) alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa (com gesto de quem dedilha). É tão gracioso!
FONSECA (meio admirado).—Pois quer mais arte do que a que elle tem? Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem gastador; sempre no meio termo...
RIBEIRO.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher...
FONSECA.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista.
RIBEIRO.—E minha filha? Que pensará d'elle?
FONSECA (com segurança).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu sobrinho...
RIBEIRO.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album...
FONSECA.—Qual album!...
RIBEIRO.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo, entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres...
FONSECA.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza, póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o Miguel sahe-se d'esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?.. Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta calma!... Hen? mal se percebe...
RIBEIRO.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial...
FONSECA.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (com tom grave) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (com ar funebre) É á Europa!...
RIBEIRO.—Com effeito, se elle disse isso...
FONSECA (com imposição).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz de garatujar n'um instante resmas de papel, enchendo-as de versos...
RIBEIRO (com ar de superioridade compassiva).—Ah! isto fia-se mais fino! E a inspiração?
FONSECA (com resolução).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe dou, Sr. Ribeiro...
RIBEIRO.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição indispensavel.
FONSECA.—É do que ninguem duvída... Elle entra n'esta casa com o pé direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher...
RIBEIRO.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos.
FONSECA.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o acontecimento, não é?
RIBEIRO (com alguma pausa).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca vi casamento com menos estorvo... Não gosta d'esses em que ha alguma cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a chorar... noivos audazes...
FONSECA.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro tempo... Ahi chega D. Rita...
SCENA II
RIBEIRO, FONSECA, D. RITA.
FONSECA (dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a mão).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente...
D. RITA (estende-lhe a mão).—Oh! Sr. Fonseca...
FONSECA (continuando no que ia dizendo).—que a cumprimente n'este momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca...
D. RITA.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d'esta effusão...
FONSECA.—O seo marido que lh'o diga...
D. RITA.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é?
FONSECA.—Para mim, excellente...
D. RITA.—E hade agradar-me?
FONSECA.—Estou que sim...
D. RITA (meio risonha).—Então adivinho...
FONSECA.—É...
D. RITA.—O pedido em casamento de minha filha...
RIBEIRO (intervindo).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr. Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel...
D. RITA (interrompendo-o).—E você lhe respondeo...
RIBEIRO.—O que você responderia.
FONSECA (voltando-se para D. Rita).—Então?
D. RITA (sem hesitação e com simplicidade).—Eu diria que sim! A que devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?...
FONSECA.—Não soffre duvida...
D. RITA.—E quem poderá tornal-a feliz?
FONSECA (para Ribeiro).—Sim, quem?
RIBEIRO.—Quem?
OS TRES (a um tempo).—Miguel Faria!...
D. RITA.—Tão amavel moço...
RIBEIRO.—Boa figura...
FONSECA (com ar de importancia).—E apatacado...
D. RITA.—Um cavalheiro perfeito...
RIBEIRO.—Previdente...
FONSECA.—Em cafés não ha outro igual...
RIBEIRO.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas...
D. RITA.—Accordo perfeito...
RIBEIRO.—Embora. Eu desejára algum motivo (hesitando) de contrariedade... Estes casamentos assim...
FONSECA (com alguma impaciencia).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas idéas?... (voltando-se para D. Rita).—Não entendo bem... O compadre pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!...
D. RITA (offendida).—Oh! Sr. Ribeiro!...
RIBEIRO (com alguma vivacidade).—Não: o meu pensamento não é este... eu...
FONSECA (interrompendo-o).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as circumstancias desejaveis?
RIBEIRO.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se...
D. RITA (com indignação).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...
RIBEIRO (com ar conciliador e fallando com volubilidade).—Não é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas, essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (com fogo) Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. "Tu te lembras, fulana?" pergunta o marido. "Oh! se me lembro, responde a mulher." "O signal para appareceres na janella era assim (assovia baixinho e prolongadamente) Teu pae estava dormindo"...
D. RITA (procurando interrompel-o).—Que historias, Sr. Ribeiro!
RIBEIRO (continuando).—"Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n'um varão de ferro... Eu pucho; elle rasga-se"...
D. RITA.—Mas isto é até indecente...
FONSECA.—Deixe ir... n'elle é o poeta que falla...
D. RITA (rindo-se).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de reis!...
RIBEIRO (pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si).—Não o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não; mas quanto á alma posso exclamar como Nero (batem palmas na porta do fundo.—Ribeiro muda de tom e alto).—Quem é?... É sempre assim! Estava com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (Novas palmas e fortes) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre (caminhando para a porta) entre pelo amor de Deos!
(Alfredo Rocha entra)
SCENA III
D. RITA, FONSECA, RIBEIRO E ROCHA.
RIBEIRO (olha admirado para Rocha que mostra-se espantado).—Com a bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de visitas?... Porque não entrava?...
ROCHA (cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento).—Sr. Fonseca... minha tia...
D. RITA.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...
ROCHA (com sentimentalismo como que comprimido a custo).—Oh! essas palmas tem uma significação... sim, ellas têm...
RIBEIRO.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio de uma comparação (voltando-se para Fonseca) Que dizia eu, compadre?...
FONSECA.—Você dizia... espere...
RIBEIRO (instando).—Procure... procure...
FONSECA (deitando os olhos de um lado e d'outro como quem procura no chão alguma cousa).—Nada acho...
RIBEIRO (com um dedo na testa).—Eu comparava-me... Qual!... Está perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas!
FONSECA.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu sobrinho... Este, sim, é poeta!...
D. RITA.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos...
ROCHA (com alguma enfatuação).—Oh! isto é bondade!...
RIBEIRO (com tom dogmatico).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas... aquella...
FONSECA (interrompendo-o).—Tambem foi acolhido com estrondo (voltando-se para Rocha) O senhor deve ter ganho muito, não é?
ROCHA (ironico e superior).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha quem compre livros... As letras vegetão...
RIBEIRO.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda, como para não dever favores...
FONSECA.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia...
RIBEIRO (com enfatuação).—Fui ao livreiro e paguei logo tres mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual faz como póde e entende... Entretanto...
D. RITA (interrompendo).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá vêr porque não apparece Isabel... (voltando-se para Fonseca).—O senhor janta comnosco...
FONSECA.—Já que é ordem...
D. RITA (para Rocha).—De certo você tambem...
ROCHA.—Com muito gosto...
D. RITA.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de Petropolis... (para Rocha). Quer vir, Alfredo?
ROCHA.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido...
D. RITA.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.
(D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da esquerda).
SCENA IV
RIBEIRO E ROCHA.
RIBEIRO.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer toilette antes de ir para a mesa do jantar.
ROCHA (um pouco sombrio).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!...
RIBEIRO.—Cousa urgente?...
ROCHA.—Urgentissima!
RIBEIRO.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?
ROCHA.—Gravissima...
RIBEIRO.—Á vista d'isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos...
(Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado).
RIBEIRO.—Comece pois...
ROCHA (meio acanhado).—Meu tio... convem recorrer... á sua benevolencia... antes de encetar esta conversa...
RIBEIRO (olhando para Rocha com alguma admiração).—Você está perturbado... Que tem?
ROCHA (no mesmo tom).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão grande... tão grande...
RIBEIRO (irresoluto).—Di...nheiro?
ROCHA (com movimento energico de denegação).—Não, Snr.!
RIBEIRO (mais expansivo).—Então que é?
ROCHA (hesitando).—É...
RIBEIRO (com curiosidade e chegando a cadeira).—É?...
ROCHA (tomando subita resolução e ás pressas).—É a mão de sua filha Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro, idolatro em segredo, dia e noute, a quem...
RIBEIRO (affastando um pouco a cadeira e tossindo).—Hum! hum!
ROCHA (com anciedade).—Então?... que diz?
RIBEIRO (encolhendo de vagar os hombros).—Homem, eu não digo nada.
ROCHA (apressadamente).—Então consente?... Oh! meu Deus!
RIBEIRO.—Eu não disse isso...
ROCHA (abatido).—Nega-m'a pois, oh!... hei-de...
RIBEIRO.—Tambem não disse isso...
ROCHA.—Então que foi que disse?...
RIBEIRO.—Nada! (tomando attitude de quem vai orar) Alfredo, conversemos um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e conceituado...
ROCHA (interrompendo-o).—Mas...
RIBEIRO (gravemente).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é?
ROCHA.—É verdade... aspiro...
RIBEIRO (com gesto de imposição).—Pois faz uma furiosa asneira...
ROCHA (levantando-se admirado).—Como assim?...
RIBEIRO (levantando-se tambem).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você (pausado e com voz muito grave) não deve casar! A sua vocação não lhe permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada, descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que resista a causas tão deleterias?...
ROCHA.—Meu tio...
RIBEIRO (com volubilidade).—Não me interrompa... Sei que hei de levar a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de vezes nada!...
ROCHA (enfiado).—O senhor quer caçoar...
RIBEIRO (enthusiasmando-se).—Não consinto que me interrompa... Que fôra de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio, á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!... Puramente a vida material... Em lugar d'isso, que fizerão? Carpirão só os males da alma, d'essa alma que encheu os espaços com clarões inextinguiveis!...
ROCHA.—Mas... eu amo...
RIBEIRO (levantando a voz).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos. Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d'ahi resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida; as insomnias o perseguiráõ, estou certo d'isto; perderá o appetite; terá talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer atroz!...
ROCHA (um tanto sombrio).—Não posso crêr que o senhor queira se divertir á minha custa...
RIBEIRO (muito serio).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade. Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos, cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?! Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de anormal... direi quasi de infernal!...
ROCHA.—Ora, meu tio...
RIBEIRO.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego, bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (Mudando repentinamente de tom) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples hypothese... (Voltando ao primeiro tom) frequente a taverna, desça á mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra, seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e, no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ... eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!...
ROCHA.—Não posso ouvil-o...
RIBEIRO.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio para a sua alma! E por cima quer casar?...
ROCHA.—Mas sua filha?...
RIBEIRO.—Minha filha? (Com simplicidade) Que tem? Você a accusará perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema, hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você tambem se perca?
ROCHA.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma...
RIBEIRO.—Como assim?
ROCHA.—Não vejo uma razão...
RIBEIRO.—Uma razão?
ROCHA.—Sim... um motivo plausivel...
RIBEIRO (pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça).—Pois elle existe e muito, muitissimo valioso...
ROCHA (com anciedade).—Qual é?
RIBEIRO.—A mão de Isabel já está dada...
ROCHA (com explosão).—Mas a quem?... A quem?
(Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira).
RIBEIRO (approximando-se de Rocha; á meia voz).—O noivo é o Faria.
(Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados).
ROCHA (chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento).—Meu Deus, quanto verso perdido, quanta rima n'agoa!... E eu que tinha para hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte.
SCENA V
ROCHA, RIBEIRO, FARIA E SIQUEIRA.
RIBEIRO (adiantando-se para Faria).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem vindo (aperta-lhe as mãos).
FARIA.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu particular amigo Alves de Siqueira.
RIBEIRO (apertando-lhe a mão).—Conheço-o já de vista. Tenho muito prazer em vêl-o em minha casa.
SIQUEIRA (inclinando-se).—A honra é para mim.
RIBEIRO.—Basta ser-me apresentado por quem é...
SIQUEIRA.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é summamente lisongeira...
(Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente).
RIBEIRO.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha?
FARIA (com frieza e alguma sobranceria).—Ainda não senhor; de nome... vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho...
RIBEIRO.—Justamente, um livro de poesias...
ROCHA. (com ironia).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos...
RIBEIRO (para Siqueira).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu sobrinho (Os dous cumprimentão-se seccamente).—A proposito já sei que os senhores dous jantão commigo...
SIQUEIRA.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade... Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio importante...
RIBEIRO.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo... Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (com intenção) principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma lauta refeição....
SIQUEIRA.—Pois bem, resigno-me...
RIBEIRO (com expansão).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua resignação!... Com um peixe! (Dando um muchôcho) Que peixe!... O primor dos mares!...
FARIA (com ar grave).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer demóra...
RIBEIRO (pressuroso).—N'este caso, ouvil-o hei já e já...
ROCHA.—Então eu me retiro...
RIBEIRO.—Vá lá dentro conversar com a sua prima...
FARIA (com vivacidade).—Este senhor é primo de D. Isabel?
(Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia.)
RIBEIRO.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...
(Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e volta logo para trocar novos olhares.)
SCENA VI
RIBEIRO, SIQUEIRA, FARIA.
RIBEIRO.—Sentemo-nos...
(Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres, depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia.)
SIQUEIRA (como que annunciando).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar...
FARIA (após breve pausa).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai entender com o meu futuro (parondo um pouco). Meu tio sem duvida já lhe ha de ter vindo fallar...
RIBEIRO.—Pois não... e...
FARIA (apressadamente).—Devo contar com a sua benevolencia?
RIBEIRO (com ar fino).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo isto... muito feliz!
FARIA (com fingida effusão).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A minha estrella...
SIQUEIRA (interrompendo).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em pouca conta?... Além d'isto tudo estava calculado...
RIBEIRO.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta circumspecção...
FARIA (com ar modesto).—Oh! Sr. commendador!...
RIBEIRO.—Tão bom senso...
FARIA.—Sr. commendador!...
RIBEIRO.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima muito...
FARIA.—E ella?... sua filha?...
RIBEIRO.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe fallei... mas é natural... nada mais natural...
FARIA.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe inspiro, acho-me capaz de tudo. (Com tom frio) Liquidado este primeiro negocio (emendando com rapidez a phrase), decidido este primeiro assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo Siqueira á sua presença...
SIQUEIRA (tomando a palavra, com volubilidade).—É cousa infallivel, Sr. commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista; Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d'elle, homem que a ambos deve merecer credito... não é?
FARIA E RIBEIRO (inclinando-se).—De certo!...
SIQUEIRA.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V. Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres presentes, quarenta por cento...
RIBEIRO.—Quarenta por cento... da noute para o dia?...
FARIA.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta contos e...
RIBEIRO.—Mas a somma... a somma é grande...
FARIA.—Setenta contos?...
RIBEIRO.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!...
FARIA.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança... digo até, certeza!...
RIBEIRO.—Mas... afinal... de que se trata?
SIQUEIRA.—Trata-se do algodão...
RIBEIRO.—Do algodão?...
SIQUEIRA.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café subio...
RIBEIRO.—Sei perfeitamente...
SIQUEIRA.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão...
RIBEIRO.—Sei d'isto.
SIQUEIRA.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta contos, a preço inferior... Se d'aqui a horas o paquete de New-York, que é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos pences, tem se feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me offerecem é de qualidade superior...
RIBEIRO (duvidoso).—Era bom... reflectir... Assim...
SIQUEIRA.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se... E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que entro, esses, sim, representão arrojo e segurança...
RIBEIRO (com enfatuação).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim, não é meia pataca...
SIQUEIRA (com voz insinuante).—Se fecharmos o negocio, d'aqui mesmo expeço o telegramma de compra...
RIBEIRO (voltando-se para Faria).—Que diz, Sr. Faria?...
FARIA.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente... Senão, reflexionemos um pouco...
RIBEIRO (approximando a sua cadeira da de Faria).—Sim... sim, reflexionemos um pouco...
FARIA.—Tudo n'este mundo está subordinado a causas, de maneira que para estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar á origem...
RIBEIRO (abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira).—De certo... subamos á origem...
FARIA (com tom oratorio).—Ora bem... Quaes são as causas que produzem no mundo as oscillações do movimento commercial?... Diversas...
SIQUEIRA.—Diversas... não ha duvida.
FARIA.—Mas qual a predominante?... Sem contestação a politica... Qual é hoje a face politica do globo? Paz em todos os Estados... A França exhausta... a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a parte, mas a luta armada impossivel por muitos annos. N'estas circumstancias o café, bebida excitante, tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas pedem trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos foi escassa; a do norte do Brazil não satisfez a expectação. Pelo contrario ha muito café... e depreciado...
RIBEIRO (approximando mais a sua cadeira).—Estou o seguindo com anciedade...
FARIA (batendo compasso com a bengalinha que conservára em mão desde a entrada em scena).—Depois, não nos esqueçamos de um facto natural... Cada genero tem um preço normal que representa a exacta necessidade da população consumidora. O progresso na ascensão justo e natural está sugeito a rigorosas apreciações estatisticas. O café por muito tempo esteve a tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a sete, onde ficou firme...
RIBEIRO.—Perfeitamente.
FARIA.—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco do café... É o seu ponto de equilibrio...
RIBEIRO.—De certo, de equilibrio (mechendo com os braços, imitando uma balança) Isto é uma balança: o fiel marca sete...
FARIA.—A sua comparação é justissima.
RIBEIRO. (com vivacidade).—Então gostou?
FARIA.—N'uma concha está o café, na outra...
RIBEIRO (com rapidez).—O assucar...
FARIA.—Não, o algodão. Nas nossas condições actuaes, são os dous typos de exportação. O assucar pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da betteraba e até de couros velhos...
RIBEIRO.—É verdade: equivoquei-me...
FARIA.—O café desce: sóbe o algodão...
SIQUEIRA (intervindo).—V. Ex. vê como temos tudo calculado... Podemos contar com os seus setenta?
RIBEIRO (hesitando).—Talvez... se eu consultasse com o meu socio... o Lemos...
SIQUEIRA.—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto tino! Alem d'isso é irresoluto o tal Sr. Lemos...
RIBEIRO.—De facto... elle não tem golpe de vista... esse lance de olhos que vê uma operação em globo...
SIQUEIRA (apressadamente).—Como esta, Sr. Commendador, como esta...
RIBEIRO (vacillante).—Não direi tanto...
FARIA.—O que é necessario é passar quanto antes o telegramma...
RIBEIRO (decidindo-se de repente e levantando-se).—Pois vá lá: o Lemos era incapaz. (Apresentando a mão aberta a Siqueira, que a aperta com mostras de muito respeito). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o negocio!... Escreva para Santos...
SIQUEIRA (dirige-se para a mesa, arranca da carteira uma folhinha de papel e escreve a lapis).—É já e já... Ouça, Exm.: "Todo o algodão para Siqueira & C.ª Embarque no primeiro vapor." Agora um criado!
RIBEIRO.—Toque a campa.
(Siqueira bate n'um tympano.)
FARIA.—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto (com fingida commoção) que fará a minha eterna felicidade.
SIQUEIRA (para Faria).—Então vem todo o algodão?
FARIA.—Todo. Se mais houver, que mandem! (Mudando de tom e voltando-se para Ribeiro).—Sim, a minha felicidade...
SIQUEIRA (atalhando).—E se o telegrapho estiver interrompido?
FARIA (mudando de tom).—Está trabalhando... Ha pouco passei um telegramma. (Voltando-se para Ribeiro) Na verdade o amor que sinto por sua filha...
(Entra um criado.)
FARIA (dirigindo-se para o criado e com tom imperativo).—Entregue de minha parte ao Sr. Queiroz, o administrador...
(O criado sahe.)
RIBEIRO.—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos temos entendido, ha de permittir, com o seu amigo, que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa antes de apparecer á mesa. (Para Siqueira) Como estava decidido, o senhor fica comnosco...
SIQUEIRA.—Com summo gosto...
RIBEIRO.—Verá que peixe!... Parece pescado em Santos! Vale o seu peso de algodão (rindo-se). Não gostárão?
SIQUEIRA (admirado).—De que?
RIBEIRO.—Do meu dito...
SIQUEIRA (rapidamente).—Oh! muito... esteve excellente.
RIBEIRO.—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, mas graça natural, nada forçada... É como aprecio... Isto de repentes estudados de vespera não é commigo... Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e estou de volta.
(Ribeiro sahe pela porta da esquerda.)
SCENA VII
SIQUEIRA E FARIA.
(Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende um charuto e põe-se a folhear um album de retratos.)
SIQUEIRA.—Emfim, está feito o negocio!
FARIA (soltando uma fumaça e com indifferença).—Está, sim.
SIQUEIRA (parando defronte de Faria).—Mas agora, muito seriamente, digo a você uma cousa...
FARIA.—Que é que diz?
SIQUEIRA.—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... mas tambem os setenta contos d'este homem...
FARIA.—Você, medroso, só se lembra dos seus trinta...
SIQUEIRA.—Ora... mas...
FARIA.—Deixe-se de mas... O negocio é bom.
SIQUEIRA (com anciedade).—Você acha?
FARIA (indifferente).—Acho...
SIQUEIRA.—Mas d'onde lhe vem esta segurança?...
FARIA.—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto disse ao meu futuro sogro?
SIQUEIRA.—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: se o vapor de New-York vier pedindo café e recusando algodão?... Levamos um baque soffrivel...
FARIA.—É possivel...
SIQUEIRA.—E então?
FARIA.—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo que um homem serio prevê... O mais é anomalia. (Batendo n'uma folha do album) Eis-aqui um facto. Estão n'este album dous retratos... um defronte do outro, como que a se namorarem...
SIQUEIRA (distrahido).—De quem são?
FARIA.—Um é o de minha noiva; o outro é o do tal primo, o poeta. Não é possivel que estes dous jovens photographados tenhão inclinação um para o outro?
SIQUEIRA.—Com effeito...
FARIA.—Mas o que é provavel? É que a moça tenha considerado que ella não nasceo para casar com um rapaz muito rico de versos, mas pobre de dinheiro... Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples bom senso mostra...
SIQUEIRA.—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou assim... facilmente perco a cabeça. Esta compra de algodão...
FARIA.—Ora, deixe-se d'isso. (Com desprezo) Trinta contos!
SIQUEIRA.—Sinceramente...
FARIA.—Se você se afflige quando navegamos no mar sereno das probabilidades... que fará quando o vento nos açoutar rijo?...
SIQUEIRA.—Oh! Faria, nem fallar n'isso é bom.
FARIA (fechando o album com força e levantando-se).—Pois eu... sou homem para a lucta... e...
(Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira.)
SIQUEIRA.—Está passado o telegramma... O algodão é nosso...
FARIA.—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete de New-York e teremos feito um optimo negocio... E não póde tardar... De um lado ganho com o algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de café que vinha de Campinas. Sou um general previdente... De mim não se dirá que não cuidei.
SIQUEIRA.—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...
FARIA.—Qual sorte! O descuido dos homens é que merece este nome, nada mais, nada menos. Infatuados, pueris, buscão uma explicação sobrenatural para a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me ajudado? Meu amigo, tudo n'este mundo cifra-se no esforço proprio, na iniciativa e nas quatro operações da arithmetica...
SIQUEIRA.—Eu sempre conservo o meu medo...
FARIA.—Você quer me ceder a sua parte?...
SIQUEIRA (apressadamente).—Não, não! Afianço-lhe que estou perfeitamente tranquillo...
FARIA.—Pois então não fallemos mais n'isso, tanto mais que ahi vem gente.
(Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca.)
SCENA VIII
SIQUEIRA, FARIA E RIBEIRO.
RIBEIRO (puchando os punhos da camisa).—Estou prompto, promptinho... Creio que não me fiz esperar demais...
FARIA.—Não, de certo.
RIBEIRO.—Perfeitamente!... D'aqui a pouco estaremos á mesa. O Sr. Siqueira verá que peixe!...
SIQUEIRA.—V. Ex., porém, me disse que...
RIBEIRO.—Minha excellencia não attinge á d'elle... Não ha môlho que me sirva. (rindo-se) Não gostou?
SIQUEIRA.—Muito... mas gostarei ainda mais do peixe...
RIBEIRO.—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas falta-nos o compadre Ignacio... Quererá elle dar ponto hoje? Logo hoje! O certo é que está tardando. (Ouve-se barulho fóra). Estão subindo a escada: sem duvida é elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!
SCENA IX
SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO E LEMOS.
LEMOS (entra precipitadamente com ar de grande prostração e atira-se n'uma cadeira).—Ai! não posso mais... morro de calor... que commoção!
RIBEIRO.—Que tem você?... Estava tardando... O jantar...
LEMOS (levantando-se precipitadamente).—Bem se trata de jantar!... Não quero jantar... hoje ninguem deve jantar...
RIBEIRO (inquieto).—Mas que ha? Você me assusta...
LEMOS (passeiando agitado).—Que ha? É que acabo de comprar uma partida forte de café e recusar algodão. Que ha? É que d'aqui a pouco podemos, com a chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder ainda mais. É o que ha!
RIBEIRO.—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos bem aviados!... Temos prejuizo certo...
FARIA.—É cousa infallivel!
LEMOS (reanimando-se).—Mas porque, homens de Deos? Vocês me pôem doudo...
SIQUEIRA.—Eu me abstinha...
RIBEIRO.—Por certo... mas em alguns falta o lance de olhos...
FARIA.—Querem se apressar...
LEMOS.—Talvez tenhão razão (com acabrunhamento). Aquellas saccas de café me esmagão. (Reanimando-se) Mas ao menos esperemos pelo vapor de New-York...
FARIA.—Não ha que esperar...
SIQUEIRA.—E para que esperar?
RIBEIRO.—Esperar o que?
LEMOS (muito abatido).—É verdade... é verdade...
RIBEIRO (com seccura e concertando a garganta).—De modo que o Sr. Lemos, sem me consultar, metteu-se a calculista e...
LEMOS (deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo).—Tem razão... tem razão... Compadre, o nosso prejuizo é grande...
RIBEIRO (com muita importancia).—Isto não é o que mais me aborrece... É vêl-o assim arriscar-se sem prévio conselho meu... Olhe, emquanto o senhor fazia imprudencias, eu realizava com toda a calma uma operação grave, premeditada e de lucros certos. Fechei uma compra de algodão em Santos consideravel...
FARIA (intervindo).—É verdade, o Sr. commendador, eu e Siqueira, acabamos de telegraphar, e amanhã poderemos impôr o nosso preço ao mercado.
(Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de Faria.)
SCENA X
SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E FONSECA.
FONSECA.—Impôr preço ao mercado? De que modo?
FARIA.—Eu lhe explico.
(Vai para Fonseca e falla-lhe baixo.)
LEMOS (levantando os olhos para Ribeiro, abatido.)—Você salvou-nos, Sr. compadre...
RIBEIRO.—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas vezes que faltava-lhe o palpite...
FONSECA (alto).—O negocio é excellente.
SIQUEIRA.—Optimo... mas devéras, estou com medo...
FONSECA.—Pois, então, ceda-me metade do que lhe toca...
SIQUEIRA (irresoluto).—Não... não quero... entretanto?
FONSECA (com superioridade).—Então ceda-me tudo!
SIQUEIRA.—Tudo?
FONSECA.—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?
RIBEIRO.—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste rasgo.
FONSECA.—Então aceita?
FARIA.—Você está com receios... você o da idéa... aceite...
SIQUEIRA (resolvendo-se).—Pois vá lá... Eu me contento com pouco. Mas palavra, se o senhor ganhar... tem de me agradecer a lembrança...
FONSECA.—Quer que lhe dê uma clareza?
SIQUEIRA.—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.
SCENA XI
OS MESMOS, UM CRIADO.
O CRIADO.—Esta carta urgentissima para o Sr. commendador.
RIBEIRO (apressadamente).—Dê-m'a. (Lê) Meus senhores, o vapor americano está entrando. Falla-se em alta no algodão...
SIQUEIRA (com dôr).—Oh! Faria!... Meu algodão...
FONSECA (com voz de triumpho).—Quer comprar a minha parte? 30% de lucro sobre a venda!
SIQUEIRA.—O senhor me mata!
RIBEIRO (para Lemos).—Compadre, tem algodão que vender?
LEMOS (sempre sentado; lugubre).—E o meu café!... O remedio é bebê-lo todo. Arrebentarei!
(Ouve-se uma voz fóra gritar: Meu pai! Meu pai! barulho na escada).
RIBEIRO.—Que é isto?
SCENA XII
SIQUEIRA, FONSECA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.
ALBERTO LEMOS (vem offegante e mal póde fallar). Meu pai... o vapor americano... alta no café... algodão desceo!
LEMOS (dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira).—Café?!... Café?...
ALBERTO.—Pede-se de toda a America do Norte.
TODOS.—Impossivel!
ALBERTO.—Leião! (Entrega um boletim a Ribeiro, que é logo cercado por todos com grande sofreguidão.)
RIBEIRO.—É verdade! Mas... arredem-se um pouco... Os senhores me suffocão!
LEMOS (com voz de triumpho).—Eu logo vi!
FONSECA (deixando-se cahir na cadeira em que estivéra Lemos).—Em que tremedal me metti! Infame algodão!
SIQUEIRA (chegando-se para Fonseca).—Coragem, Sr. Fonseca!... Vou certificar-me das noticias. Não se esqueça de mim.
(Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente.)
SCENA XIII
FARIA, FONSECA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.
FONSECA (levantando-se).—Não! isto é horrivel!... D'esta feita... (Com explosão) Mas é preciso fazer alguma cousa... tomar providencias!... Anda, Faria! (Sacode com força Faria, que parece estar meditando). Diga alguma cousa... Você sempre tem idéas...
FARIA (meio abatido).—Estou pensando...
FONSECA (irado).—Qual pensando! Agora não é hora de pensar. Queremos factos... factos...
RIBEIRO (muito sêcco para Faria).—É facto que o senhor, com suas historias... encalacrou-me (Com gestos da scena anterior). Equilibrio, alta... baixa... isto, aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em Santos o meu dinheiro (Pesando nas palavras) está ardendo... e...
LEMOS (interrompendo-o).—Deixe isso... Os nossos lucros por cá compensão tudo...
RIBEIRO (com altivez).—Não me queixo da perda... deploro tão sómente que calculos...
FARIA (como que acordando do lethargo).—Um telegramma para Santos... um telegramma!
FONSECA.—É verdade... um telegramma!... Um criado, depressa!
ALBERTO (que tem estado a olhar para o interior da casa).—É inutil: ha cinco minutos o telegrapho interrompeo as communicações... É noticia certa...
FONSECA.—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...
RIBEIRO.—Mais calma, meu amigo! Mais calma!
FONSECA (desabrido).—Vá á breca com os seus conselhos (Agarrando na cabeça com desespero). Minhas perdas! (De repente) Ah! uma idéa. Compadre, podemos remediar alguma cousa! Uma idéa! (Para Faria, imperioso) Você vai partir d'aqui a meia hora...
FARIA.—Para onde?
FONSECA.—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas da tarde... ha tempo de sobra... Não deixe embarcar o algodão... Ao menos espere elle em Santos... Talvez deixando passar a primeira impressão na praça... d'aqui a dias...
FARIA.—É uma idéa, mas...
FONSECA.—Mas o que?
FARIA.—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...
FONSECA.—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto você não voltar... Dous dias, ou pouco mais...
RIBEIRO (com a mão mettida dentro do bolso do collete).—Perdôe-me: isto não. (Com sorriso um pouco altivo) Mas ninguem póde retêl-o... Antes de tudo... (Accentuando) de tudo, os negocios...
FONSECA.—Você bem vê... vamos! Aviemos isto (Baixo). Eu arranjo tudo; o casamento e o mais. (Alto) Vamos.
FARIA (um pouco acanhado).—Então o Sr. commendador... consente?
RIBEIRO.—Pois não... com muito gosto... por minha parte...
FONSECA (com alegria forçada).—Ah! muito bem! depressa agora... A Santos! A Santos! (Procura empurrar Faria) livra-nos d'essa...
FARIA (com alguma resistencia).—Deixe-me ao menos despedir-me... (Estendendo a mão a Ribeiro) Dê-me então suas ordens...
RIBEIRO (com frieza).—Seja feliz... e avisado...
FONSECA.—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?
LEMOS.—De certo...
RIBEIRO (sempre sêcco).—É medida de segurança.
SCENA XIV
ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO, FONSECA E ROCHA.
ROCHA (ao entrar esbarra quasi com Faria).—Oh! senhor!...
FONSECA.—Adeos... adeos, vamos de sahida...
ROCHA.—Boa viagem!
(Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas.)
FARIA.—Oh! eu...
FONSECA.—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...
(Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por Fonseca.)
SCENA XV
ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO E ROCHA.
(Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por baixo das abas da casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, de pé, no meio da scena, com os braços cruzados sobre o peito.)
ROCHA (ironico e sombrio).—Então o Sr. Faria se retira?
RIBEIRO.—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...
ROCHA.—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais bello thesouro?
ALBERTO (assustado).—Hen?
RIBEIRO.—Ora, Alfredo...
ROCHA.—Consulte a sua consciencia, meu tio (melodramaticamente), e decida se elle é digno da noiva que lhe reservão...
ALBERTO (assustado sempre).—Noiva?
ROCHA (continuando).—Não, eu tambem sou parente... tenho que erguer a minha voz... Quer uma prova mais evidente da baixa ganancia... do mercantilismo do que a que acaba de ter?... Por uma questão de contos de réis... esse homem, que fingia um sentimento, esqueceo tudo e sobre tudo a sua noiva, anjo de innocencia, gemma de um valor inestimavel...
ALBERTO.—Mas quem é essa?
ROCHA (arrebatado).—Oh! é um diamante de Golconda... é um seraphim capaz de levar as almas ao paraizo só com o poder do seu olhar... é emfim...
RIBEIRO.—Se falla de minha filha, declaro-lhe que ella ainda não é noiva...
ROCHA.—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia crêr...
RIBEIRO (meio zangado).—Ha pouco eu lhe disse muita cousa... Na realidade, pensei que poderia... mas... emfim... nem tudo... quanto se pensa, pode realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo... (Animando-se a pouco e pouco.) E com mil bombas! este procedimento desagrada-me solemnemente...
LEMOS (com a mão no queixo).—E com toda a razão.
RIBEIRO (exaltado).—Razão tenho de sobra... É fazer pouco em mim. N'um dia em que convido para jantar não pode haver motivos...
ROCHA.—Justamente, justamente...
RIBEIRO.—E depois do que tinhamos conversado... Oh! isto não ha de ficar assim... Desfaço tudo...
ROCHA (continuando no mesmo tom).—Por uma questão pequenina de dinheiro! (Com muito desprezo) Oh! indigno metal! tão negro como as entranhas da terra em que vives!
RIBEIRO.—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e amigo! Ao Faria nunca hei de dar a minha filha...
ALBERTO (intervindo).—Por certo... É um coração secco...
ROCHA.—Um ganhador...
RIBEIRO.—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante quantia que perdeu derrubou-lhe o edificio da hypocrisia... Aquella menina devia pertencer a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.
ROCHA. (com exaltação).—Oh! meu pai (Aperta as mãos de Ribeiro.)
ALBERTO (admirado).—Mas que é isto?
ROCHA (com affectação).—É um quadro de familia... Veja e enterneça-se (Abraça Ribeiro que não lhe mostra boa cara.)
RIBEIRO (meio triste).—A final os poetas tem sempre razão...
SCENA XVI
LEMOS, ALBERTO, ROCHA, RIBEIRO E D. RITA.
D. RITA (entrando pela porta da direita).—Então, meus senhores, quando quizerem, faráõ o favor de entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o compadre Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?
RIBEIRO.—Aqui estiveram ambos e partiram...
D. RITA.—Mas voltam já...
RIBEIRO (seccamente).—Não voltão tão cedo... partiram...
D. RITA.—Para onde?...
RIBEIRO.—Para Santos...
D. RITA.—N'um dia como o de hoje! Depois das promessas! Que foi? Que houve?
RIBEIRO.—Um negocio de algodão...
D. RITA.—Não ha negocio que podesse obrigal-os a se retirar...
RIBEIRO (com explosão).—Não sei, não sei, nada sei, mas o que lhe digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha filha, a sua, a nossa filha não casará nunca com o tal Faria. (Com tom lugubre) É excusado pedir ou chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o compadre, nem com ninguem...
D. RITA (admirada).—Expliquem-me o que houve... Estou pasma.
RIBEIRO.—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha vontade e aqui (com resolução) não é casa de Gonçalo, em que a gallinha cante mais do que o gallo... É excusado, senhora...
D. RITA (picada).—Mas quem lhe disse que eu morro de amores pelo Faria?... Minha filha, graças a Deos não precisa mendigar noivos...
ROCHA (adiantando-se).—Minha tia, em duas palavras lhe explico tudo... O tal pretendente á mão de minha adoravel prima metteo-se, e por seus conselhos metteo o tio, em uma compra de algodão em Santos. Agora acontece que o genero baixou, de modo que elle, sem consideração alguma pela bondade com que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum remedio aos seus prejuizos... Não houve nada que o retivesse... nem a honra de jantar hoje aqui, nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto já lhe tinha sido quasi dada...
RIBEIRO (tossindo e cortando a palavra a Rocha).—Isto é, o tio, o animal do Fonseca, procurou, etc., etc., e tal... mas eu...
ROCHA.—Então o meu tio offendeo-se d'aquelle insolito procedimento e...
D. RITA.—De certo, fez muito bem...
ROCHA.—Comprehendeo com a sua nobreza d'alma...
D. RITA.—Eu faria o mesmo...
ROCHA.—E deo o dito por não dito...
RIBEIRO (com resolução).—E se eu disse alguma cousa, dou o dito por não dito... Em dignidade ninguem me ha de vencer...
LEMOS.—Perfeitamente, compadre...
ALBERTO.—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...
LEMOS.—Extraordinario...
ROCHA.—Inexplicavel...
RIBEIRO (com ar de dignidade offendida).—Digão antes de tudo offensivo; mas eu soube manter-me na posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?
LEMOS.—Optimamente...
D. RITA.—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo que o Sr. Fonseca ha de me ouvir...
RIBEIRO.—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a possibilidade de um prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe boa!... É verdade que os meus setenta...
(Isabel apparece na porta da direita.)
SCENA XVII
LEMOS, ALBERTO, ROCHA, FARIA, D. RITA E ISABEL.
ISABEL.—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...
ALBERTO (adiantando-se para Isabel).—Minha senhora... eu...
ISABEL (com acanhamento).—Meu senhor...
ROCHA (precipitando-se).—Oh! minha prima!...
ISABEL (adiantando-se).—Que tem, primo Alfredo? Acho-o commovido.
ROCHA.—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, sim, e muito...
RIBEIRO.—Acabemos com isto, senão eu tambem passo a commover-me!...
D. RITA.—Eu já estou commovida...
RIBEIRO.—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.
ROCHA.—Que dia este!
ALBERTO (com sorpreza e dôr).—Que é isto?
ISABEL (muito admirada).—Eu, casar-me?
RIBEIRO.—Sim... faço-lhe a vontade...
ROCHA (muito apressado).—Emfim, posso dizer que a amo, Isabel... que a adoro, a idolatro...
RIBEIRO.—E é com esses confeitos que os poetas nos dão batalha e nos vencem.
ISABEL (com constrangimento).—Devéras eu... estimo muito o meu primo... admiro o seu talento... mas...
ALBERTO (chegando-se e em tom de supplica).—Falle, D. Isabel... estou soffrendo como um desgraçado.
RIBEIRO (admirado).—Então que é isto? Você diz que...
ISABEL.—Eu... não amo a meu primo...
TODOS.—Oh!
(Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: Ribeiro pucha o beiço, como pessoa que labora em grande duvida.)
RIBEIRO.—Essa não está má! (Para Isabel) Então você de quem gosta?
ISABEL (enrubecendo).—De ninguem, papae...
ALBERTO (com tom de supplica).—D. Isabel...
ROCHA (implorando).—Oh! minha prima, que cruel momento! Por que crime estarei expiando tanta dôr! Os meus versos, os meus cantos devem já lhe ter dito quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando tudo parecia indicar o final de um soffrimento immenso, uma unica palavra sua, cruel, implacavel, veio me atirar em abysmo insondavel...
(Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para que se adiante.)
LEMOS.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha...
RIBEIRO.—Homem, é excellente! Até você é candidato?...
LEMOS (apressadamente).—É para meu filho... meu filho Alberto...
D. RITA (graciosa).—É uma cousa muito possivel.
RIBEIRO.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de...
ISABEL (intervindo com animação).—Papae, eu não disse isto...
RIBEIRO.—Então você aceita o Alberto?
ALBERTO (sofrego).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora...
ISABEL (confusa).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe...
RIBEIRO (risonho).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (Para D. Rita) E a senhora não me dizia nada!...
D. RITA.—Eu de nada sabia...
RIBEIRO.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos o meu pleno consentimento.
D. RITA.—Eu com a maior satisfação...
ROCHA (adiantando-se com ar sombrio e theatral).—E eu? Que fazem de mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?
RIBEIRO (puchando-o pela sobrecasaca).—Ora, deixe-se d'isso, Alfredo, e vem comer o nosso peixe.
ROCHA (encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama).—Não quero comer o seu peixe! (Sahe arrebatadamente.)
SCENA XVIII
LEMOS, ALBERTO, RIBEIRO, D. RITA E ISABEL.
RIBEIRO.—Vai o pobresinho furioso (levantando os hombros). Hão de vocês vêr que versalhada sahe d'aquelles furores. O certo é que no fim de contas faz-se um casamento com quem ninguem contava...
LEMOS.—Agrada-lhe menos...
RIBEIRO.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas... Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa e depressa... porque, como diz o proverbio: "Da mão á boca se perde a sôpa."
(Cahe o panno.)
FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.
CAMIRAN A KINIKINAO
EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO
CAMIRAN A KINIKINAO
Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.
Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia á existencia de seu adorado filho.
Então Camiran, em voz alta e tremula, n'um canto que mais tinha de resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira, se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás caricias de branda aragem.
Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára, mas dado de coração.
N'esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do inimigo.
Tambem quem deixára de soffrer!
A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.
O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor.
Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia do tenente Antonio João na colonia de Dourados.
Valente homem aquelle tenente!
Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e o patriotismo que lhe inflammavão o peito.
Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha diante e ao redor de si a immensidade do deserto.
Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente, não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma falla em que citou francez e até latim.
O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de Nioac.
N'essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o abandonarem.
Elle ficaria.
—Para que? perguntárão uns soldados.
—Para morrer!
Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem.
Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços.
Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á intimação do invasor.
No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar a redondeza, voltou a galope.
A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.
Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor.
Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo maculavão a verdejante relva.
—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente.
—Todos, respondêrão os onze.
—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega.
—Ninguem! repetirão os onze.
Era Leonidas no meio dos lacedemonios.
De repente soou o clarim paraguayo.
Um parlamentario se approximava.
A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em corôa de gloria.
Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior cortezia o enviado.
A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como costumavão alinhar os generaes de Lopez.
O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta:
"Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria."
E assignou com mão firme:
"Antonio João da Silva."
Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois dissesse o mesmo.
Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando.
Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo.
—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João.
Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas, ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa repercussão.
O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.
—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia.
Raros obedecêrão á ordem.
D'ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas dobras foi se ensopar no sangue d'aquelles que tanto a havião ennobrecido.
Parecia enrubescer de orgulho.
Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.
—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d'esses, a nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como nos contárão.
Outra vez repetirão isto.
Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda seis legoas.
Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel Barboza.
Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão.
Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do inimigo.
Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos, podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra.
Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava terras brazileiras.
Não caminhou muito.
A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos.
Era no dia 31 do Dezembro de 1864.
Muita gente pensou que não veria o anno novo.
No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom.
Trocarão-se amabilidades antes das balas.
Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo.
O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu arrojo.
Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d'onde tomou rumo de Sant'Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão estrangeira.
Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n'um dia de combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha cabeça para organisar a defeza de uma grande zona.
Ah! se fôra Antonio João!
Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças.
A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso.
Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o tronco.
A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:
—Os paraguayos estão passando o rio!
Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar.
De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros.
A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando, tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres de seus cavallos.
Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de correr.
De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar.
O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe perguntou:
—O seu cavallo bombeou?
—Não póde mais comsigo...
—Pois bem, então faça como eu; fréche para aquelle capão que nós cahimos logo na mata do Nioac.
—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui...
—Mas aqui é morte certa!
O outro fez um gesto de pouco caso.
—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos.
E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a sua arma e parou immovel no meio da estrada.
Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros, apressou ainda mais a carreira que trazia.
Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar o primeiro brasileiro.
Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.
Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de agonia.
Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado.
Ainda hoje, n'esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta de desenhos, na qual está gravada esta inscripção:
"Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di guera.—Ennero, 1—1865" (sic).
Ao pé d'essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de espada.
Era o craneo de Gabriel Barbosa.
No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas.
Em Miranda, d'ahi a vinte e poucas leguas, n'esse dia, a perturbação tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos, kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para correrem a se metter em emboscadas.
Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz do seu affluente, o Aquidauána.
No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão.
Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar.
Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo, havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente armamento e cartuxame.
O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter para a republica.
—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças.
Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que declarou haver d'aquelle dia em diante passado todo o districto a pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas.
Naturalmente ninguem se apresentou.
Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas intrigas.
Tudo era motivo para recriminações e queixumes.
Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão necessaria n'aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma vez vio-se desrespeitado.
O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos paraguayos.
Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos, estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder do inimigo.
Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao invasor e obter d'elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir, acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.
Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n'ella os seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.
Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei Marianno, n'um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia passado longe d'aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus extremos, de sua adoração!
As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição, nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.
Elle voava para a sua matriz.
Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.
Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d'aquelle templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.
A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão.
—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d'elles.
—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para clamar vingança aos céos.
Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em que n'ella havião entrado.
Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles inesperados successos?
Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da invasão paraguaya.
Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N. E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem chamado Rio-Branco.
Quando echoou o primeiro tiro n'aquella vasta zona, cada tribu manifestou as suas tendencias particulares. Nenhuma d'ellas, porém, congraçou com o invasor. O castelhano era por todas considerado de longas éras como inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as desgraças dos portuguezes; outras se separárão d'elles; outras, emfim, começárão a hostilisar a gente de um e outro lado.
Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa, ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz Barbosa, no Bonito.
Voltemos, porém, aos kinikináos.
Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada.
—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos, Flavio Botelho.
—Fujão todos.
—Para onde?
—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos.
Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com grande orgulho, assignada por D. Pedro I.
N'aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente e tratou de dormir.
A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.
Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.
Era o filho de Camiran.
Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando energia.
Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua aldêa. Pedia providencias n'um e n'outro sentido; indicava-as acertadas, e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e, apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão, obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios.
Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma garrafa de aguardente no fim de cada mez.
Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se apressou em saber da verdade.
Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade.
Não havia recalcitrar.
Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do trabalhador, ficando de pé a letra do contracto.
Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como o tal juiz de paz não podia fazer negocio melhor, immediatamente aceitou a proposta, com grande applauso do frade.
Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente trabalho a 500 réis diarios, esteve com toda a constancia dous mezes ás ordens do contractante, e sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do indio que substituira.
Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro mil réis que deo de esmola para as obras da matriz, e levou as garrafas de aguardente para offertal-as a Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido o coração.
Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, em compensação o seu prestigio augmentou de um modo extraordinario.
—Os portuguezes, dizião os velhos com aquelle sorriso quasi imperceptivel que os indios têm, não podem com Pacalalá. Elles são velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá é como o lagarto que dá chicotadas sem ser visto.
Camiran tinha orgulho em ser mãi d'aquelle filho, orgulho immenso, mas occulto no ádito de sua alma. Não só por indole, como pelos costumes dos seus, nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia por elle, nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, quanto mais beijal-o ou tecer-lhe elogios!
A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, repassado, com tudo, do mais profundo enthusiasmo.
Se havia cabana bem construida, forte, era a d'ella; se alguem tinha commodidade de vida na aldêa não excedia a que desfructava Camiran.
Da roça de seu filho vinha abundante colheita de aboboras, milho, arroz e feijão; varias gallinhas cacarejavão diante de sua porta, e uma vacca com o bezerro ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.
Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia.
Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual a delicada carne da jáo, da aracuan, jacutinga e inambú; mas o preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões.
Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião para o gyro habitual, embrulhava-se n'uma julata e ia deitar-se na rêde de tiras de couro, a fumar n'um grande cachimbo de barro.
Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em torpor.
As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os brancos punhão sempre n'essas relações.
—Cuidado com os portuguezes, dizia elle para os seus quando consultado; são nossos iguaes e não nossos amos. N'esta terra não deve haver duas gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar.
Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da villa, tão arbitraria quão subalterna.
—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador, que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão maltratados pelos portuguezes.
Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os kinikináos do que qualquer outro.
Se não reagia, pelo menos protestava sempre.
Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a consideração de sua tribu n'aquella difficil emergencia.
Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi. Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána, d'ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú.
A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação.
Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do nadô, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira de couro que applicão de encontro á testa.
Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á frente d'elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer.
A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão.
Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n'essa occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral.
—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada, cercado da familia em pranto.
—Para Miranda, respondeu o indio.
—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão bem a pé e depois de amanhã estou batendo na villa. Fico para esconder o meu trem no mato.
O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo sob sua protecção a familia do mineiro, com ella entrou em Miranda.
A villa estava, como dissemos, entregue á maior anarchia.
Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções de resistir e que toda demora importava augmento de perigo: entretanto, como era preciso armar os seus e as autoridades não distribuião, nem querião distribuir armamento e munições, esperou que os moradores se retirassem.
No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e um deposito immenso de artigos bellicos ficava entregue ao saque dos indios, antes de passar para o poder dos paraguayos.
Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, guanás, guaycurús, cadiuêos, beaquiéos e outros vião-se excellentes clavinas e muita polvora e bala durante todo o tempo da occupação do districto.
Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se então para o porto do Canuto e capitaneando a tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima chapada que corôa aquellas alturas.
A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, havião já chegado muitos fugitivos, entretanto como ella era coberta em toda a superficie de mato virgem e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, sem que communicassem logo uns com os outros.
Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas quanto soffrimento, quanto desespero, para toda aquella infeliz gente sem outro alimento mais do que palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e uma ou outra caça, essa mesma comprada a peso de ouro!...
Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas para entregar á terra as sementes que havião cuidadosamente trazido comsigo e preparar assim um futuro melhor.
Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos todos os kinikináos cuidarão promptamente de roçar e de plantar, pelo que forão os primeiros que conhecerão a abundancia de cereaes.
Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar os pobres refugiados que só de uma boa colheita podião esperar lenitivo para tantos males. O grão que n'ella cahio achou-se em breve multiplicado de uma maneira maravilhosa, e todos quantos galgarão a serra e se acoutarão em suas umbrosas dobras tiverão em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além das mais exageradas esperanças.
Houve até um branco de Miranda que, plantando meio alqueire de milho, colheu mais de duzentos, e de uma quarta de feijão tirou perto de quarenta alqueires!
A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira no mato, aberta é verdade com muito trabalho e a poder do machado muitas vezes manejado por mãos de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia cahir o maná do céo.
Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira ahi estabelecida de mistura com indios kinikináos, guanás, terenos e laianos, gozasse de bastantes recursos para considerar de animo mais calmo as desgraças que acabavão de soffrer e poder com paciencia esperar pelo final da guerra que os paraguayos tão imprevista quão deslealmente havião encetado.
Nos diversos lugares da serra em que havia moradores e que tomarão o nome de acampamentos, construirão-se ranchos vastos e commodos, e pouco e pouco regularisou-se o modo de viver.
Para augmentar até aquella repentina prosperidade, veio um casal de gallinhas, trazido com muita cautela de Miranda por um indio, que lá se introduzio á noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande numero que anno e meio depois contavão-se alguns possuidores de centenares de cabeças de criação.
Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a boa paz presidio as relações de todos, e em honra ao espirito da população de Matto-Grosso póde se afiançar que nenhuma scena de violencia, durante todo o tempo de exilio, lembrou que havião totalmente desapparecido o imperio das leis e a protecção das autoridades.
Os indios, em numero décuplo dos brancos e que podião, como receiarão a principio muitos, libertar-se com estrondo da tutéla em que havião vivido, se ficárão um pouco mais altanados e independentes, nem por isso praticárão desmandos nem se aproveitarão das occasiões para reacções ás vezes justificadas.
Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros ia attrahindo para lá os fugidos do districto, de modo que em fins de 1865 estavão elles quasi todos reunidos na chapada da serra de Maracajú.
O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa de um lado, e de outro desde o Paraguay até os campos de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue aos paraguayos que rondavão sobretudo a área comprehendida entre os pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, Nioac, Ariranha e Esbarrancado, onde mantiverão, até Agosto de 1866, importantes destacamentos.
Por entre essas rondas passavão á noute os indios quando descião da serra para vir laçar rezes na planicie e ajoujal-as com outras mansas, tangendo-as assim para os acampamentos.
Com essas expedições repetidas sempre com exito, apezar da vigilancia dos inimigos, abastecião-se de carne fresca e secca ao sol todos os moradores dos Morros, que então só se podião queixar da falta de sal, essa mesma até certo ponto minorada pela exploração dos barreiros e terrenos salitrosos, tão abundantes em todo o sul de Matto-Grosso.
Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade na obtenção de bois para o córte. Era o mais ousado em descer á planicie, ficando ali sem receio dias inteiros a escolher as rezes que contava agarrar. Com alguns companheiros bem armados chegou a levar oito e mais animaes, tendo sempre a cautéla de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes, quando n'isso via vantagem.
Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido de perto por uma ronda paraguaya.
Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, quando Pacalalá reconheceu que ião ser atacados. O lugar, porém, prestava-se á resistencia: era já na fralda da montanha e a trilha de subida serpeava por denso matagal de taquarissima.
Destacando dous indios para continuarem a tanger o gado, Pacalalá com os outros esperou a ronda n'um angusto pedregoso, e de um tiro certeiro derrubou o paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos mais soldados.
A ronda recuou precipitadamente, deixando como trophéos de victoria não só o cadaver do companheiro como o cavallo que montava.
Grave agitação produzio nos acampamentos dos Morros a chegada de Pacalalá todo cheio de seu triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo do inimigo.
Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n'um proximo e formal ataque dos paraguayos, que, abandonando os seus ranchos e roçados, atirarão-se pelas matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario virão n'esse successo maior garantia para a sua segurança e cobrirão o vencedor de felicitações e elogios. Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a alegria selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha embeber nas carnes pisadas pelo arrastamento facões e espadas, e o corpo espicaçado, mutilado e já sem forma foi por fim atirado aos cães e corvos.
Como consequencia d'aquelle encontro tornarão-se as descidas dos Morros mais frequentes e ousadas, e os paraguayos mais cautelosos e receiosos de emboscadas e estratagemas.
Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante umas 16 leguas e ficava muitos e muitos dias entretido em preparar e seccar os saborosos pacús, que abundão n'aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado quanto vigiadas pelas rondas dos paraguayos as margens do caudal, a que davão o nome de Rio-Branco e que impunhão como divisa do novo districto annexado á republica sob o titulo de Mbotetiû.
As temeridades do kinikináo devião necessariamente trazer um novo encontro e esse deu-se com proporções tão vastas em relação aos que n'elle se empenharão que póde ser considerado como o feito de guerra mais importante durante todo o periodo de occupação.
Foi em Maio de 1866.
No porto de D. Maria Domingas á margem direita do rio Aquiadauána, existia um extenso cannavial que era o objecto da cubiça dos indios muito inclinados ás substancias assucaradas.
Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no proprio lugar e, convidando seis kinikináos e dez terenos, poude encetar com felicidade o seu trabalho.
Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo natural abandono de medidas cautelosas quando nada parece dever prescrevel-as, ou por casualidade, forão os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou pedir reforço ao posto do Souza, d'ahi a 6 legoas.
Vierão perto de duzentos homens.
Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.
Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, os incitasse, mostrasse-lhes a vantagem da posição e emfim a necessidade de se defenderem de quem por certo não daria quartel a nenhum d'elles.
Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.
Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.
Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou cada companheiro atraz de arvores grossas e aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de fazerem fogo.
Os paraguayos estavão a pouca distancia formados em linha na planicie, assim pois os primeiros tiros derrubarão de uma vez para mais de uma duzia d'elles. Responderão com uma descarga geral, cujas balas forão só varar troncos e cortar galhada.
Os indios recuarão então, ganhando o interior da mata. Perseguidos por uma companhia de infantaria acolherão-na por modo tal que a obrigarão a retroceder.
Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda parte se achava para exaltar o animo de cada combatente e melhor aproveitar os esforços e crescente enthusiasmo dos seus commandados.
Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando os feridos e mortos e suppondo haver-se batido contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o valente, a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, não poude cantar victoria.
Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o tocára no meio da testa e o atirára sem vida no chão.
Essa morte, no fim do combate, encheu os indios de pavor e, quando a noute cahio, elles fugirão todos sem levar sequer uma das rapaduras que tão caro lhes havia custádo.
Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos dos Morros, levantou-se uma grita immensa. As moças kinikináos cortarão logo os cabellos na altura das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e prata que ainda conservavão.
A choupana de Camiran foi invadida e n'ella se erguerão gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças.
A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem sequer podia, como é de uso entre os seus, guiar as lamentações e contar as proezas e virtudes do morto.
Estava anniquilada.
Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada ouvia. Não chorava, não podia chorar, mas desde aquelles momentos sentio que não podia mais viver.
É n'um estado de quasi completo definhamento que encontramos Camiran no principio d'esta narração veridica em quasi todos os pontos e que terá o merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, na historia do quanto soffrerão os refugiados de Miranda, e sobretudo nas façanhas do desconhecido Pacalalá.
O combate do porto de Maria Domingas—que combate deve ser o qualificativo adequado áquelle encontro—fez com que, durante muitos mezes, cessasem as correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.
Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com coragem para se arriscar até o lugar em que havia valentemente guerreado.
Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não soffrera decomposição, mas estava secco e mirrado como se fôra uma mumia[20].
Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento kinikináo. Forão gritos horriveis, gemidos, ululações que se ouvião em distancia consideravel.
Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e longos mezes, mergulhada na dôr que a ia matando, foi consultar um feiticeiro e saber o que significava aquillo.
O nigromante declarou-lhe positivamente que aquelle corpo, emquanto não fosse enterrado, reteria em duro captiveiro a alma de Pacalalá.
Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar o cadaver do filho á terra.
Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da aldêa.
Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o porto de D. Maria Domingas.
Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe que a natureza toda, as arvores, os montes, os rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que o seu coração era o unico e immenso echo.
Cahio desfallecida....
Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.
Depois se ergueo a muito custo.
Não levára alimento algum.
Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que devia deitar o guerreiro morto.
Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um pouco o chão e já quasi sem forças suspendeu o cadaver ressicado e o estendeu no leito derradeiro que lhe preparára.
Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, os seus braços, finos como gomos de canniço, recusarão-se ao movimento; o seu corpo dobrou-se todo e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura mal fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados estremecimentos, as suas mãos convulsas chamavão a terra para junto de si.
A noute envolveu no manto mysterioso das sombras as ultimas dôres d'aquelle coração, e quando o sol, na manhã seguinte, irrompeo deslumbrante, os seus raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho, mas tão somente dous cadaveres que, ao calor que d'elles recebião, ião-se fundir no gigantesco cadinho que se chama a natureza!
FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.
O VIGARIO DAS DORES
O VIGARIO DAS DORES
O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente chamada villa das Aboboras, na provincia de Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da estima e da consideração de todos os seus freguezes.
Passava por ser homem de muitas letras, e raramente era visto sem ter entre mãos um livro que ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe longas e sérias meditações.
N'essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o padre Monte—assim se chamava elle—no adro da modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio fica no alto de uma collina, a cuja fralda se estendem as casas da povoação.
—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, dizião as mulheres, seguindo com os olhos o clérigo em seu limitado passeio quanto lhes permittia o pallôr do crespusculo.
Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia melancolica e quasi sombria havia logo colhido as affeições geraes pela doçura de trato e amenidade de palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar vivo e expressivo e testa larga abrindo em calva.
Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas prematuras havião lhe já impresso na fronte os sulcos da preoccupação e do soffrimento interno. Fôra educado em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso que, reduzido pela orphandade á mais completa miseria, nunca tivéra amparo de paes ou de parente algum.
Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, abraçou, por gratidão áquelles que o havião socorrido e por não ter outra vida que seguir, a carreira ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de ordens tomadas.
Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os seus livros classicos ou theologicos e cumprindo regularmente com os deveres de sua profissão passou alguns annos sem dar motivo algum para que os seus protectores se arrependessem do diminuto apoio que lhe havião dispensado.
Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, ganhava bastante para cobrir os reduzidos gastos que comsigo fazia, recusando com modestia e naturalidade de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho dos pobres.
Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes de quem o procurasse, era o padre Monte um bello modelo de virtude christã. O seu espirito benevolo não admittia exagerações em materia religiosa, mas a pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que tentasse apontal-o como desprezador dos mais insignificantes preceitos do ritual.
Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior tributo de veneração, havia alguem que conhecia uma falha profunda naquelle caracter honesto e amigo do dever.
Era elle mesmo.
O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos; repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do que a vontade, lhe havião imposto.
Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando? Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante da fé.
O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na meditação dos textos sagrados.
O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o folego.
Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e só no somno—o grande procrastinador do soffrimento—é que achava refugio.
Não houve uma unica d'essas occasiões, em que na sua mente se reproduzião os tormentos de Santo Antonio e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que lhe podesse lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe proporcionasse d'essas alegrias immensas que cercão os triumphos completos.
Havia no imo do seu peito como que uma recordação vaga do mundo que elle não conhecia, como que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres inebriantes e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos de revolta.
Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia o padre Monte as homenagens á sua virtude como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para a sua alma indomada senão indomavel.
N'essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o peccado, odial-o em cada passo da vida e, abrindo lucta com elle, não sahir sempre vencedor.
D'ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d'ahi incerteza do futuro e pavor.
O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia lhe retratava; era tão sómente aquelle que pautava o seu procedimento pelas restrictas regras que devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia d'entre os seus companheiros, quanto subira no conceito dos outros, da população e de seus superiores!...
Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas horas arrependeo-se profunda e amargamente de não haver consultado o coração e as forças antes de se alistar na milicia de Deos.
Foi com a vista de uma mulher.
Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n'aquelle dia não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous olhos cravados n'elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que fazia.
Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito vacillante aquella fascinadora visão.
Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja.
Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos.
Era uma d'essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao sopro gélido da prostituição.
O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo confissão a um velho sacerdote e aos pés d'elle abrio o coração macerado.
Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula, que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o, tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir.
A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar, fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o balsamo do bom conselho.
O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente meticulosa.
O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com poder sobrenatural.
O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo estremecião e a mente em fogo parecia um volcão.
Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria.
O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre.
No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.
Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não podia vencer o espirito das trevas.
No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica.
O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a parochia das Dôres do Rio Verde, sertão pouco povoado e ao sul daquella provincia tão bem dotada pela natureza, quão mal aproveitada pelos homens.
Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade a conseguio.
—No deserto, pensava o padre, heide domar esses movimentos revoltos. Ficarei como a rocha que se não vive, pelo menos não sente.
Justamente estava a partir uma tropa carregada de sal com destino á capital de Goyaz. Monte sahio de S. Paulo por uma tarde amena e disse-lhe o adeos ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro de Nossa Senhora do Ó.
Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica a 2 leguas da cidade e assenta n'uma cumiada d'onde se descortinão vastos horisontes. Para o sul avistão-se as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos accidentados, incultos e que parecem o portico do deserto.
O padre Monte olhou largo tempo para as bandas da cidade, e os seus olhos se arrazarão de lagrimas que ainda cahião como que inconscientes, quando elle ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que leva a Campinas.
A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto occidental de Minas e por parte de Goyaz, servio-lhe de agradavel diversão e pouco e pouco foi incutindo em seu espirito uma tranquillidade que desde muitos annos já não conhecia.
As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma variedade extraordinaria. Ora é o cerrote de Matto-Grosso d'onde a vista goza uma das mais lindas paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar de pousada. Aqui é o campo das Cruzes, logo ao sahir de Mogiguassú, como que destinado pela natureza para uma gigantesca cidade, tão plano e vasto é elle; alli são as aguas puras e borbulhantes dos ribeirões; mais diante fica a villa da Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama miuda e sempre verde; durante leguas inteiras é a vista de cerrados ennegrecidos pelo fogo, ou então de campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos encachoeirados e crystallinos.
Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se a cidade da Franca do Imperador, tão celebre outr'or pelos seus crimes e disturbios. O seu aspecto de longe é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada perfeitamente nivelada de uma elevada collina, cujas fraldas vem morrer em campo limpo. A sopé corre um ribeirão, e as casas parecem encravadas em densa matta de laranjaes e bananeiras.
Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, riscado pelo rio Grande que já ahi vai tomando apparencia do imponente Paraná.
Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão sertão da Farinha Podre e que hoje constitue as comarcas do Prata e Paraná: um angulo agudo, cujos lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi na linha bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de altos e baixos, regada, em todos os seus pontos, de agua nunca turvada, a qual brota de um chão ferreo e poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua Direita, levantão-se então nuvens de pó amarello que se agarra a todos os objectos e dá uma côr nova á camisa já matizada e barrenta do tropeiro.
Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: a vegetação é outra. Amiudão-se os grupos de magestosos boritys, essas bellas e melancolicas palmeiras que desde então acompanhão o viajante até o fundo de Matto Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, palmeiras que, uma vez vistas, não podem ser confundidas com alguma outra e que deixão, no espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma verdadeira saudade.
A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que justifica o seu nome indigena—largo e claro.—É largo e claro no estado normal; aguas espraiadas e limpidas; aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas: é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba as margens que se erguem a muitas braças acima do nivel.
Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas arterias collossaes, o Araguaya e o Tocantins, como se fôra o coração do Brasil; mas coração pelo amor e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza de aspirações, pela cordura e sinceridade, não pela força que não tem, nem póde dar ao corpo todo.
A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, diamantes, pedras preciosas, capazes de offuscar os thesouros da Persia e da India; possue mineraes riquissimos que alimentarião industrias possantes, campos para toda a especie de actividade humana, e entretanto é pobre, é pauperrima, não como o avaro que morre de fome acocorado sobre os seus milhões, mas como essas intelligencias ricas que nada produzem porque para ellas nunca chegou a cultura.
Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é só no futuro, e ninguem poderá ainda dizer quando hade raiar o dia em que um começo de realidade possa vir dar mais alento á esperança.
Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados porque os seus esforços, quando nada consigão, serão um legado precioso que, augmentado pelos annos, rasgará, por entre todas as difficuldades das distancias, da solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, caminho á prosperidade daquellas opulentissimas e incultas zonas!
A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa princeza da fabula que devia dormir seculos inteiros até que do fatidico somno a viessem acordar os emissarios de um genio bondadoso e amigo.
Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O sybilar da locomotiva e a letra telegraphica sacudirão a bella adormecida que poderá de prompto recompensar a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.
Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.
As suas posses são pequenas; nem sequer tira de si com que cobrir as mais urgentes despezas, mas em compensação guarda no intimo esses thesouros de hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já vão se tornando raros.
Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, o padre Monte chegou á capital da provincia e fez, um mez depois, a sua entrada na villa das Dôres do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.
Nos primeiros dias de installação, passou o tempo em inspecções e passeios. O processo de occupação era breve e limitados os pontos de recreio.
A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro em cujo alto está a igreja, consta de uma rua unica e tortuosa, larga aqui, estreita adiante e com casinholas cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta se não cahisse de velha, annunciando ser ahi a camara municipal, mas está tão esburacada e suja que ninguem lhe daria outra denominação que não a de pardieiro.
Estrada para passeio só ha a geral; fita larga barreada ou areenta que vai se desdobrando por sobre campos quasi uniformes em seus accidentes.
Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir desde então de morada, e acalmada aquella agitação que acompanha todo o estabelecimento novo, sentio-se o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.
Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha pouco agradaveis. Não era a lembrança daquella mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma a uma as paginas do innocente segredo que não lhe sahíra do peito senão para cahir no ouvido do confessor.
Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o peso da vida, de uma vida que lhe parecia sem mira e por demais longa.
Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os mais restrictos possivel: dizer missa aos domingos, baptisar raras vezes, casar ainda menos, tudo n'uma igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.
Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se pela amenidade de costumes e uniformidade de habitos; mas, uma vez ouvida a missa do domingo, não se occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô, havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem lá ião, tanto mais que era um ponto de reunião para trocarem algumas palavras uns com os outros e assim romper-se a monotonia das semanas.
Um outro sacerdote mais dominador do que o padre Monte, ou mais ambicioso, teria procurado reagir contra essa apathia espiritual, incutindo nos seus freguezes algum fervor, reconstruindo o templo como podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no seio das familias, chamando promptamente as crianças ao baptismo, fazendo viagens em torno para prégar e avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua exigencia e energia. Se alguma cousa, porém, faltava ao novo vigario era justamente a energia.
Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem o interior do Brasil: é pela violencia com que sacodem as naturezas apathicas do sertão e actuão sobre as imaginações.
Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma cousa naquelle piedoso sentido, mas desanimou logo. Era preciso travar lucta, e elle não tinha bastante firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás superstições que abafavão-lhe a religião como a má herva tira o alento e vida á planta benefica, mas descurada.
O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão e que logo presentio lhe damnificassem o proprio espirito, já por si inerte.
Nas primeiras missas que celebrou procurou na linguagem a mais singela explicar o Evangelho, mas notou no seu auditorio, desacostumado ás praticas, certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. Ninguem sahio de seu lugar: todos tinhão os olhos postos no pregador, mas não precisava ser observador fino para reconhecer que, se alli estavão corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias ao que lhes era ensinado.
A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; não suscitava remorsos; não penetrava no intimo das consciencias como o ferro do cirurgião na carne viva do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e torpezas; não profligava; não mostrava o Creador como um Deos carrancudo e vingador; por isso ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...
Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem virulenta e estropeada estivesse fallando!... Todos ficarião aterrados, cabisbaixos, possuidos de suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...
Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, saberia de todos os mexericos para, armado do poder da bisbilhotice, rasgar, como se diz vulgarmente, o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir os peccadores com allusões tão directas a uma determinada pessoa que equivaleria á sua exposição em pelourinho.
Para isso não servia de certo o padre Monte. Além da natural altivez de sentimento que o arredava de intrometter-se no jogo calunioso de aldêa, não poderia nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, para assim grangear a attenção dos que o ouvião e dominar o seu rebanho por meio do terror.
Tambem as suas praticas não erão seguidas senão por consideração á cathegoria official de quem as fazia.
Esta certeza tinha elle.
D'ahi um desanimo immenso e, alguns domingos depois da sua chegada, a cessação completa de explicação do Evangelho no meio da missa. Para desencargo de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, e notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão ouvir, acocoradas em cantos e com ar de estupida contemplação. O resto dos freguezes calculára pouco mais ou menos o momento em que entrava a missa para então ir ter á igreja.
—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se aos seus proprios olhos, fazer milagres, tocar-se esta gente insensivel pelo sobrenatural e, traspassando a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo divino até os seus corações.
Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao desacoroçoado sacerdote; era a força de vontade, essa alavanca inquebrantavel que produz milagres espantosos.
Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava nem podia perturbar a monotonia da vida que se vivia na villa das Aboboras.
O vigario cada vez mais se desapegára das suas ovelhas que, respeitando-o sinceramente, nunca o procuravão comtudo, nem mostravão ter grande necessidade de sua presença.
—O nosso padre é um santo homem, dizião na villa, mas é um exquisitão.
Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos vastos em torno.
Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente para aquellas extensões, e sem presentir, era sorprehendido pela escuridão! Havia dias em que, á tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se pela campina alongada, se esbatião umas nas outras até se fundirem todas na luz crepuscular.
E sempre a mesma cousa!
Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça das queimadas, então subia de ponto a tristeza do painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar incinerado uniformava todos os aspectos, até que de repente cahia a noite.
Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel voltava o vigario para a modesta vivenda e á luz de uma vela de sebo lia o seu breviario.
Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com um coachar sonóro formavam monotona orchestra.
—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude não é a atonia. A virtude é a resistencia ao mal que solicita. Aqui nada me instiga, e não sei desempenhar o meu dever. Sou bom sem merecimento e inutilmente.
Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja permitisse ao padre o casamento, não teria elle uma familia regular, em cujo seio se cultivasse o respeito á religião e que serviria de norma para as outras menos bem dotadas de intelligencia e sentimento?
Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente naquelles logares, em que o isolamento faz medrar com tanta força o egoismo, maior seria o abandono dos interesses de todos em prol da commodidade da familia. Elle não seria mais do que um funccionario publico que teria um subsidio mensal para cumprir um determinado exercicio.
Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas o padre desappareceria. O pastor teria que obedecer á imposição da natureza, olhando mais para umas ovelhas do que para todo o resto do rebanho.
Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma agitação, esse desgosto intimo servião-lhe de castigo moral pelo pouco que conseguia.
Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de caracter do padre Monte, muito livre de culpa andava elle.
O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, sem molestia physica, podia-se o considerar gravemente doente.
Uma nostalgia sui generis o ralava noite e dia.
Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os sabia de cór e salteado e nos sermões do padre Antonio Vieira, alguns volumes desirmanados, contára até as letras de cada lauda, o que anotára cuidadosamente no alto das paginas.
Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio Verde—teve a velleidade de tratar da sua remoção para outra parochia.
Esta intenção o animou por algumas horas, mas logo depois veio a reacção.
Para que?
Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de torpôr que impedira o choque da duvida, obstára á invasão talvez da descrença? Não havia conseguido o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que tanto o assustára outr'ora?
Em lugar de pedir transferencia, escreveu para Goyaz, remettendo a relação de uns livros que o seu correspondente deveria mandar comprar no Rio de Janeiro.
Nunca lh'os enviarão; entretanto esperar por elles tornou-se para o bom do vigario uma causa de distracção.
Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia dever-lhe trazer a noticia da proxima chegada de sua encommenda, mas se é difficil levar livros á Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!
O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente possivel, a satisfação de seu innocente desejo.
Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.
—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a meio o chapéo e coçando a gaforina, saberá Vossa Senhoria que tenho na minha carga uns dous pacótes que deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. Não achei na cidade o cujo e não tendo onde deixa-los, vim os trazendo até acá. Mas o trem peza e fiz tenção de pincha-los na beiradinha da estrada, se alguem não quizer ficar com eles...
—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o senhor que devia receber essa carga?
—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio de Janeiro, nhor-sim, outros que morreu.
—E o que contem as taes caixas?
—Parece que são livros da gente ler... eu cá não sei com segurança.
O vigário corou de emoção e com alguma pressa disse:
—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... E depois, como que fazendo um esforço penoso:
—Mas não será melhor que você faça a entrega a quem enviou a encommenda?
—Nhôr-não. Em Sant'Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba trazida por um tropeiro; ansim ninguem poderá acertar d'onde sahiu da primeira vez.
—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no Correio Official o que acontece.
—Isto fica a seu cuidado.
Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá.
—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa Senhoria mande abrir este trem. O cupim póde ter dado nelle: dizem que é muito caroavel do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso.
O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim, suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava.
Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica.
Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles sahir... um cupim!
Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo.
O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel.
No momento do vigario dar a primeira martellada para despregar o tampo do caixote, um pensamento sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins houvessem já tudo devorado!
Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos maravilhados do padre uma boa porção de livros, uns grossos, outros finos, uns encadernados, outros em brochura.
Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente e, com verdadeiros affagos, levando-os para cima de uma mesa, onde os collocou verticalmente.
Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem duvida alguma, proceder a um simples reconhecimento e providencialmente servira para acabar com as dolorosas vacillações do vigario.
Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite do que nunca, que o padre Monte passou revista ás obras. Havia dous volumes grossos: D. Quixote de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de Alexandre Dumas em portuguez; varios folhetos, uma historia das Missões na India e China, e Os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles.
Apezar de alguma difficuldade em comprehender a principio correntemente o francez, naquella mesma noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.
O padre Monte nunca havia lido romances; por isso semelhante livro lhe pareceu extraordinario. Aquelles episodios multiplos e tão variados quão curiosos, aquelle estylo simples mas valente, aquelles typos de D. Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas tão philosophicos e profundos na essencia, tudo o encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava de um modo desconhecido.
Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca mais bellos thesouros lhe terião deslumbrado as vistas.
E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas sonoras que echoavão no seu quarto, deshabituado de semelhantes expansões!
O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe
IV.
Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as preocupações e os desgostos que os assaltavão!
O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n'elle descobre.
D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante os passeios; o consolador daquellas afflicções d'outr'ora quando por acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão.
Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro.
Esse livro, o padre Monte leu n'um apice, arrastado pela imaginação cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.
Um acontecimento imprevisto veiu interromper aquellas leituras.
O vigario cahiu gravemente doente.
Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer forças para se arrastar a buscar a bilha d'agua, de modo que supportou o tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.
Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu auxilio de nada valia para o enfermo.
O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias.
Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz.
Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.
N'essas occasiões o vigario sentia frio no coração.
De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios havião tumultuado em seu espirito?
Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d'esses animaculos ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que.
Mas não!
A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante d'ella e guial-a pelos espaços do infinito.
Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se um clarão, cuja luz apezar da distancia incommensuravel, não podia ser fitada.
Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, indefinido, échoava uma musica suave, mas que abalava a coragem a mais indomita e quebrava-lhe toda a força.
—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á morte.
O silencio é que respondia.
—D'onde partem essas melodias estranhas? indagava elle ainda.
E sempre o silencio.
Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, acima, abaixo, por todos os lados, almas e mais almas que subião, subião, umas rapidas e velozes, como anciosas de chegarem e desferindo faiscas de luz, outras pesada e penosamente, deixando após si um sulco escuro, quasi negro.
No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como que acordou de um sonno profundo.
Estava salvo!
Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha que ella compuzéra com hervas do campo e diariamente fazia quasi á força o doente tomar, mas é de crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar a si a gloria d'aquella resurreição.
Em todo o caso começou uma longa convalescença, durante a qual o padre Monte—quem o disséra!—sentio o prazer ineffavel de voltar á vida.
Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações são sempre para elevar-se. Assim, pois, quando vai-se despenhando o corpo pelo abysmo do aniquilamento e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser doce parar de repente e subir tudo quanto acabára de rolar, bem que aggravada do peso do seu envoltorio terrestre.
O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e as mãos tremulas, poude dizer missa, elle experimentou uma uncção nova, indizivel e como sempre desejára ter sentido.
N'essa disposição foi que começou a lêr as Missões da China e India e os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles, livros, cuja leitura fôra adiada para depois de esgotados os romances.
Oh! como elle se retemperou n'aquella singela exposição de sacrificios immensos, modestos, perdidos no meio das selvas e montanhas de paizes desconhecidos! Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores que deixavão todas as regalias de cidadãos, de homens, davão de mão a toda a possibilidade de gozo, de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, cheios de ardor e esperanças no resultado que todos os esforços reunidos havião de produzir a final!...
O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.
Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito de populações indifferentes, já que não podia avivar n'ellas a fé que havião recebido dos antepassados, e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo libertada de todas as superstições e quasi gentillismos com que no sertão a cercão a ignorancia e as tradições oraes, ao menos devia procurar a gente indigena, os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador, abrir os seus corações ao influxo da religião.
Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria a massa bruta. A outros mais valentes na palavra, mais felizes, mais inspirados, mais energicos e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado que as cinzas frias da indifferença havião quasi abafado.
Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util á sua consciencia e á patria.
Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia.
A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e indomaveis Canoeiros.
Alguns sentirão devéras a retirada d'aquelle parocho, severo em seus costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve indifferentismo.
Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra, mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões, que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.
No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle.
Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro umas notas do Thesouro.
* * * * *
O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum, frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar.
Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d'aquelles que hoje são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles, brasileiros.
FIM DO VIGARIO DAS DÔRES